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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

As semanas seguintes foram menos dramáticas e, por isso mesmo, mais difíceis. Não havia mais desaparecimento, busca urgente ou porta de apartamento interditada. Restavam processos, depoimentos, reuniões com advogados, documentos contábeis e a tarefa cansativa de reconstruir uma vida depois que o medo deixava de ocupar todas as horas do dia.

Helena começou acompanhamento psicológico e voltou a trabalhar apenas parcialmente. Durante algum tempo, qualquer ligação desconhecida fazia seu corpo inteiro endurecer. Ainda assim, ela parou de mudar de endereço e voltou a usar o próprio número de telefone depois de revisar as configurações de segurança com orientação adequada.

Eu não perguntava sobre cada consulta.

Ela também parou de me contar cada detalhe.

Nossa amizade, curiosamente, começou a melhorar quando deixamos de tentar voltar ao que era.

Antes, compartilhávamos tudo por hábito.

Agora aprendíamos a escolher.

Gustavo continuava negando que tivesse agredido Helena deliberadamente. Admitia que houve uma discussão e que ela caiu, mas dizia que o empurrão tinha acontecido quando tentou recuperar documentos do estúdio que considerava confidenciais.

A versão dele, porém, precisava explicar outras coisas.

Por que não chamou atendimento médico?

Por que participou da limpeza?

Por que negou inicialmente ter ido ao apartamento?

E por que, depois que Helena saiu ferida, sua principal preocupação registrada em mensagens era convencê-la a “não transformar uma briga em caso de polícia”?

Essas mensagens não surgiram milagrosamente.

Estavam no telefone de Helena, recuperado alguns dias depois entre os pertences que ela deixara guardados em uma pequena mala na hospedagem.

Ela havia recebido várias depois de sair do meu apartamento.

Algumas pediam que ligasse.

Outras diziam que os dois podiam “resolver entre eles”.

Nenhuma trazia uma confissão direta.

Mas ajudavam a estabelecer o que aconteceu depois.

Eu também tive que prestar novo depoimento.

Dessa vez, o investigador queria detalhes da primeira conversa com Gustavo. Pediu que repetisse, com o máximo de fidelidade possível, a forma como ele descreveu Helena.

Enquanto falava, entendi por que aquilo importava.

Antes de eu mencionar sangue, polícia ou desaparecimento, Gustavo já tinha apresentado uma narrativa: Helena estava instável, desconfiava de dinheiro, imaginava outra mulher e queria terminar.

Talvez fosse apenas um homem tentando explicar uma briga.

Talvez fosse uma tentativa de preparar terreno.

Não cabia a mim decidir.

Meu papel era dizer o que ouvi.

Alguns dias depois, Gustavo me procurou pessoalmente.

Eu saía do trabalho quando o vi do outro lado da rua.

Meu primeiro impulso foi voltar para dentro.

Mas ele já tinha me visto.

Atravessou e parou a alguns metros de distância.

— Só quero conversar.

— Não tenho nada para conversar com você.

— Lara, você me conhece há anos.

— Conheço a Helena há doze.

Ele balançou a cabeça.

— É exatamente esse o problema. Você acredita em tudo que ela fala.

A frase me irritou, mas não respondi imediatamente.

Ele continuou.

Disse que Helena estava usando o ferimento para ganhar vantagem na separação do estúdio. Disse que a perícia não podia provar intenção. Disse que eu tinha visto pessoalmente como ela agia de forma estranha ao limpar o apartamento.

Foi aí que percebi o que ele queria.

Não precisava que eu mentisse.

Bastava que eu desse às minhas antigas suspeitas o peso de uma certeza.

— Eu achei estranho o apartamento estar limpo — respondi. — E foi exatamente isso que contei à polícia.

Ele pareceu se animar.

— Então você entende.

— Não. Eu também contei que o sangue era dela, que você me disse que ela estava paranoica antes de eu saber o que tinha acontecido e que você primeiro afirmou não ter estado lá.

O rosto dele mudou.

— Você está escolhendo um lado.

— Estou escolhendo não mudar o que vi e ouvi para ajudar ninguém.

Ele tentou continuar.

Eu levantei a mão.

— Se você tiver alguma coisa a dizer sobre o caso, fale com a polícia ou com os advogados. Não me procure de novo.

Entrei no prédio sem esperar resposta.

Minhas pernas tremiam dentro do elevador.

Não me senti corajosa.

Só me senti cansada de ser tratada como uma peça que alguém podia mover.

Na mesma semana, Helena formalizou o fim do noivado.

Já não era apenas uma decisão privada.

As famílias foram informadas, fornecedores do casamento foram cancelados e os valores recuperáveis começaram a ser discutidos. Algumas perdas seriam inevitáveis.

Ela chorou quando cancelou o vestido.

Não porque quisesse voltar para Gustavo.

Chorou pelo futuro que havia imaginado.

Essa diferença importava.

No estúdio, a situação também mudou. Como a relação entre os sócios tinha se tornado inviável, os advogados começaram a negociar uma saída organizada. Uma avaliação externa foi contratada para estimar ativos, contratos, obrigações e o valor da participação de cada um.

Os funcionários receberam uma comunicação simples: a empresa continuaria funcionando durante o processo.

Helena recusou a ideia de destruir o negócio apenas para atingir Gustavo.

— Tem gente que depende desse salário — disse.

Era a primeira vez que eu a via pensando no futuro sem que tudo girasse em torno do medo.

Pouco depois, a polícia concluiu a etapa principal da investigação e encaminhou o material ao Ministério Público. Não significava condenação.

Significava que o caso tinha avançado.

Helena recebeu a notícia em silêncio.

Depois desligou o telefone e respirou fundo.

— Eu achei que, quando chegasse aqui, ia me sentir vingada.

— E se sente?

— Não.

Olhou pela janela.

— Só sinto que agora não sou mais a única pessoa carregando o que aconteceu.

Foi quando percebi que ela também tinha parado de esperar por uma solução instantânea.

Nós duas estávamos aprendendo a viver com processos lentos.

E, pela primeira vez, lentidão não significava paralisia.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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