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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

A descoberta de que Helena tinha recebido atendimento médico mudou tudo. Até então, a investigação procurava uma pessoa desaparecida diante de um possível cenário de violência. Agora havia prova de que, pelo menos dois dias depois da noite no apartamento, ela estava viva e consciente o bastante para fornecer o próprio nome.

A médica que a atendeu confirmou à polícia apenas o que podia confirmar legalmente. Helena chegou sozinha, estava assustada, tinha um ferimento na cabeça e hematomas nos braços. Disse que tinha caído durante uma discussão, recebeu os cuidados necessários e recusou permanecer em observação por mais tempo.

A explicação da queda não combinava perfeitamente com a preocupação de quem a examinou, mas Helena era adulta e estava orientada. Não podia ser mantida ali contra a vontade. Saiu algumas horas depois.

A polícia conseguiu o endereço que ela havia informado. Era uma pequena hospedagem perto de uma estação de ônibus. Quando chegaram, descobriram que Helena tinha ficado somente uma noite e saído na manhã seguinte.

Ela continuava fugindo.

Só que agora eu já não conseguia acreditar que estivesse fugindo de mim.

A mãe de Helena começou a me telefonar todos os dias. O medo dela havia se transformado em uma mistura de alívio e desespero: a filha estava viva, mas não queria ser encontrada. Eu entendia cada pergunta que ela fazia, embora não tivesse resposta para nenhuma.

Gustavo, por outro lado, voltou a me procurar.

Dessa vez, não atendi.

Ele enviou uma mensagem dizendo que soubera pela polícia que Helena tinha sido vista e que estava preocupado com o “estado emocional” dela. Depois escreveu que, se ela aparecesse, eu não deveria alimentar “paranoias”.

Fiquei olhando para aquela palavra por muito tempo.

Paranoias.

Foi a mesma ideia que ele havia sugerido na primeira ligação: Helena desconfiava demais, imaginava traições, criava problemas por dinheiro.

Encaminhei a mensagem ao investigador sem responder.

Naquele mesmo dia, soube que a análise das movimentações do estúdio havia avançado o suficiente para justificar uma verificação mais ampla. Não se tratava de uma fortuna desaparecida de uma vez, nem de uma transferência espetacular. Eram vários pagamentos menores, feitos ao longo de meses, com descrições vagas ou sem documentação correspondente.

Alguns tinham sido autorizados por Gustavo.

Outros ainda precisavam ser esclarecidos.

Aquilo não provava agressão.

Também não provava que ele tinha cometido desvio.

Mas mostrava que as perguntas de Helena sobre dinheiro não tinham surgido do nada.

Quando ouvi isso, lembrei da forma como Gustavo havia narrado a situação para mim. Ele não disse apenas que os dois brigaram. Fez questão de apresentar Helena como alguém que desconfiava sem motivo.

Era possível que estivesse dizendo a verdade.

Também era possível que estivesse construindo uma versão.

Eu já não queria escolher uma hipótese antes dos fatos.

Samuel percebeu essa mudança quando nos encontramos para comer alguma coisa perto do meu trabalho. Perguntou se eu continuava achando que Helena tinha cometido um crime no apartamento.

Demorei para responder.

— Não sei mais o que acho.

— Melhor assim.

Olhei para ele, irritada.

— Como isso pode ser melhor?

— Porque você parou de tentar preencher as lacunas com medo.

A frase me incomodou justamente porque era verdadeira.

Dois dias depois, a polícia recebeu uma informação mais útil. Helena tinha comprado uma passagem rodoviária para uma cidade do interior usando o próprio documento. A compra havia sido feita depois do atendimento médico.

Os agentes entraram em contato com a polícia local e com a rede de atendimento a mulheres em situação de violência da região, sem divulgar detalhes além do necessário.

No final da tarde, o investigador me ligou.

Helena tinha sido localizada.

Estava viva.

E não queria falar com Gustavo.

Sentei na primeira cadeira que encontrei.

Perguntei se podia vê-la.

Ele explicou que Helena tinha aceitado prestar depoimento, mas estava muito fragilizada. Perguntou se eu concordaria em comparecer apenas caso ela solicitasse minha presença.

Concordei.

Uma hora depois, ele ligou novamente.

Ela tinha pedido por mim.

A viagem pareceu interminável.

Quando cheguei ao local onde estava sendo atendida, precisei esperar em uma sala pequena. Havia um bebedouro, duas cadeiras de plástico e um cartaz sobre violência doméstica preso torto na parede.

A porta abriu.

Helena entrou acompanhada por uma profissional.

Quase não a reconheci.

Havia um pequeno curativo escondido entre os cabelos, uma mancha amarelada perto da têmpora e hematomas que começavam a desaparecer nos braços.

Ela ficou parada na porta.

Eu também.

Durante doze anos, já tínhamos nos visto doentes, bêbadas, apaixonadas, desempregadas, falidas e felizes.

Nunca daquele jeito.

Helena começou a chorar antes de dizer qualquer palavra.

Meu primeiro impulso foi abraçá-la.

O segundo foi perguntar o que tinha acontecido.

Não fiz nenhum dos dois.

Esperei.

Ela se aproximou devagar e sentou diante de mim.

— Eu estraguei seu apartamento.

A frase me atingiu de um jeito quase absurdo.

Depois de quatro dias imaginando morte, desaparecimento e traição, aquilo parecia pequeno demais.

— Helena, eu não me importo com o apartamento.

Ela baixou os olhos.

— Eu me importo. Porque eu usei sua confiança e depois fui embora sem contar nada.

Respirei fundo.

— Então me conta agora.

Helena apertou as próprias mãos.

Demorou alguns segundos até conseguir olhar para mim.

— O Gustavo foi até lá.

Eu não disse nada.

— Eu não chamei ele no primeiro dia. Mas ele insistiu, disse que precisava conversar comigo e resolver a situação do estúdio. No fim, eu aceitei.

A voz começou a falhar.

Ela contou que havia questionado vários pagamentos do negócio. Não sabia ainda se era desvio, má gestão ou despesas pessoais lançadas como profissionais. Queria ver os comprovantes antes de tomar qualquer decisão.

Gustavo, segundo ela, transformava qualquer pergunta em uma acusação contra sua lealdade.

— E a outra mulher? — perguntei, lembrando do que ele havia dito.

Helena franziu a testa.

— Eu nunca disse que sabia que ele tinha amante. Perguntei por que havia despesas de viagens e restaurantes que não tinham relação com clientes. Ele respondeu perguntando se eu estava insinuando que ele saía com outra pessoa. Depois começou a dizer para todo mundo que eu estava com ciúme.

Aquilo ainda não provava traição.

Mas mudava completamente o sentido da versão que eu tinha ouvido.

— O que aconteceu no apartamento?

Helena fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, havia medo neles.

— A conversa virou uma briga. Eu disse que queria adiar o casamento até entender as contas. Ele tentou pegar a pasta que eu tinha levado. Eu não deixei.

Ela parou.

— E então ele me empurrou.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Helena levou a mão até a parte de trás da cabeça.

— Eu bati no canto da parede.

A parede onde Samuel havia encontrado as primeiras marcas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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