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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Encontrei a lista do noivado do meu namorado com a filha do diretor — e ele ainda dizia que podia me sustentar

Parte 1

Durante anos, escondi que era a única filha da família Albuquerque, uma das famílias mais tradicionais e abastadas de São Paulo.

Eu queria construir alguma coisa sozinha antes de assumir o lugar que meus pais haviam preparado para mim. Por isso, fui para Belo Horizonte e comecei a trabalhar no Hospital São Gabriel sem contar a ninguém de onde eu realmente vinha.

No meu primeiro ano ali, conheci Lucas Valente.

Ele era o chefe mais jovem que o departamento de Cirurgia já tivera. Competente, respeitado, exigente dentro do centro cirúrgico e, quando queria, dono de uma calma capaz de fazer qualquer residente parar de tremer antes de uma operação difícil.

Eu me apaixonei por ele quase imediatamente.

Nos cinco anos seguintes, Lucas foi ao mesmo tempo meu namorado e meu superior.

No trabalho, cobrava de mim o mesmo que cobrava dos outros. Fora dali, porém, me tratava de um jeito completamente diferente. Cuidava de mim, tolerava minhas manias e, durante muito tempo, me fez acreditar que eu ocupava um espaço especial na vida dele.

Havia apenas uma coisa que nunca mudava.

Lucas jamais me levava à casa da família Valente.

No começo, achei que fosse questão de tempo. Depois, vieram as desculpas.

A mãe estava ocupada.

O pai viajaria.

Não era o momento certo.

Ele preferia evitar pressão sobre o nosso relacionamento.

Sempre existia uma razão razoável o bastante para eu aceitar esperar mais um pouco.

Até descobrir o motivo verdadeiro.

Os Valente eram uma família tradicional da medicina em Belo Horizonte. Gerações de médicos, professores e administradores hospitalares haviam construído um sobrenome respeitado.

Para eles, eu era apenas Marina Albuquerque, uma médica que, segundo a história que eu contava, havia crescido longe dos grandes círculos da capital.

Uma mulher sem uma família considerada importante o bastante.

Os comentários no hospital começaram discretamente.

Depois deixaram de ser discretos.

— Eles combinam, mas casamento já é outra história.

— A família do doutor Lucas jamais aceitaria.

— Namorar é uma coisa. Entrar para a família Valente é outra.

Eu fingia não ouvir.

A ironia era quase engraçada.

Se eu simplesmente dissesse quem era meu pai, muita gente mudaria de opinião em questão de segundos.

Durante cinco anos, entretanto, evitei fazer isso.

Eu queria que Lucas escolhesse Marina.

Não o sobrenome Albuquerque.

Mas, quando os comentários ficaram frequentes demais, decidi que já não fazia sentido esconder aquilo dele.

Eu contaria a verdade.

Só não tive oportunidade.

Lucas desapareceu durante praticamente um dia inteiro.

Telefonemas sem resposta.

Mensagens ignoradas.

Nenhuma explicação convincente.

E aquilo já não era exatamente uma novidade.

Quando contei, percebi que aquela era a nonagésima nona noite em que ele dormia fora de casa desde que passáramos a morar juntos.

Na manhã seguinte, fui até a sala dele procurar um prontuário que precisava consultar.

Foi então que vi as folhas sobre a mesa.

Uma lista de convidados.

Nomes escritos à mão, outros riscados, algumas anotações ao lado.

No alto da primeira página havia uma palavra que me fez parar.

Noivado.

Continuei lendo.

A noiva era a filha do diretor Carvalho.

Senti os dedos esfriarem.

Procurei o nome do noivo mesmo sabendo que alguma parte de mim já não queria encontrá-lo.

Lucas Valente.

Meu namorado.

O homem que dividia a cama comigo.

O mesmo homem que me beijava antes de sair para trabalhar e dizia que eu estava imaginando coisas quando perguntava por que ele passava tantas noites longe.

Fiquei parada diante daquela mesa por um tempo que não sou capaz de medir.

Não chorei.

Não gritei.

Não rasguei a lista.

Apenas li novamente, como se uma segunda leitura pudesse produzir outro nome.

Não produziu.

Lucas já havia aceitado o casamento organizado pelas duas famílias enquanto continuava vivendo comigo como se nada estivesse acontecendo.

Naquela tarde, tomei uma decisão.

Não confrontei Lucas.

Não telefonei para a mãe dele.

Não procurei o diretor Carvalho.

Também não fui atrás da filha dele.

Fiz algo completamente diferente.

Liguei para meu pai.

Meses antes, ele havia me perguntado novamente quando eu estaria pronta para voltar. Dessa vez, aceitei receber o anel-sinete que ele havia guardado como símbolo de quem um dia assumiria as responsabilidades da nossa família.

Eu havia passado anos fugindo daquele lugar.

Agora, não queria mais fugir.

Lucas já havia escolhido o caminho dele.

Eu precisava escolher o meu.

Quando meus pais atenderam minha ligação, a alegria dos dois foi impossível de esconder.

— Se você realmente decidiu voltar, sua posição continua sendo sua — meu pai disse. — Seu escritório está sendo preparado de novo. Nunca deixamos de esperar por você.

Minha mãe demorou poucos segundos para fazer a pergunta que eu sabia que viria.

— E o seu namorado? Você pretende trazê-lo para São Paulo? Imagino que ainda não tenha contado quem você realmente é.

Apertei o celular entre os dedos.

— Não.

Minha mãe ficou em silêncio.

— Não vai contar?

— Vou terminar com ele.

Minha própria voz quase desapareceu quando pronunciei o nome de Lucas.

— Em uma semana, resolvo tudo aqui e volto.

Naquela noite, Lucas não apareceu em casa.

Dessa vez, não liguei.

Não mandei mensagem.

Não fiquei acordada esperando ouvir a chave girar na fechadura.

Na manhã seguinte, acordei cedo, me arrumei e fui diretamente ao hospital.

Entreguei meu pedido de desligamento.

Assinei o que precisava assinar.

Organizei a transferência das minhas responsabilidades.

Quando saí do setor administrativo, senti algo estranho.

Eu havia imaginado que pedir demissão do hospital onde construíra cinco anos da minha carreira seria devastador.

Não foi.

Doeu.

Mas também trouxe uma espécie de alívio.

Convidei alguns colegas mais próximos para almoçar comigo.

Quando contei que estava indo embora, todos começaram a fazer perguntas.

Uma colega apoiou o cotovelo na mesa e brincou:

— Marina, você está resolvendo tudo tão rápido que parece aqueles vídeos da internet. Vai dizer que está voltando para casa para assumir uma fortuna?

Sorri.

— Exatamente. Estou voltando para assumir a fortuna da família.

Houve um segundo de silêncio.

Depois, a mesa inteira caiu na risada.

— Claro — outro colega respondeu. — E eu sou herdeiro de uma rede de hospitais.

Ri junto.

Ninguém acreditou.

Não fiz questão de convencer ninguém.

Depois do almoço, voltei ao hospital, peguei meus objetos pessoais e coloquei tudo em uma caixa de papelão.

Livros.

Canetas.

Algumas fotografias.

Uma caneca antiga.

Cinco anos cabiam com uma facilidade assustadora dentro de uma caixa.

Quando cheguei ao apartamento, empurrei a porta com o ombro.

Lucas estava na sala.

Ele segurava um copo de água.

Ao me ver entrando com a caixa, sua mão parou no meio do caminho.

— Tirou férias?

Eu não tinha energia para explicar.

Apenas concordei com a cabeça e caminhei em direção ao quarto.

— Espera.

Lucas colocou o copo sobre a mesa e veio até mim.

— Você sempre dizia que entrar no centro cirúrgico todos os dias fazia você feliz. Por que decidiu tirar férias assim, do nada?

Olhei para ele.

— Porque tenho uma coisa mais importante para fazer.

A testa dele se franziu.

— O quê?

Sorri de leve.

— Segredo.

Lucas pareceu interpretar aquilo da maneira que lhe era mais conveniente. Seus ombros relaxaram e a voz ficou mais suave.

— Já estava na hora de você descansar um pouco. Seu trabalho é pesado. Você vive correndo de uma cirurgia para outra comigo. Às vezes eu olho para você e fico preocupado.

Deu um passo na minha direção.

— Marina, mesmo que você resolvesse deixar a medicina, eu poderia sustentar nós dois tranquilamente.

A frase teria me emocionado alguns meses antes.

Naquele momento, apenas me cansou.

— Eu não preciso que você me sustente.

Ele me olhou sem entender.

— Eu não quero depender de ninguém, Lucas.

— Depender?

Ele soltou uma pequena risada.

— Desde quando você seria um peso para mim?

Eu não queria discutir aquilo.

Não mais.

— Por que você chegou cedo hoje?

Lucas hesitou por menos de um segundo.

— Tenho trabalhado demais ultimamente. Quase não fiquei com você. Achei que estivesse chateada, então consegui liberar a tarde.

Ele abriu os braços, tentando me abraçar.

Eu permaneci onde estava.

— Para onde você quer ir? — perguntou. — Hoje faço o que você quiser.

O olhar dele continuava carinhoso.

Tão familiar que chegou a doer.

Durante cinco anos, eu teria dado enorme valor àquele gesto.

Lucas era o cirurgião mais requisitado do Hospital São Gabriel. Sua agenda frequentemente se estendia até tarde da noite, e havia dias em que ele mal encontrava tempo para comer.

Sempre interpretei cada hora que ele reservava para mim como prova de que eu era importante.

Agora, olhando para aquele mesmo rosto, eu só conseguia enxergar as folhas deixadas sobre a mesa.

A lista.

Os convidados.

A filha do diretor Carvalho.

O nome dele escrito ao lado da palavra noivo.

Lucas ainda sorria para mim, esperando uma resposta.

E uma única pergunta continuava martelando dentro da minha cabeça.

Afinal, ele estava ocupado com o trabalho…

ou preparando o próprio noivado?

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