
PARTE 5
Helena precisou interromper o relato por alguns minutos. A profissional que a acompanhava ofereceu água e perguntou se ela queria continuar depois, mas Helena balançou a cabeça. Disse que estava cansada de fugir da mesma noite.
Quando voltou a falar, sua voz estava baixa. Depois de bater a cabeça, caiu ao lado da cama e ficou desorientada. O ferimento começou a sangrar quase imediatamente; quando tentou se levantar, perdeu o equilíbrio e caiu de novo.
Gustavo entrou em pânico.
Não chamou uma ambulância.
Não chamou a polícia.
Primeiro tentou fazê-la sentar no banheiro e pressionou uma toalha contra o ferimento. Depois começou a dizer que ela estava exagerando, que tinha avançado sobre ele e que, se alguém descobrisse aquilo, os dois perderiam o estúdio, o casamento e tudo o que tinham construído.
Helena contou que mal conseguia organizar os pensamentos.
— Eu só queria que ele fosse embora.
Mas Gustavo não foi.
Quando percebeu a quantidade de sangue no quarto, começou a falar sobre meu apartamento, sobre a possibilidade de eu chegar e encontrar tudo daquele jeito, sobre a polícia fazer perguntas e sobre Helena ser acusada de ter provocado a briga.
Segundo ela, ele repetiu várias vezes que ninguém acreditaria em alguém que “vinha surtando por causa de dinheiro e ciúme”.
Foi então que eu entendi por que aquela palavra me incomodara tanto na mensagem dele.
Paranoia.
Não era apenas uma descrição.
Podia ser uma defesa preparada com antecedência.
Helena disse que Gustavo a ajudou a chegar ao banheiro. Em determinado momento, quando ela tentou voltar para pegar o celular no quarto, ele a segurou pelo braço e a puxou de volta. Era provavelmente isso que explicava parte dos vestígios alongados encontrados no piso.
Depois, ele começou a limpar.
Helena ajudou.
Quando contou essa parte, ela não tentou justificar.
— Eu limpei, Lara.
Olhou diretamente para mim.
— Eu estava machucada, estava com medo, mas fui eu também. Tirei a capa do sofá. Passei pano no chão. Lavei o banheiro. Quando ele disse que o cheiro ainda estava forte, trouxe aquele purificador que tinha no carro.
Eu a ouvi sem interromper.
— Por que você não me ligou?
— Eu liguei.
— Para mentir.
Helena baixou os olhos.
A frase saiu mais dura do que eu pretendia, mas era verdade.
Ela confirmou.
Gustavo tinha saído pouco antes da ligação, depois de dizer que precisava resolver uma coisa no estúdio e que voltaria. Helena ficou sozinha, ainda atordoada, terminando parte da limpeza. Foi naquele momento que me telefonou.
O barulho de água que ouvi era exatamente o que imaginei.
Ela estava lavando o chão.
Quando perguntei, entrou em pânico e negou.
— Depois que desliguei, percebi que ele podia voltar.
Foi então que pegou uma mochila, deixou a chave onde tinha prometido e saiu.
O celular estava quase sem bateria. Ela foi primeiro para uma estação, depois pegou transporte até outra cidade. Desligou o aparelho porque temia que Gustavo conseguisse encontrá-la por meio de contas compartilhadas ou de algum recurso que ela própria não sabia se estava ativado.
Na manhã seguinte, sentiu tontura e procurou atendimento médico.
Perguntei por que não contou a verdade para a médica.
Helena demorou a responder.
— Porque eu ainda achava que, se eu dissesse em voz alta que ele tinha me empurrado, não teria mais volta.
Aquela resposta me doeu de um jeito diferente.
Durante anos, eu havia imaginado que as grandes decisões da vida aconteciam em momentos claros. A pessoa percebia algo, tomava coragem e agia.
Helena me mostrou o contrário.
Às vezes, alguém já sabe exatamente o que aconteceu e mesmo assim leva dias para conseguir chamar aquilo pelo nome.
Ela também admitiu outra coisa.
Tinha medo de que Gustavo afirmasse que ela o atacara primeiro. Durante a discussão, ela tentara afastá-lo quando ele pegou a pasta. Não sabia como aquilo seria interpretado.
O investigador, que ouviu o relato formal depois, explicou que a dinâmica precisaria ser analisada junto das provas. Ninguém prometeu que bastaria contar a história para tudo se resolver.
E foi justamente isso que tornou a situação mais real.
Não havia documento mágico.
Não havia gravação perfeita.
Não havia testemunha escondida atrás de uma porta.
Havia sangue no meu apartamento, um ferimento registrado por atendimento médico, hematomas, mensagens, movimentações financeiras, depoimentos e versões que precisariam ser comparadas.
Helena entregou as roupas que ainda tinha usado naquela noite e autorizou o acesso ao celular assim que fosse recuperado. Também informou onde acreditava ter deixado a pasta do estúdio.
Segundo ela, quando saiu correndo do apartamento, a pasta ficou no quarto.
A perícia já a tinha encontrado, fechada dentro de uma gaveta.
Não continha uma confissão de Gustavo nem prova definitiva de crime. Eram cópias de extratos, notas, planilhas e pedidos de comprovantes.
Ou seja: exatamente o tipo de material que fazia sentido Helena ter levado para uma conversa sobre as contas.
Gustavo foi chamado novamente.
Dessa vez, confrontado com a informação de que Helena estava viva e havia prestado depoimento.
A polícia não me contou como ele reagiu.
Eu também não perguntei.
Minha preocupação naquele momento era outra.
Quando saímos do atendimento, Helena perguntou se podia ficar na minha casa.
Foi a primeira decisão difícil que precisei tomar depois de encontrá-la.
Eu queria protegê-la.
Também estava magoada.
— Você pode ficar comigo hoje — respondi. — Mas amanhã a gente vai organizar um lugar seguro para você. E depois precisamos conversar sobre o que aconteceu entre nós também.
Ela assentiu.
Não chorou.
Pareceu entender.
Naquela noite, enquanto ela dormia no meu sofá, fiquei sentada na cozinha pensando em como duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.
Helena tinha sido vítima de uma violência.
E também havia mentido para mim, usado meu apartamento e me deixado descobrir sozinha um cenário que parecia uma cena de homicídio.
Apoiar minha amiga não significava fingir que nada disso havia acontecido.
Pela primeira vez desde que ela desapareceu, nossa amizade deixou de ser apenas uma lembrança de doze anos.
Precisaria sobreviver ao presente.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














