
PARTE 2
A polícia chegou pouco depois. Dois agentes pediram que eu e Samuel permanecêssemos no corredor enquanto uma equipe especializada era chamada para preservar o apartamento. Pela primeira vez desde que eu havia entrado ali, senti que aquele lugar já não me pertencia inteiramente; cada objeto parecia ter se transformado em algo que precisava ser observado antes de ser tocado.
Contei desde o começo como Helena tinha pedido o apartamento, quanto tempo pretendia ficar e o que disse durante a última ligação. Também mostrei a mensagem que mandei pedindo que avisasse quando chegasse. O policial anotou que ela não havia respondido e perguntou quando eu tivera notícias dela pela última vez antes disso.
Samuel explicou o que havia feito no quarto e deixou claro que aplicara o reagente somente em duas pequenas áreas. Ele mostrou as fotografias, descreveu o produto e informou onde trabalhava. A equipe registrou tudo antes de entrar, e ele repetiu várias vezes que não tinha mexido em nenhum outro ponto.
Quando mencionei Gustavo, o policial ergueu os olhos. Contei que ele era o noivo de Helena e relatei exatamente o que ele dissera: as acusações sobre dinheiro do estúdio, a suspeita de outra mulher e a intenção dela de romper o noivado. Não acrescentei minhas impressões, embora a maneira calma demais com que ele havia falado continuasse presa na minha cabeça.
Um dos agentes perguntou se Gustavo tinha uma chave do apartamento. Eu disse que não, pelo menos não uma que tivesse recebido de mim. Helena, porém, poderia ter aberto a porta para qualquer pessoa enquanto estivesse hospedada ali, e eu simplesmente não tinha como saber quem havia entrado.
Quando a equipe começou a trabalhar dentro do imóvel, pediram que eu não permanecesse tão perto. Fomos para o térreo do prédio. Sentei em um banco junto à portaria e percebi que minhas pernas tremiam, embora eu já não sentisse frio.
Samuel comprou uma garrafa de água na máquina e colocou ao meu lado. Não tentou dizer que tudo ficaria bem. Apenas comentou que a reação que tinha visto não identificava, sozinha, de quem era o sangue nem explicava o que havia acontecido, e que eu precisava me agarrar a essa diferença.
Foi a primeira coisa sensata que ouvi naquela noite. Até então, eu já tinha condenado Helena dezenas de vezes dentro da minha própria cabeça. Saber que havia sangue era um fato; concluir que minha melhor amiga tinha matado alguém era apenas medo.
Pouco depois da meia-noite, um investigador pediu para falar comigo novamente. Disse que havia sinais claros de uma limpeza intensa e que seriam coletadas amostras em diferentes pontos, inclusive no banheiro. Ainda não era possível afirmar a quantidade original de sangue nem quem tinha se ferido.
Ele perguntou se Helena tinha parentes próximos. Dei o contato da mãe dela e expliquei que nos conhecíamos havia doze anos. Naquele momento, ouvir a mim mesma dizer “doze anos” quase doeu mais do que olhar para a porta do apartamento interditado.
Meu celular tocou enquanto eu ainda preenchia meus dados. Era Gustavo. Fiquei encarando o nome na tela até o investigador perguntar quem estava ligando; quando respondi, ele pediu que eu não discutisse o ocorrido e que, se atendesse, não revelasse detalhes da investigação.
Atendi. Gustavo perguntou se Helena tinha aparecido e, ao perceber minha hesitação, quis saber onde eu estava. Respondi apenas que não tinha notícias dela e que, se ele soubesse de alguma coisa, deveria falar diretamente com a polícia.
Do outro lado, houve um silêncio curto. Ele perguntou por que a polícia estava envolvida. Eu não respondi e encerrei a chamada antes que pudesse me fazer outra pergunta.
Mostrei o registro ao investigador. Ele anotou o horário, confirmou o número e disse que entrariam em contato com Gustavo oficialmente. Naquele instante, uma coisa mudou dentro de mim: eu ainda não sabia se Helena tinha feito algo terrível, mas já não pretendia proteger ninguém por amizade, culpa ou medo.
Quando finalmente fui autorizada a ir embora, o apartamento continuou sob preservação. Entreguei as chaves aos policiais e desci com Samuel sem olhar para trás. Pela primeira vez desde a ligação de Helena, eu não tentei imaginar uma resposta; decidi esperar pelos fatos, por mais dolorosos que fossem.
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