
Parte 6
Dois meses depois da minha mudança, eu já sabia quais tábuas do piso da casa rangiam, em que horário o sol atingia a janela da cozinha e quais moradores da casa de repouso chegavam primeiro nas tardes de música.
Minha vida não tinha ficado extraordinária.
Tinha ficado minha.
Esse detalhe mudava tudo.
O processo de separação avançava lentamente, como era de esperar. Algumas decisões patrimoniais exigiam documentos e avaliações. Em vez de me desesperar com a demora, comecei a tratar cada etapa como parte de uma realidade que precisava ser organizada.
Eu e Caio quase não conversávamos fora dessas questões.
Até que, depois de uma reunião, ele perguntou se podíamos tomar um café.
Pensei antes de aceitar.
Não queria transformar cada encontro numa nova discussão sobre nosso casamento.
— Dez minutos — falei.
Sentamos numa cafeteria próxima.
Caio não parecia ter preparado um discurso.
Talvez por isso eu tenha aceitado ficar um pouco mais.
— Eu conversei com Júlia — começou.
— Sei.
— Não, depois da conversa de vocês.
Esperei.
— Ela disse que eu fiz você parecer louca.
A palavra me incomodou.
— Não foi só ela.
— Eu sei.
Caio passou os dedos pela xícara.
— Eu fazia isso também.
Fiquei quieta.
— Quando você ficava irritada, eu pensava que era ciúme. Quando chorava, eu achava que precisava esperar passar. Quando reclamava, eu pensava que você estava exagerando porque sabia que eu nunca tinha tido nada com a Júlia.
— E por isso o resto não importava.
— Foi assim que eu agi.
Aquela talvez fosse a primeira vez que Caio descrevia o problema sem transformá-lo imediatamente em defesa.
— Por que? — perguntei.
Ele demorou.
— Porque era mais fácil.
A resposta veio baixa.
— Mais fácil pensar que eu estava casado com uma mulher ciumenta do que admitir que talvez eu estivesse fazendo alguma coisa errada.
Continuei observando.
— Também achei que, por você ter gostado de mim durante tanto tempo, nunca iria embora.
Eu respirei fundo.
Não era agradável ouvir aquilo.
Mas havia verdade.
— Você me tratou como garantia.
— Sim.
— E a Júlia?
— É uma amiga antiga. Quando ela voltou, eu achei que precisava ajudá-la a se readaptar. Depois começaram as matérias, os comentários… e eu não dei importância.
— Eu dei.
— Eu sei agora.
Inclinei-me contra a cadeira.
— Caio, eu não precisava que você expulsasse ninguém da sua vida. Eu precisava que, quando alguém desrespeitasse nosso casamento, você se posicionasse.
Ele assentiu.
— Eu deveria ter feito isso.
— Deveria.
— Eu sinto muito.
Não senti vontade de chorar.
Também não senti vontade de abraçá-lo.
Durante anos, eu imaginei como seria finalmente ouvir aquilo.
Na realidade, um pedido de desculpas não apagava o passado.
Mas tinha valor quando vinha acompanhado de responsabilidade.
— Obrigada por dizer.
Ele ergueu os olhos.
— Só isso?
— O que você esperava?
Caio sorriu de forma amarga.
— Não sei.
— É justamente isso. Você passou muito tempo acreditando que uma coisa que fizesse no presente poderia consertar tudo de uma vez.
— E não pode.
— Não.
Saímos da cafeteria sem promessa alguma.
Naquele dia, percebi uma mudança importante.
Eu já não precisava que Caio continuasse sendo indiferente para justificar minha decisão.
Ele podia entender.
Podia se arrepender.
Podia mudar.
E eu ainda assim tinha o direito de não voltar.
Essa percepção foi libertadora.
Na casa de repouso, as tardes de música estavam ficando mais organizadas.
Seu Augusto conseguiu algumas pastas para as partituras. Uma funcionária sugeriu incluir músicas escolhidas pelos próprios moradores. Eu comecei a chegar um pouco antes para conversar com quem queria pedir alguma canção.
Certa tarde, Dona Célia me entregou uma folha.
— O que é isso?
— Minha lista.
Havia sete músicas escritas em letra grande.
— Você pretende ficar aqui até de madrugada?
— Você é jovem.
— Isso não responde.
Ela riu.
Acabei tocando quatro.
No intervalo, Seu Augusto comentou que o pátio estava recebendo mais visitas de familiares durante as atividades.
— Muita gente vem porque o pai ou a mãe pede para ouvir música junto.
— Isso é bom.
— Muito.
Ele olhou para mim.
— Você também parece diferente.
— Todo mundo resolveu analisar minha cara?
— Vantagem de envelhecer. A gente perde a vergonha.
Sorri.
— Acho que estou melhor.
— Melhor é diferente de não doer.
A frase me acompanhou até em casa.
Naquela noite, minha mãe ligou.
Eu quase deixei tocar, mas atendi.
— Oi.
— Eu posso falar alguns minutos?
O tom dela era diferente.
— Pode.
Ela começou perguntando se eu estava bem.
Depois falou sobre coisas pequenas.
Só no final mencionou Caio.
— Ele esteve aqui há alguns dias.
Meu corpo ficou tenso.
— Para quê?
— Resolver uma questão com seu pai sobre um documento antigo da família. Não foi sobre vocês.
Relaxei.
Ela continuou:
— Ele parece… diferente.
— As pessoas mudam quando as coisas mudam.
— Você ainda vai mesmo se divorciar?
— Vou.
Minha mãe soltou o ar devagar.
— Mesmo se ele estiver arrependido?
Olhei para as plantas perto da janela.
— Mãe, arrependimento não cria obrigação.
Ela ficou em silêncio.
— Eu acho que passei muito tempo ensinando você a suportar — disse.
Não respondi.
A frase me surpreendeu.
— Eu queria que seu casamento desse certo. Queria evitar comentários, conflitos, escândalos. Achava que estava protegendo você.
— E me ensinou que proteger a imagem era mais importante que proteger a mim mesma.
Do outro lado, ouvi uma respiração trêmula.
— Talvez.
Não era uma reparação completa.
Mas era a primeira vez que ela não tentava corrigir minha versão da história.
— Eu ainda preciso de espaço — falei.
— Eu sei.
— Mas podemos conversar de vez em quando.
— Está bem.
Quando desligamos, fiquei alguns minutos olhando para o celular.
Não senti necessidade de transformar aquele momento em reconciliação imediata.
Relações não se consertavam em uma ligação.
Mas também não precisavam permanecer para sempre congeladas no pior momento.
Dias depois, recebi do advogado uma nova versão do acordo de divisão patrimonial.
Caio havia retirado algumas exigências que poderiam alongar a negociação e aceitado uma solução equilibrada proposta pelos profissionais.
No final do documento havia a confirmação de que ele concordava em seguir com o divórcio consensual.
Li a linha duas vezes.
Meses antes, uma parte de mim teria desejado que ele recusasse.
Que lutasse.
Que provasse que não queria me perder.
Agora eu entendia que respeitar minha decisão era talvez a primeira coisa realmente amorosa que Caio fazia por mim em muito tempo.
Assinei minha parte.
Quando devolvi o documento, minhas mãos permaneceram firmes.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇













