
PARTE 8
Três meses depois, meu apartamento já estava reformado. A parede do quarto recebeu uma nova pintura, parte do piso foi substituída e o banheiro finalmente perdeu aquela faixa de silicone aplicada às pressas.
Durante algum tempo, pensei em vender o imóvel.
Depois percebi que estaria tomando uma decisão importante apenas para me afastar de uma memória.
Então fiz o contrário.
Comecei a usá-lo de verdade.
Passei alguns fins de semana ali, trouxe livros que estavam encaixotados, troquei a luminária da sala e coloquei plantas perto da janela. Pela primeira vez desde que comprei o apartamento, ele deixou de parecer um investimento vazio esperando alguma utilidade futura.
Helena não entrou lá durante esses meses.
Não porque eu tivesse proibido.
Ela simplesmente nunca pediu.
Nossa amizade encontrou um ritmo novo. Almoçávamos, trocávamos mensagens e às vezes passávamos alguns dias sem nos falar. Não existia mais aquela obrigação silenciosa de saber tudo sobre a vida uma da outra.
Certa tarde, ela me contou que a negociação do estúdio tinha avançado.
A avaliação mostrou que a empresa valia menos do que ambos imaginavam, principalmente porque algumas despesas pessoais e decisões administrativas ruins haviam reduzido a margem de caixa. Nenhum dos dois sairia daquela divisão rico.
Para Helena, isso foi quase um alívio.
O problema nunca tinha sido ganhar uma fortuna.
Era parar de estar amarrada a alguém de quem tinha medo.
Os registros contábeis confirmaram que Gustavo havia usado recursos da empresa em despesas particulares sem documentação adequada. A discussão jurídica ainda era sobre quais valores deveriam ser restituídos ao negócio e quais poderiam ser considerados compensações ou gastos autorizados em períodos anteriores.
Ou seja, nada se resolveu com uma planilha.
Foi necessário revisar meses de documentos.
Helena participou das reuniões.
No começo, entrava acompanhada da advogada e mal olhava para o outro lado da mesa.
Depois passou a fazer perguntas.
Em uma dessas reuniões, Gustavo tentou falar diretamente com ela.
— A gente não precisava ter chegado nisso.
Helena não elevou a voz.
— A gente chegou nisso quando eu tive medo de fazer uma pergunta sobre dinheiro.
Ele respondeu que ela estava misturando assuntos.
Helena fez uma pequena pausa.
— Durante meses, você usou o relacionamento para evitar falar do estúdio e usou o estúdio para me impedir de sair do relacionamento. Eu não vou separar essas coisas só porque agora é conveniente para você.
A advogada interrompeu antes que a reunião se transformasse em discussão.
Mas algo havia mudado.
Helena não estava mais ali para convencer Gustavo de nada.
Estava ali para resolver sua saída.
Do lado criminal, o Ministério Público apresentou denúncia em relação à agressão e a outros fatos associados ao episódio, e o processo seguiu seu curso. Eu fui informada de que poderia ser chamada como testemunha mais adiante.
A notícia me deixou inquieta.
Não porque eu tivesse algo a esconder.
Mas porque sabia que minhas próprias dúvidas iniciais poderiam ser exploradas.
Conversei com Samuel.
Ele riu quando ouviu minha preocupação.
— Você está com medo de dizer que suspeitou da Helena?
— Sim.
— Então diga que suspeitou.
— Isso não vai prejudicá-la?
— Você não é responsável por montar uma versão perfeita. Você é responsável por contar a verdade.
Era quase a mesma coisa que eu havia dito a Gustavo meses antes.
Só que ouvir aplicado a mim mesma foi mais difícil.
Helena concordou.
Quando contei que talvez precisasse mencionar que, no começo, pensei que ela pudesse ter machucado alguém, ela não ficou ofendida.
— Você abriu uma casa cheia de vestígios de sangue depois que eu menti para você e desapareci. Eu teria pensado a mesma coisa.
A resposta tirou de mim um peso que eu nem sabia que ainda carregava.
Foi naquele momento que nossa amizade mudou novamente.
Não voltamos a ser as duas mulheres que acreditavam que doze anos de convivência significavam confiança automática.
Viramos duas pessoas que entendiam que confiança também precisava sobreviver à verdade.
No fim daquele mês, a divisão do estúdio chegou a um acordo provisório. Helena deixaria a sociedade após a conclusão de determinadas obrigações pendentes, receberia o valor correspondente à participação apurada e teria direito à restituição proporcional de alguns gastos reconhecidos como indevidos.
Não era vitória absoluta.
Gustavo também manteve direitos legítimos sobre parte do negócio.
O acordo não transformava um deles em dono de tudo e o outro em alguém sem nada.
Era precisamente por isso que parecia plausível.
Cada um sairia com o que pudesse ser comprovado e negociado.
Helena aceitou.
— Eu poderia brigar por mais durante anos — disse. — Mas quero saber o preço de continuar brigando também.
Essa talvez tenha sido a decisão mais adulta que eu a vi tomar.
Não era desistir por medo.
Era escolher conscientemente o que queria preservar.
Algumas semanas depois, ela me perguntou se podia visitar meu apartamento.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Pode.
Quando entrou, parou perto da porta.
A sala estava diferente.
Havia plantas, livros, uma mesa pequena e uma manta nova no sofá.
Helena olhou ao redor sem dizer nada.
Depois perguntou:
— Posso ver o quarto?
Assenti.
Ela ficou na entrada.
Não avançou.
Seus olhos foram diretamente para a parede pintada.
— Desculpa.
Não havia justificativa depois da palavra.
Nem pedido de absolvição.
Apenas desculpa.
Eu me aproximei.
— Eu acredito em você sobre o que aconteceu com o Gustavo.
Ela fechou os olhos por um instante.
Continuei:
— E ainda fiquei muito ferida com o que você fez comigo.
Helena assentiu.
— Eu sei.
— Essas duas coisas podem existir juntas.
Dessa vez, ela olhou para mim.
— Obrigada por não fingir que uma apaga a outra.
Ficamos ali por alguns segundos.
Depois saímos do quarto.
Nenhuma de nós precisava permanecer naquele lugar por mais tempo do que desejava.
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