
PARTE 6
Na manhã seguinte, Helena acordou cedo. Encontrei-a na cozinha olhando para uma xícara de café que já devia estar fria havia algum tempo. Ela parecia querer dizer alguma coisa, mas fui eu quem começou.
Expliquei que não queria discutir enquanto ela ainda estava abalada, mas que também não conseguiria simplesmente apagar o que aconteceu. Durante quatro dias, pensei que ela pudesse estar morta. Durante uma noite inteira, achei que tivesse matado alguém dentro da minha casa.
Helena ouviu sem tentar se defender.
— Eu sei.
— Não, você sabe o que fez. Não sabe o que foi estar do outro lado.
Ela apertou os lábios.
Eu continuei.
Disse que entendia o medo dela, mas que o medo não transformava automaticamente todas as escolhas em escolhas corretas. Se nossa amizade continuasse, eu precisava que nunca mais me colocasse no meio de uma situação grave sem me contar a verdade.
Helena assentiu.
— Você tem razão.
Não pediu que eu a perdoasse.
Aquilo, estranhamente, ajudou.
Com apoio da mãe e da equipe que a atendia, Helena foi para um local temporário onde Gustavo não tinha acesso. Também procurou uma advogada para tratar tanto da separação quanto da participação no estúdio.
A investigação criminal avançava em paralelo.
Os exames confirmaram que o padrão das lesões de Helena era compatível com a descrição de queda e contenção física que ela havia feito. Isso não significava que a perícia pudesse reconstruir cada segundo, mas sua versão começava a encontrar apoio em elementos independentes.
O depoimento de Gustavo, por outro lado, apresentava um problema.
Na primeira vez, ele havia dito que não via Helena desde a discussão ocorrida antes de ela ir para o meu apartamento.
Depois afirmou que tinha passado rapidamente pelo prédio, mas que não havia entrado, porque ela se recusara a recebê-lo.
A mudança de versão não o tornava automaticamente culpado.
Mas precisava ser explicada.
Ele disse que omitira a visita por medo de ser envolvido no desaparecimento.
Quando soube disso, senti um frio conhecido.
Era o mesmo mecanismo que Helena tinha usado comigo.
Mentir primeiro por medo das consequências.
A diferença seria determinada pelo que cada um tinha feito antes e depois da mentira.
Enquanto isso, a questão financeira do estúdio se tornava mais clara.
Um contador independente, contratado durante o processo de reorganização do negócio, encontrou despesas pessoais misturadas às contas profissionais. Algumas eram relativamente pequenas; outras, somadas, já representavam um valor importante para uma empresa daquele porte.
Gustavo afirmava que parte dos gastos tinha sido autorizada verbalmente por Helena.
Ela negava.
Não havia assinatura ou registro para todos os lançamentos.
Portanto, aquela parte não seria resolvida em uma tarde.
O mais importante, para Helena, foi descobrir que suas dúvidas não eram fruto de imaginação.
Ela tinha motivos concretos para perguntar.
Certa tarde, fui encontrá-la para entregar algumas roupas que haviam ficado comigo. Ela estava sentada com a advogada e uma pilha de documentos, cansada, mas muito diferente da mulher que tinha entrado naquela sala da cidade vizinha.
— Eu vou sair do estúdio — disse.
Achei que estivesse falando por impulso.
Ela explicou que não seria naquele momento. Havia contratos, clientes, funcionários, dívidas e responsabilidades compartilhadas. Sair exigiria avaliação das quotas, levantamento contábil e negociação.
— Mas eu decidi que não vou continuar trabalhando com ele.
Essa decisão era nova.
Até então, Helena tinha falado em entender as contas, adiar o casamento e descobrir o que aconteceu.
Agora tinha escolhido uma direção.
No mesmo dia, por orientação jurídica, comunicou formalmente que qualquer movimentação extraordinária do negócio deveria seguir os mecanismos previstos entre os sócios e ser documentada. Nada de bloqueios instantâneos, nada de simplesmente tirar alguém da empresa com um telefonema.
O processo seria lento.
Mas o improviso tinha acabado.
Gustavo reagiu enviando várias mensagens.
Helena não respondeu diretamente.
Encaminhou tudo à advogada.
Em uma delas, ele dizia que ela estava destruindo anos de trabalho por causa de “um acidente de casal”.
Quando Helena me mostrou a frase, vi seus dedos tremerem.
— Ele chama de acidente.
— E você?
Ela ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Eu chamo de momento em que percebi que tinha medo do homem com quem ia me casar.
Não havia como voltar daquela frase.
Alguns dias depois, ela devolveu o anel de noivado por intermédio da advogada.
Não houve encontro.
Não houve discurso.
Não houve uma cena grandiosa.
Apenas um objeto que deixou de representar um futuro.
Para mim, também havia uma mudança acontecendo.
Quando a polícia finalmente liberou meu apartamento, eu entrei acompanhada de uma empresa especializada em limpeza. Não quis que Helena fosse comigo. Não como punição, mas porque eu precisava recuperar aquele espaço sem transformar cada canto em uma continuação do trauma dela.
O quarto estava praticamente como eu lembrava, exceto pelas áreas examinadas.
Fiquei muito tempo parada perto da parede onde tudo começou.
Samuel apareceu mais tarde.
Dessa vez, não havia reagente no bolso nem pergunta médica.
Ele só me ajudou a abrir as janelas.
O cheiro de desinfetante já tinha desaparecido.
Mesmo assim, eu ainda conseguia senti-lo na memória.
Decidi reformar apenas o necessário, trocar parte do piso danificado e pintar o quarto.
Não porque quisesse apagar o que aconteceu.
Mas porque eu não permitiria que aquela noite se tornasse a única história possível daquele lugar.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














