
PARTE 2
Helena olhou primeiro para o bilhete e depois para o pai. Por alguns segundos, não conseguiu entender por que Paulo estava falando de loteria justamente naquela noite. — Premiado quanto? — perguntou, ainda com a voz cansada.
Paulo puxou a cadeira e sentou-se diante dela. — Seiscentos mil reais. Sua mãe e eu conferimos tantas vezes que quase decoramos os números. Helena arregalou os olhos, mas não disse nada.
— A gente ainda estava resolvendo como receber o prêmio e queria esperar você voltar da viagem para contar — explicou ele. — Só que você chegou com um problema muito maior na cabeça. Então eu achei que precisava saber agora.
Helena ficou observando o bilhete sobre a mesa. Naquele mesmo dia, havia perdido a casa, os objetos pessoais e o casamento que acreditava ter. Agora, diante dela, estava uma quantia que poderia facilitar muitas coisas, mas que não apagava nenhuma delas.
— Pai, esse dinheiro é de vocês — disse finalmente. — Não quero que vocês usem o prêmio para consertar o que Marcelo fez comigo. Paulo franziu a testa, mas esperou que ela continuasse.
— Vocês trabalharam a vida inteira. Se ganharam esse dinheiro, usem para vocês. Eu posso precisar de ajuda por algum tempo, mas não quero comprar outro apartamento fingindo que o problema acabou. Quero recuperar aquilo que é meu por direito.
Paulo ficou alguns segundos em silêncio e então assentiu. — Era exatamente isso que eu queria ouvir. Não porque eu não ajudaria você, mas porque dinheiro nenhum deve servir para ensinar Marcelo que ele pode roubar sua parte e simplesmente desaparecer.
Marta apareceu à porta do escritório. Ela havia escutado a última frase. — A gente pode pagar um advogado, ajudar enquanto você reorganiza sua vida e garantir que não fique desamparada. Isso não significa que você precisa abrir mão do que é seu.
Helena respirou fundo. Pela primeira vez desde que atravessara a porta daquele apartamento vazio, conseguiu pensar além das próximas horas. — Amanhã quero procurar um advogado. Também quero registrar o que aconteceu e levantar tudo o que eu tinha dentro daquela casa.
— Temos os comprovantes da transferência que fizemos quando vocês deram a entrada no apartamento — disse Paulo. — Guardei porque era muito dinheiro. Não sei se vão resolver alguma coisa, mas mostram que aquela história de que você nunca colocou um centavo ali é mentira.
Helena assentiu. Aquilo não solucionava o caso, mas era um começo concreto. Ela também tinha extratos próprios, comprovantes das parcelas que pagara ao longo dos últimos anos e notas de algumas compras feitas para a casa.
Marta se aproximou e segurou a mão da filha. — Hoje você dorme. Amanhã resolve uma coisa de cada vez. Você não precisa decidir sua vida inteira nesta noite.
Helena voltou para o antigo quarto onde havia dormido antes de se casar. Muitas coisas ainda estavam no mesmo lugar, mas ela já não era a mulher que saíra dali três anos antes. Sentou-se na cama, colocou o celular sobre os joelhos e abriu novamente a mensagem de chamadas para Marcelo.
Por impulso, quase ligou outra vez. Queria perguntar onde ele estava, por que havia feito aquilo e como alguém podia falar em filhos num mês e abandonar a esposa no seguinte. Mas fechou a tela antes de tocar no número.
Marcelo já tinha deixado sua resposta num pedaço de papel. Helena não passaria a noite implorando por outra. A partir daquele momento, ele poderia explicar suas decisões diante das pessoas certas.
Antes de dormir, ela abriu uma pasta no computador do pai e começou a anotar tudo o que lembrava: valores pagos, móveis comprados, objetos pessoais desaparecidos e datas importantes. Quanto mais escrevia, menos se sentia uma mulher abandonada e mais se percebia como alguém diante de um problema que precisava ser enfrentado.
Naquela noite, Helena decidiu duas coisas. O casamento tinha acabado, e ela não correria atrás de Marcelo para convencê-lo a voltar. Correria apenas atrás do que ele não tinha o direito de levar.
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