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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

A última reunião relacionada ao estúdio aconteceu quase um ano depois daquela noite. Não era uma audiência dramática nem um confronto planejado. Era apenas a etapa final de documentos que formalizariam obrigações já negociadas e encerrariam, de maneira prática, a sociedade entre Helena e Gustavo.

Ela poderia ter pedido que apenas os advogados comparecessem a quase tudo.

Mesmo assim, decidiu estar presente.

— Não quero que a última lembrança que eu tenha daquele negócio seja eu fugindo — me explicou.

Não fui com ela.

Essa também foi uma escolha consciente.

Durante meses, eu estivera ao lado de Helena em momentos em que ela precisava de apoio. Mas aquela decisão pertencia a ela, e transformá-la novamente em alguém que só conseguia atravessar uma porta se eu segurasse sua mão não seria ajuda.

Ela chegou ao escritório acompanhada da advogada.

Gustavo já estava lá.

Pela primeira vez desde a agressão, os dois ficaram no mesmo ambiente sem que a conversa fosse sobre reatar, convencer, culpar ou recuperar o que tinham perdido.

Era sobre terminar.

Os documentos foram conferidos.

Os ajustes previstos no acordo empresarial tinham sido cumpridos. Os valores cuja restituição havia sido reconhecida já tinham sido compensados dentro da negociação, e a participação de Helena seria oficialmente transferida.

Gustavo assinou primeiro.

Depois empurrou a caneta para o centro da mesa.

Helena pegou.

Antes de assinar, releu tudo.

Não porque desconfiasse que alguém tivesse mudado o texto.

Porque aprendera a não colocar o próprio nome em algo que não entendia.

Só então assinou.

Gustavo permaneceu olhando para ela.

Quando os profissionais começaram a organizar as vias, ele falou:

— Então é isso?

Helena ergueu os olhos.

— É.

— Depois de tudo que a gente construiu?

A antiga Helena talvez tivesse respondido com raiva.

Talvez tivesse enumerado cada mentira, cada gasto, cada medo.

Dessa vez, ela apenas disse:

— O que a gente construiu não apaga o que aconteceu depois.

Ele desviou o rosto.

Alguns segundos passaram.

— Eu nunca quis que você batesse a cabeça.

Helena ficou imóvel.

A frase não era uma confissão completa nem um pedido de desculpas.

Também já não tinha poder para arrastá-la para uma nova discussão.

— Mas eu bati — respondeu. — E o que você fez depois também importa.

Gustavo começou a dizer que ambos estavam nervosos naquela noite.

Ela o interrompeu.

Sem gritar.

— Eu não vim aqui para decidir de novo o que aconteceu. Isso já foi tratado onde precisava ser tratado. Vim encerrar a empresa.

A advogada continuou organizando os papéis.

Helena fechou a pasta que estava à sua frente.

E foi embora.

Do lado de fora, não chorou.

Sentiu apenas um cansaço profundo, seguido por uma leveza estranha.

Ligou para mim no caminho.

— Acabou.

— A reunião?

Ela riu.

— A sociedade.

— E como você está?

Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

— Normal.

Achei graça.

— Depois de tudo isso, normal parece uma ótima notícia.

Encontramo-nos naquela noite no meu apartamento.

Samuel também apareceu, trazendo comida e reclamando que ninguém respeitava o fato de ele ter trabalhado o dia inteiro.

Minha mãe passou rapidamente para entregar uma travessa.

Não era uma comemoração oficial.

Ninguém brindou ao fim do relacionamento de Helena.

Ninguém transformou sofrimento em festa.

Era apenas um jantar.

Talvez por isso tenha sido tão importante.

Em algum momento, Helena caminhou até a janela da sala.

A cidade brilhava do lado de fora.

Ela ficou alguns segundos olhando para os prédios e depois se virou para mim.

— Você lembra da primeira coisa que eu falei quando te encontrei?

— Que tinha estragado meu apartamento.

Ela sorriu sem graça.

— Ainda penso nisso.

— Eu também.

O sorriso desapareceu.

Helena esperou.

Eu continuei:

— Mas não penso do mesmo jeito.

Ela me olhou.

— Durante muito tempo, achei que aquela noite tinha estragado este lugar. Depois achei que tinha estragado nossa amizade. Agora acho que só mostrou coisas que a gente não queria ver.

Helena sentou no braço do sofá.

— Inclusive sobre mim.

— Inclusive sobre você.

Ela aceitou sem se defender.

Essa era uma das maiores diferenças entre nós agora.

Antes, amizade significava proteger uma à outra de qualquer desconforto.

Depois de tudo, aprendemos que algumas relações sobrevivem justamente porque deixam de exigir cegueira.

Helena reconstruiu a vida profissional devagar.

Meses depois, assumiu uma posição de liderança na empresa onde trabalhava. Quando recebeu a proposta, me ligou não para perguntar se deveria aceitar, mas para me contar os critérios que estava usando para decidir.

Salário.

Autonomia.

Horário.

Ambiente.

Perspectiva.

Nenhum deles se chamava Gustavo.

Quando percebeu isso, riu no meio da conversa.

Eu também.

Quanto a ele, as consequências não desapareceram porque o relacionamento acabou. O processo relacionado à agressão seguiu as decisões judiciais cabíveis, e os problemas financeiros do estúdio tiveram de ser resolvidos dentro dos acordos e responsabilidades reconhecidos.

Ele não perdeu magicamente tudo.

Helena também não recebeu uma recompensa perfeita por ter sofrido.

A vida real raramente produz esse tipo de equilíbrio instantâneo.

O que mudou foi que as escolhas dele passaram a ter consequências que já não podiam ser empurradas para Helena carregar em silêncio.

E Helena deixou de organizar a própria vida ao redor das reações dele.

Um ano e alguns meses depois daquela primeira ligação, encontrei a antiga chave reserva do apartamento dentro de uma caixa.

Era parecida com a chave que Helena havia deixado no medidor naquela noite.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

Então coloquei um chaveiro novo.

Nada simbólico demais.

Apenas meu nome e meu número de telefone.

Na mesma tarde, Helena passou para tomar café.

Ao entrar, tirou os sapatos perto da porta como sempre fazia antes de tudo acontecer.

Olhou para mim.

— Posso?

— Claro.

Ela entrou.

Não olhou imediatamente para o quarto.

Não pediu desculpas de novo.

Não precisava.

Sentamos na sala e conversamos sobre trabalho, aluguel, minha mãe, uma viagem que Samuel queria organizar e um restaurante novo que Helena tinha encontrado.

Assuntos comuns.

Durante anos, eu teria considerado aquilo sem importância.

Agora entendia o valor de uma tarde que não precisava terminar em revelação alguma.

Quando Helena foi embora, fechei a porta e fiquei alguns segundos no silêncio da sala.

Pensei na mulher que eu era quando comprei aquele apartamento, contando moedas para completar a entrada.

Pensei na mulher que ficou parada no corredor escuro imaginando que a melhor amiga pudesse ter cometido um crime.

Pensei também na mulher que, durante meses, deixou de tomar decisões com pressa só porque queria que o medo acabasse.

A casa continuava sendo a mesma.

Eu não.

Caminhei até a janela e abri as cortinas.

O fim da tarde entrou pela sala.

Não havia mais purificador tentando esconder cheiro algum.

Não havia piso recém-lavado.

Não havia perguntas esperando atrás da porta.

Havia apenas minha casa, meus livros, minha mesa, as plantas que eu quase sempre esquecia de regar e a vida que tinha voltado a ocupar cada cômodo.

Coloquei a nova chave sobre a bancada e sorri.

Depois de tanto tempo tentando entender o que outras pessoas tinham feito dentro da minha casa e da minha vida, finalmente fui eu quem decidiu o que ficaria, o que sairia e qual porta queria abrir a seguir.

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