
Queimei nosso álbum de casamento, pedi o divórcio — e ele só respondeu: “Tudo bem”
Parte 1
Quando Caio voltou para casa, eu estava destruindo nossas fotos de casamento.
A moldura de cristal já tinha virado cacos. Os enfeites de vidro espalhados pelo chão brilhavam sob a luz do jardim, e eu continuava golpeando tudo com o machado como se cada pancada pudesse arrancar de dentro de mim um pouco da raiva acumulada durante aqueles anos.
Ainda não bastava.
Peguei o álbum de casamento, coloquei no chão e risquei o fósforo.
As páginas grossas começaram a se curvar com o calor. Nossos rostos sorridentes foram engolidos pelas chamas, primeiro pelas bordas, depois por inteiro. A fumaça preta subiu, pesada, misturada ao cheiro forte de papel, tinta e plástico queimando.
Caio ficou parado a poucos metros de mim.
Através da fumaça e do clarão alaranjado do fogo, ele apenas observava.
Era assim havia anos.
Minhas crises, minhas lágrimas, a sensação de abandono, as pequenas humilhações que eu tentava engolir para preservar nosso casamento… nada parecia realmente alcançá-lo.
Quando o último pedaço do álbum virou cinza, ele finalmente ergueu os olhos.
— Já passou a raiva?
Esperei alguma coisa depois da pergunta.
Qualquer coisa.
Um pedido de explicação. Uma demonstração de preocupação. Talvez indignação por eu ter destruído as fotos de casamento.
Mas Caio apenas olhou para a porta da casa.
— Se passou, entra. O inverno chegou. Está frio aqui fora.
A tranquilidade da voz dele doeu mais do que um grito.
Olhei para aquele homem e finalmente disse a frase que havia repetido tantas vezes sozinha, sem coragem de pronunciá-la diante dele:
— Caio, eu quero o divórcio.
Ele parou.
Só por um instante.
Não perguntou por quê.
Não tentou confirmar se eu falava sério.
Tirou um cigarro do maço, acendeu e soltou lentamente a fumaça antes de responder:
— Tudo bem.
Depois se virou e entrou na casa.
Tudo bem.
Duas palavras.
Era só isso.
Eu tinha imaginado aquele momento tantas vezes. Em algumas versões, ele ficava furioso. Em outras, finalmente percebia o quanto eu estava machucada. Havia até noites em que, contra toda lógica, eu ainda imaginava Caio segurando meu braço e dizendo que não queria me perder.
Mas ele simplesmente disse:
Tudo bem.
Fiquei parada diante das cinzas, sentindo como se meu coração tivesse atravessado uma guerra longa demais.
E perdido.
Houve uma época em que uma única frase daquele homem tinha sido suficiente para me fazer acreditar que todos os meus anos de espera valiam a pena.
“Eu realmente me apaixonei por você. Casa comigo?”
Quando Caio disse aquilo, pensei que seria feliz.
Eu o amava havia tanto tempo que aceitei aquelas palavras como a recompensa por todos os sentimentos que tinha guardado em silêncio.
Acreditei que ele finalmente tinha enxergado minha sinceridade.
Que, de alguma forma, eu tinha conseguido tocar o coração daquele homem sempre tão distante.
Só não sabia que me casar com ele seria o começo do fim de tudo aquilo que eu sonhava viver.
Caio destruiu, aos poucos, cada expectativa que eu tinha sobre amor.
Voltei para dentro da casa e comecei a organizar minhas coisas.
Foi então que Mimo apareceu.
O coelhinho tinha sido um presente de Caio.
Nas noites em que eu chorava sozinha, ele ficava perto de mim. Quando eu me sentia sufocada naquela casa, Mimo era a única presença que não me fazia sentir inconveniente.
Era dócil e tranquilo.
Passava horas quietinho, sem fazer barulho, sem exigir nada.
Às vezes eu achava que ele se parecia comigo.
Ou, pelo menos, com a mulher que eu tinha sido durante boa parte daquele casamento.
Naquele momento, talvez percebendo a movimentação das malas, Mimo se encolheu junto aos meus pés. O focinho se mexeu enquanto ele mordiscava de leve meus dedos.
Abaixei-me e o peguei no colo.
Dentro daquela casa, talvez ele fosse o único que ainda demonstrasse não querer que eu fosse embora.
Caio saiu do banheiro justamente naquele momento.
Tinha acabado de tomar banho e secava o cabelo com uma toalha. Algumas gotas de água escorriam pelo peito antes de desaparecer sob a cintura da calça.
Durante muitos anos, aquela imagem teria sido suficiente para fazer meu coração acelerar.
Ele continuava sendo o mesmo homem bonito, reservado e distante que um dia me pareceu inalcançável como a lua.
Talvez justamente por isso eu tivesse me apaixonado tão profundamente.
Depois que o conheci, meus olhos pareciam incapazes de procurar outra pessoa.
— Vou levar o Mimo comigo — avisei. — Tem algum problema?
Caio olhou para o coelho, depois para a mala ao meu lado.
Sentou-se no sofá e acendeu outro cigarro.
— Você que sabe.
Abracei Mimo com mais força e caminhei até a porta.
Antes que eu saísse, ouvi a voz de Caio atrás de mim.
— Você vai ao aniversário da Júlia?
Parei com a mão na maçaneta.
O aniversário de Júlia também era o meu aniversário.
Caio nunca se lembrava.
Minha própria mãe também não.
Na vida deles, sempre havia alguém que merecia mais cuidado, mais atenção, mais proteção.
Eu parecia existir apenas nas margens.
Virei devagar.
— Não é melhor eu não aparecer?
Caio franziu levemente a testa.
— O que isso quer dizer?
Dei uma risada sem humor.
— Você e a Júlia não são o casal perfeito que vivem elogiando? Bonitos, bem-sucedidos, feitos um para o outro. Eu só atrapalho.
Ele me observou sem responder.
Continuei:
— Para vocês, eu sou só a mulher inútil que sente ciúme, perde o controle e estraga a imagem bonita que todos gostam de mostrar.
Caio levou o cigarro à boca.
Silêncio.
Outra vez.
Foi somente quando o olhar dele caiu sobre os papéis do divórcio que eu havia deixado na mesa de centro que sua expressão mudou por um segundo.
Um segundo.
Depois desapareceu.
Saí.
Ele não disse mais nada.
Eu tinha comprado, algum tempo antes, uma casa pequena em Curitiba. Não era luxuosa, mas era minha, e foi para lá que levei minhas malas.
Mal tinha terminado de organizar algumas caixas quando recebi uma ligação da companhia aérea responsável pelo transporte de Mimo.
— Senhora Tavares?
— Sim.
A voz da atendente era cuidadosa.
— Infelizmente ocorreu um problema durante o transporte. Seu animal ficou muito assustado e… ele não resistiu.
Não ouvi direito o restante.
O mundo pareceu perder o som.
— Sentimos muitíssimo. A empresa assumirá os custos relacionados ao procedimento e à destinação adequada do animal.
Fiquei olhando para uma caixa ainda fechada no meio da sala.
Demorei alguns segundos para responder.
— Por favor…
Minha própria voz parecia vir de muito longe.
— Escolham um lugar onde bata bastante sol.
A atendente ficou em silêncio.
— Ele gostava de ficar no sol — completei.
A voz do outro lado ficou mais baixa.
— Claro, senhora Tavares. Vamos cuidar disso.
Desliguei.
Passei algum tempo andando de um lado para o outro sem saber exatamente o que procurava.
Abri caixas.
Mexi em bolsas.
Revistei a mala.
Talvez estivesse tentando encontrar qualquer coisa capaz de diminuir aquela dor.
Durante a mudança, eu tinha forçado demais as costas e acabado com uma dor forte na lombar. Depois de muito procurar, encontrei finalmente um adesivo analgésico.
Fui até o espelho para colocá-lo.
Foi quando tudo apagou.
A casa mergulhou na escuridão.
— Droga…
Estiquei a mão tentando encontrar apoio.
Meus dedos bateram em algum objeto.
Ouvi o impacto.
Depois, o som do vidro se quebrando no chão.
Naquela noite silenciosa, pareceu alto demais.
Alguma coisa dentro de mim também se rompeu.
Sentei no chão e comecei a chorar.
Não foi um choro bonito ou contido.
Chorei como alguém que tinha passado tempo demais tentando se controlar.
O objeto quebrado diante dos meus pés parecia a imagem perfeita da minha vida.
Minha mãe não me amava como eu precisava.
Minha melhor amiga não estava ao meu lado.
Meu marido nunca parecia capaz de me escolher.
E agora até Mimo, a criatura que tinha permanecido comigo sem pedir explicações, tinha ido embora.
Por quê?
Como tudo tinha chegado àquele ponto?
Durante anos, ouvi que precisava pensar no todo.
Na família.
No futuro dos Duarte.
Na situação de Caio.
Na reputação.
Nas aparências.
Naquilo que era conveniente para os outros.
Mas ninguém perguntava o que aconteceria comigo.
Se eu estava sofrendo.
Se estava cansada.
Se me sentia humilhada.
Se conseguia continuar.
Desde que Júlia voltara ao Brasil, tudo parecia ter saído do lugar de vez.
Não lembro em que momento consegui chegar à cama.
Na manhã seguinte, acordei com alguém batendo à porta.
Quando abri, encontrei um senhor de cabelos completamente brancos segurando uma caixa de doces.
O rosto dele era gentil.
— Bom dia. Soube que alguém tinha se mudado para cá ontem. Vim dar as boas-vindas em nome do pessoal aqui do lado.
Olhei para ele ainda meio perdida.
O senhor sorriu.
— Faltou energia ontem à noite. Você não ficou assustada sozinha?
Talvez tenha percebido minha expressão de dúvida, porque logo se apresentou:
— Meu nome é Augusto Martins. Sou diretor da casa de repouso aqui ao lado.
Estendeu a caixa para mim.
— Se precisar de alguma coisa, pode procurar a gente.
Foi uma frase simples.
Mas meus olhos arderam imediatamente.
Não lembrava da última vez em que alguém havia me dito, sem obrigação:
“Pode procurar a gente.”
Respirei fundo e consegui sorrir.
— Muito obrigada.
Depois de terminar de organizar a casa, preparei uma pequena lembrança e fui até a instituição agradecer pela visita.
O lugar era simples, construído em torno de um pátio quadrado. Não parecia grande, mas havia plantas, bancos e bastante luz entrando pelas janelas.
Seu Augusto abriu um sorriso quando me viu.
— Entre, entre. Vou pegar água para você.
Enquanto ele se afastava, meus olhos encontraram um piano novo no canto do pátio.
Quando Seu Augusto voltou com o copo, percebeu meu interesse.
— Ah, esse piano? Foi doado por uma instituição beneficente. Disseram que seria bom para incentivar atividades musicais por aqui.
Ele soltou uma risadinha e olhou para o instrumento.
— O problema é que ninguém aqui sabe tocar.
Obrigado por acompanhar até aqui 🙌📖 Isso é só o começo… A próxima parte já está nos comentários 👇🔥 Se você não encontrar, toque em “Ver todos os comentários” 💬✨











