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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Na manhã seguinte, dormi menos de duas horas. Acordei várias vezes achando que tinha ouvido o celular tocar e, quando finalmente me levantei, havia três chamadas perdidas da mãe de Helena. Fiquei alguns minutos olhando para o nome dela sem coragem de retornar, porque qualquer frase que eu dissesse transformaria uma suspeita que ainda parecia irreal em uma preocupação compartilhada por toda a família.

Quando liguei, ela já sabia que Helena estava desaparecida. A polícia havia entrado em contato durante a madrugada para confirmar informações básicas, e a única coisa que me perguntou foi se eu acreditava que a filha estivesse viva. Eu disse que não tinha como saber. Doeu dizer isso, mas teria sido muito pior oferecer uma certeza que eu não possuía.

Passei aquela manhã na delegacia. Repeti o depoimento, entreguei uma cópia das mensagens que trocara com Helena e autorizei formalmente o acesso ao apartamento enquanto durasse o trabalho pericial. Também informei os lugares onde ela costumava ir, os nomes de algumas amigas antigas e o endereço do estúdio que mantinha com Gustavo.

A palavra “estúdio” chamou novamente a atenção da investigação porque Gustavo havia mencionado dinheiro antes mesmo que eu perguntasse qualquer coisa sobre o relacionamento dos dois. O investigador não comentou se considerava isso estranho. Apenas quis saber se Helena alguma vez tinha conversado comigo sobre problemas financeiros.

A verdade era simples: não. Ela tinha reclamado do noivo algumas vezes, como qualquer pessoa prestes a casar reclama durante uma fase ruim, mas nunca tinha me contado em detalhes que suspeitava de desvios. Isso tornou a fala de Gustavo ainda mais difícil de interpretar.

No início da tarde, a mãe de Helena autorizou os peritos a recolher objetos pessoais da filha para comparação genética. Ninguém me prometeu um resultado rápido. Disseram apenas que havia material suficiente no apartamento para análise e que seria necessário ter paciência.

Paciência era justamente o que eu não tinha.

Dois dias depois, fui chamada novamente.

O investigador colocou sobre a mesa uma pasta fina, mas não a abriu imediatamente. Explicou primeiro que a maior parte das amostras recuperadas no quarto e em pontos próximos ao banheiro pertencia à mesma pessoa. A comparação genética indicava que aquela pessoa era Helena.

Senti o estômago afundar.

— Quanto sangue?

Ele não respondeu com números.

Disse que a distribuição era compatível com um ferimento que sangrara bastante e com uma limpeza posterior, mas que não era possível concluir, apenas a partir das manchas, que alguém tivesse morrido.

Aquela última frase deveria ter me tranquilizado.

Não tranquilizou.

Se o sangue era de Helena, então a pergunta que me perseguia havia mudado completamente.

Talvez ela não tivesse feito algo com alguém.

Talvez alguém tivesse feito algo com ela.

O investigador continuou. Havia marcas que sugeriam deslocamento pelo quarto e pelo corredor, mas seria irresponsável reconstruir toda a dinâmica antes de cruzar aquilo com depoimentos e outros exames. O banheiro também apresentava vestígios diluídos próximos ao ralo, exatamente onde eu havia notado o silicone recém-aplicado.

Pensei no barulho de água durante a última ligação.

Minha garganta fechou.

Perguntei se Helena podia ter limpado o próprio sangue.

— Pode — ele respondeu. — Mas precisamos saber em quais circunstâncias.

Essa frase me acompanhou pelo resto do dia.

Gustavo já tinha sido ouvido. Segundo o investigador, afirmara que não via Helena desde a discussão que antecedeu a ida dela para o meu apartamento. Dissera que passou parte da noite trabalhando e depois foi para casa.

Não me deram mais detalhes sobre o depoimento dele.

Também me alertaram para não confrontá-lo.

Saí da delegacia e encontrei Samuel esperando na calçada. Não tinha pedido que fosse, mas ele apareceu mesmo assim, segurando dois cafés e sem perguntar nada até eu entrar no carro.

— Era dela — falei.

Samuel ficou imóvel.

— O sangue?

Assenti.

Durante vários minutos, nenhum de nós falou.

Quando contei que Gustavo dizia não ter estado no apartamento, Samuel não apresentou nenhuma teoria. Disse apenas que uma coisa já tinha mudado: agora eu sabia que as marcas não provavam que Helena havia machucado outra pessoa.

Eu me lembrei de todas as acusações que tinha feito contra ela apenas dentro da minha cabeça.

“Ela matou alguém.”

“Ela usou minha casa.”

“Ela quer me envolver.”

Senti vergonha, embora ninguém além de mim soubesse daqueles pensamentos.

Naquela noite, a polícia solicitou formalmente informações sobre movimentações recentes de Helena e de Gustavo relacionadas ao estúdio. Não era uma investigação financeira completa, pelo menos ainda não. Eles procuravam estabelecer contexto, horários, conflitos e possíveis motivos para que os dois tivessem se encontrado depois da briga.

O contador do estúdio confirmou que Helena vinha pedindo esclarecimentos sobre algumas despesas havia cerca de duas semanas. Não acusara formalmente Gustavo de crime. Tinha apenas solicitado comprovantes e perguntado por que certos pagamentos não correspondiam aos trabalhos registrados.

Aquilo era pouco.

Mas era concreto.

No dia seguinte, outra informação apareceu. Uma funcionária do estúdio contou que Helena e Gustavo haviam discutido na tarde anterior à ida dela para o meu apartamento. Helena saiu dizendo que precisava de espaço e levou uma pasta com cópias de documentos administrativos que ela própria tinha direito de consultar.

Ninguém sabia onde aquela pasta estava.

A polícia pediu que eu não procurasse por conta própria.

Pela primeira vez, obedecer foi difícil.

Eu queria abrir gavetas, conferir caixas, revirar cada lembrança e encontrar uma explicação que acabasse com aquilo. Mas o apartamento continuava isolado, e a vida de Helena não era um quebra-cabeça que eu tivesse o direito de desmontar sozinha.

No quarto dia desde o desaparecimento, recebi uma ligação do investigador.

Ele não parecia alarmado.

Também não parecia tranquilo.

Disse que uma unidade de pronto atendimento em outra cidade da região metropolitana havia registrado, dois dias antes, a passagem de uma mulher com o nome completo de Helena. Ela apresentava um corte suturado na parte posterior da cabeça e vários hematomas.

Meu coração disparou.

— Ela está viva?

— Ao que tudo indica, sim.

Levantei tão rápido que a cadeira bateu na parede.

A polícia já estava tentando localizá-la no endereço que ela fornecera ao atendimento. O problema era que Helena não estava mais lá.

Ainda assim, pela primeira vez desde que as manchas apareceram no meu quarto, eu tinha uma informação que não cheirava a morte.

Helena tinha sobrevivido ao que quer que houvesse acontecido dentro do meu apartamento.

Agora faltava descobrir por que ela estava fugindo — e de quem.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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