
Parte 7
Lucas veio atrás de mim antes que eu chegasse ao carro.
— Marina, espera.
Meus pais continuaram andando. Minha mãe apenas olhou para mim, e eu fiz um gesto dizendo que estava tudo bem.
Parei perto da entrada.
Lucas chegou ofegante.
— Você é uma Albuquerque.
A frase me incomodou imediatamente.
— Meu nome sempre foi Albuquerque.
— Você sabe o que quero dizer.
— Sei.
Ele passou a mão pela nuca.
— Sua família é…
— Minha família.
— Marina, isso muda muita coisa.
Foi exatamente a frase que eu não queria ouvir.
— Para você, talvez.
Lucas percebeu o erro.
— Não quis dizer desse jeito.
— Mas disse.
— Estou tentando entender.
— Então entende uma coisa simples: eu sou a mesma mulher que morou cinco anos com você.
Ele ficou calado.
— O mesmo diploma. O mesmo trabalho. Os mesmos plantões. A mesma pessoa que esperava você chegar de madrugada.
— Eu sei.
— Não parece.
— É muita informação de uma vez.
— Para você. Para mim, é minha vida inteira.
Lucas respirou lentamente.
— Foi por isso que você nunca se preocupava tanto com dinheiro.
— Eu me preocupava com meu salário porque ele era meu.
— E quando eu oferecia…
— Eu nunca precisei.
Ele fechou os olhos.
Lembrei-me da noite em que dissera que podia me sustentar.
Na época, senti raiva.
Agora a frase quase parecia pequena demais para merecer espaço entre nós.
— Sua família teria aceitado nosso relacionamento? — Lucas perguntou.
— Provavelmente.
Ele me encarou.
— Então tudo isso…
— Não.
Interrompi antes que concluísse.
— Não diga que tudo isso poderia ter sido evitado se eu tivesse contado.
— Mas…
— Seu problema não era minha família real. Seu problema era o que você acreditava sobre mim.
Lucas ficou imóvel.
— Você aceitou um noivado porque pensava que eu não era adequada para a sua família. Se eu tivesse mostrado minha conta bancária antes, talvez sua mãe tivesse gostado mais de mim. Isso não torna sua escolha melhor.
Ele baixou o olhar.
— Eu amava você antes de saber.
— E mesmo assim aceitou ficar noivo de outra pessoa.
Não havia resposta.
A porta do hospital abriu atrás dele.
A filha do diretor Carvalho saiu.
Eu a reconheci pelas poucas fotografias que circulavam nos preparativos do jantar.
Ela parecia ter pouco mais de trinta anos, postura firme e uma expressão exausta.
Olhou primeiro para Lucas.
Depois para mim.
— Você é Marina?
— Sou.
Lucas se virou.
— Não precisava vir aqui.
Ela ignorou.
— Eu precisava saber uma coisa.
Seu olhar permaneceu em mim.
— Vocês ainda estavam juntos quando começaram a organizar nosso noivado?
Lucas abriu a boca.
Eu respondi antes.
— Sim.
Ela assentiu lentamente.
Não pareceu surpresa.
Apenas confirmada.
— Moravam juntos?
— Sim.
Lucas interferiu.
— Isso é entre nós.
Ela virou o rosto para ele.
— Não, Lucas. A partir do momento em que você aceitou discutir casamento comigo enquanto continuava morando com ela, também virou assunto meu.
Não havia gritos.
Isso tornou tudo mais duro.
Ela olhou novamente para mim.
— Eu não sabia.
— Eu imaginei.
— Minha família me disse que o relacionamento de vocês tinha terminado havia meses.
— Não tinha.
Ela soltou o ar.
— Obrigada por responder.
Eu fiz um gesto breve.
Ela virou-se para Lucas.
— O jantar foi cancelado.
Ele pareceu surpreso.
— Seu pai disse…
— Meu pai ainda queria conversar. Eu não quero.
Lucas endureceu.
— Nós podemos resolver isso em particular.
— Já estou resolvendo.
A mulher deu um passo em direção à entrada, mas parou.
— E, para deixar claro, não estou cancelando porque descobri quem é a família dela. Estou cancelando porque você mentiu para mim também.
Lucas ficou parado.
Ela entrou no hospital sem olhar para trás.
Eu senti uma estranha mistura de alívio e tristeza.
Alívio porque ela se recusara a participar da mentira.
Tristeza porque mais uma pessoa havia sido arrastada para uma situação que Lucas poderia ter evitado com uma única coisa: honestidade.
Ele voltou o rosto para mim.
— Está satisfeita?
A pergunta me surpreendeu.
— Com o quê?
— O noivado acabou.
Eu demorei alguns segundos.
— Você acha que eu queria assistir duas mulheres brigarem por você?
Lucas percebeu a agressividade da própria frase.
— Não foi isso que quis dizer.
— Então escolha melhor as palavras.
Ele respirou fundo.
— Estou frustrado.
— Comigo?
— Com tudo.
— Isso não é mais responsabilidade minha.
Lucas olhou para o carro onde meus pais esperavam.
— Você vai mesmo embora agora?
— Vou.
— Posso ir a São Paulo conversar com você?
— Não.
— Marina…
— Eu preciso de distância.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Uma semana?
— Lucas.
Ele fechou a boca.
— Pare de tratar meus limites como algo que você precisa negociar.
A frase fez seus ombros baixarem.
— Certo.
Fiquei surpresa.
Era talvez a primeira vez naquela semana que ele aceitava uma resposta sem tentar alterá-la.
— Se algum dia você quiser conversar, eu vou atender — disse.
— Não faça promessas sobre mim.
— Eu estou falando sobre mim.
Assenti.
— Então viva de acordo com isso.
Entrei no carro.
Minha mãe segurou minha mão assim que fechei a porta.
Meu pai não fez perguntas até estarmos longe do hospital.
Depois olhou pelo retrovisor.
— Quer falar sobre ele?
— Não agora.
— Tudo bem.
Foi tudo o que disse.
Essa simplicidade quase me fez chorar.
No aeroporto, sentei entre meus pais enquanto aguardávamos o embarque.
Minha mãe observou o anel na minha mão.
— Faz anos que não via você usando isso.
— Faz anos que eu não queria usar.
— E agora?
Pensei antes de responder.
— Agora não acho mais que preciso fingir que uma parte da minha vida não existe para provar que consigo ser alguém sozinha.
Meu pai sorriu.
— Finalmente.
— Não se anime demais. Ainda não aceitei todas as reuniões que você colocou na minha agenda.
Ele riu.
Foi uma risada comum.
Familiar.
E eu percebi quanto havia sentido falta de estar perto deles.
Durante o voo, olhei as nuvens pela janela.
Meu celular estava desligado.
Pela primeira vez em anos, eu não me perguntava se Lucas havia chegado em casa.
Não imaginava onde estava.
Não procurava justificativas.
Quando aterrissamos em São Paulo, senti medo.
Minha vida em Belo Horizonte havia terminado rápido demais.
Eu não sabia exatamente que lugar ocuparia dali em diante.
Ainda amava medicina.
Também havia decidido assumir responsabilidades que adiara por anos.
Precisaria descobrir como essas duas partes de mim poderiam coexistir.
Mas havia uma certeza.
Eu não voltaria atrás apenas porque Lucas finalmente começava a enfrentar as consequências das próprias escolhas.
No carro, a caminho de casa, liguei o celular.
Havia muitas mensagens.
Colegas.
Amigos.
Alguns números desconhecidos.
E uma única mensagem de Lucas.
Não dizia “volta”.
Não dizia “me perdoa”.
Não dizia “precisamos conversar”.
Dizia apenas:
“Você tinha razão. Eu passei cinco anos tentando não escolher. No fim, isso também foi uma escolha.”
Li duas vezes.
Depois bloqueei a tela.
Ainda não era suficiente para reconstruir nada.
Mas, pela primeira vez, Lucas parecia ter começado a entender o que realmente havia feito.
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