
PARTE 9
Quase oito meses tinham se passado desde a noite em que encontrei o apartamento limpo demais. O tempo não tinha apagado o que aconteceu, mas retirou dele a capacidade de interromper todos os outros assuntos da vida.
Helena concluiu sua saída do estúdio.
A transferência da participação foi formalizada depois que as obrigações previstas no acordo foram cumpridas, e os ajustes financeiros relativos às despesas questionadas foram registrados entre as partes.
Ela recebeu menos do que imaginava quando abriu o negócio anos antes.
Mesmo assim, saiu sem dívidas ocultas ligadas à empresa e sem precisar manter contato cotidiano com Gustavo.
Com parte do dinheiro, poderia ter aberto outro estúdio imediatamente.
Não fez isso.
Aceitou trabalhar por alguns meses em uma empresa menor, em uma função mais simples do que aquela que ocupava antes.
Quando perguntei se não sentia que estava regredindo, ela respondeu:
— Durante anos eu confundi ter meu próprio negócio com ter controle da minha vida. Agora quero aprender a diferença.
No processo criminal, fui chamada para prestar depoimento.
Na noite anterior, quase não dormi.
Revisei mentalmente a ligação de Helena, o apartamento, o cheiro, o purificador, as palavras de Gustavo e a chegada de Samuel.
No dia, descobri que não precisava decorar nada.
Bastava responder.
Contei que Helena tinha pedido o apartamento dizendo que brigara com o noivo.
Contei que me telefonou com voz rouca e que ouvi água ao fundo.
Contei sobre a limpeza incomum.
Contei que, antes de eu mencionar qualquer suspeita concreta, Gustavo descreveu Helena como uma pessoa que vinha desconfiando do dinheiro do estúdio e de uma possível amante.
Também contei que, ao encontrar os vestígios, minha primeira conclusão foi contra Helena.
Não escondi.
Quando perguntaram por que mudei de percepção, respondi:
— Porque surgiram fatos que eu não conhecia.
Era só isso.
Eu não tinha que provar que Helena era perfeita.
Ela não era.
Tinha mentido para mim.
Tinha participado da limpeza.
Tinha fugido sem pedir ajuda.
Nada disso transformava uma agressão em algo aceitável.
Samuel também prestou esclarecimentos técnicos sobre o teste inicial que havia realizado. Deixou claro onde aplicou o reagente, quais eram as limitações e por que chamou a polícia em vez de continuar examinando o apartamento por conta própria.
A perícia oficial, não o teste dele, sustentava as conclusões técnicas do processo.
Achei importante ouvir isso mais uma vez.
No começo, eu tinha tratado o brilho azul no quarto como uma resposta.
Na verdade, tinha sido apenas uma pergunta.
Os meses seguintes trouxeram audiências, documentos e avaliações. Não acompanhei cada etapa. Em algum momento, percebi que eu tinha o direito de voltar à minha própria vida.
Comecei a passar cada vez mais noites no apartamento.
Meu trabalho continuou.
Samuel continuou aparecendo para jantar, embora agora tivesse adquirido o hábito irritante de perguntar se eu havia comprado algum produto de limpeza “normal”.
Na primeira vez, quase joguei uma almofada nele.
Na terceira, ri.
Esse riso foi mais importante do que parecia.
Helena também começou a melhorar.
Não de maneira linear.
Havia dias em que parecia tranquila e outros em que um som mais alto atrás dela fazia seu corpo reagir antes da mente.
Mas ela parou de interpretar recaídas como fracasso.
E, sobretudo, deixou de tomar decisões importantes apenas para evitar Gustavo.
Quando recebeu uma proposta profissional melhor em outra empresa, não aceitou imediatamente. Comparou salário, horário, deslocamento e possibilidade de crescimento.
Escolheu porque fazia sentido.
Não porque precisava fugir.
Pouco antes de completar um ano do ocorrido, saiu uma decisão importante no processo criminal.
Gustavo foi responsabilizado pela agressão conforme o conjunto de provas analisado no caso. O resultado não se apoiou em uma única mensagem ou em uma única perícia, mas na combinação dos vestígios do apartamento, do atendimento médico, dos depoimentos, das comunicações posteriores e das inconsistências entre as versões apresentadas.
Havia ainda procedimentos e possibilidades jurídicas próprias do processo.
Mas, para Helena, aquela decisão já representava uma mudança.
Ela me ligou quando recebeu a notícia.
Sua voz estava firme.
— Terminou?
Perguntei.
— Uma parte.
Ela respirou.
— Acho que agora entendi que “terminar” não significa que tudo desaparece.
— Então o que significa?
— Que aquilo não decide mais o que eu faço amanhã.
Depois da ligação, fiquei pensando nessa frase.
Percebi que valia para mim também.
Durante muito tempo, o apartamento tinha sido “o lugar onde aquilo aconteceu”.
Depois virou “o lugar que reformei”.
Agora começava a ser simplesmente minha casa.
Na semana seguinte, tomei uma decisão que adiava havia anos.
Entreguei o apartamento pequeno que alugava perto do trabalho e voltei definitivamente para o imóvel que tinha comprado com tanto esforço.
Minha mãe achou ótimo.
Samuel reclamou do tempo que levaria para chegar até lá.
Helena apenas sorriu.
No primeiro fim de semana depois da mudança, organizei caixas até tarde.
Quando terminei, sentei no chão da sala, cercada de livros, copos e cabos que eu ainda não sabia onde guardar.
Olhei para a porta do quarto.
Não senti medo.
Não senti cheiro de desinfetante.
Não vi luz azul alguma.
Vi apenas uma parede, um cômodo e uma casa que voltava a me pertencer.
Ainda faltava um último encontro para que Helena encerrasse oficialmente a parte empresarial da história.
Dessa vez, porém, ela não iria para tentar descobrir se tinha coragem de sair.
Iria porque já tinha saído.
Faltava apenas deixar isso registrado.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














