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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Voltar para São Paulo não pareceu voltar no tempo.

Minha antiga casa continuava no mesmo lugar, mas eu não era a mulher que saíra dali anos antes.

Meu quarto havia sido reorganizado. Meu escritório, como meu pai prometera, estava pronto.

Na primeira manhã, encontrei sobre a mesa uma pilha de documentos, relatórios e agendas.

Fiquei olhando para tudo.

— Arrependida? — meu pai perguntou da porta.

— São oito da manhã.

— Isso não responde.

— Então não.

Ele entrou.

— Não precisa assumir tudo de uma vez.

— Eu sei.

— E também não precisa abandonar a medicina.

Olhei para ele.

— Achei que você fosse tentar me prender aqui.

— Marina, passei anos esperando você voltar por vontade própria. Seria estupidez transformar sua volta em outra prisão.

A frase ficou comigo.

Nos dias seguintes, comecei a acompanhar algumas responsabilidades da família, mas reservei tempo para estudar possibilidades profissionais.

Eu ainda era médica.

Minha vida não precisava escolher entre um sobrenome e uma carreira.

Talvez esse tivesse sido um dos meus maiores erros em Belo Horizonte: acreditar que precisava apagar uma parte para proteger a outra.

Recebi mensagens de antigos colegas quase todos os dias.

Camila era a mais insistente.

“Você virou assunto do hospital inteiro.”

Respondi:

“Espero que tenham coisas mais interessantes para fazer.”

Ela mandou um áudio rindo.

Depois ficou séria.

Contou que o jantar de noivado havia sido oficialmente cancelado.

A informação já não me causou a reação que talvez Lucas esperasse.

— E ele? — perguntei.

— Trabalhando.

— Só?

— Só.

A resposta me tranquilizou.

Não porque desejasse vê-lo sofrer.

Mas porque significava que, pelo menos até aquele momento, ele não transformara a situação num espetáculo.

Quatro dias depois da minha chegada, recebi outra mensagem dele.

“Não vou insistir para você responder. Só preciso corrigir uma coisa: eu não fui vítima da minha família. Eles pressionaram, mas fui eu quem disse sim.”

Fiquei olhando para a tela.

Era uma frase importante.

Não para nós.

Para ele.

Durante nossa última discussão, Lucas havia falado repetidamente sobre a pressão familiar.

Agora, finalmente separava pressão de escolha.

Não respondi.

No sexto dia, ele escreveu novamente.

“Também pedi desculpas à filha do diretor Carvalho. Sem justificar.”

Dessa vez respondi.

“Era o mínimo.”

A resposta veio minutos depois.

“Eu sei.”

Nossa conversa terminou ali.

Uma semana passou.

Depois outra.

Minha rotina começou a ganhar forma.

De manhã, participava das reuniões necessárias com meu pai. À tarde, estudava possibilidades de voltar a exercer medicina em São Paulo sem mergulhar imediatamente numa carga semelhante à que tinha em Belo Horizonte.

Minha mãe observava tudo à distância.

Uma noite, durante o jantar, perguntou:

— Ainda ama ele?

A pergunta me pegou desprevenida.

— Não sei.

Ela continuou comendo.

— Resposta honesta.

— Achei que você diria que eu deveria esquecê-lo.

— Eu quero que você tome decisões melhores, não que eu tome decisões por você.

Sorri.

— Todo mundo resolveu ficar sábio depois que voltei?

Meu pai levantou a mão.

— Não me inclua.

Rimos.

Depois, minha mãe ficou séria.

— Amar alguém não obriga você a voltar.

Eu sabia.

Essa talvez fosse a parte mais difícil.

Se Lucas tivesse sido cruel durante todos aqueles anos, teria sido simples transformá-lo em alguém que eu não reconhecia.

Mas ele também havia sido cuidadoso.

Tínhamos memórias boas.

Havia domingos preguiçosos.

Plantões em que ele deixava café na minha mesa.

Viagens curtas.

Projetos.

Piadas que ninguém mais entendia.

A traição não apagava tudo isso.

Mas as coisas boas também não apagavam a traição.

Duas semanas depois da minha partida, Lucas telefonou.

Fiquei olhando o nome aparecer.

Atendi.

— Oi.

Do outro lado, houve uma pausa.

— Oi.

A voz dele parecia cansada.

— Você está bem?

— Estou.

— Posso falar cinco minutos?

— Pode.

Ele respirou.

— Não vou pedir para voltar.

Aquilo me fez prestar atenção.

— Certo.

— Passei muito tempo pensando no que aconteceu.

— Imagino.

— Você disse uma coisa que eu não consegui esquecer.

Esperei.

— Que eu queria manter tudo porque não tinha coragem de escolher.

Fechei os olhos.

— Sim.

— Era verdade.

Lucas continuou:

— Eu queria minha família satisfeita. Queria manter minha posição. Queria evitar confronto. Queria você comigo. E fui convencendo a mim mesmo de que conseguiria empurrar cada decisão até encontrar uma solução que não me custasse nada.

Sua voz ficou mais baixa.

— Só que não existe solução sem custo quando nossas escolhas atingem outras pessoas.

Eu permaneci em silêncio.

— Não espero que isso mude o que você sente.

— Ainda bem.

Ele soltou uma pequena respiração que poderia ter sido uma risada triste.

— Estou aprendendo.

— Espero que sim.

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Se eu soubesse desde o começo quem era sua família, você acha que nós teríamos terminado do mesmo jeito?

A pergunta era perigosa porque convidava a imaginar uma versão alternativa da nossa vida.

— Talvez não.

Lucas ficou quieto.

— Mas não é porque você teria me amado melhor — continuei. — É porque talvez sua família tivesse facilitado tudo, e você nunca precisaria mostrar quem era diante de uma escolha difícil.

Ele não respondeu imediatamente.

— Então você acha que isso precisava acontecer?

— Não.

Minha resposta foi firme.

— Nada disso precisava acontecer. Você poderia simplesmente ter sido honesto.

— Certo.

— Não transforme um erro evitável em destino.

— Eu não vou.

Ficamos alguns segundos sem falar.

— Marina.

— Sim?

— Obrigado por atender.

— Boa noite, Lucas.

— Boa noite.

Desliguei.

Meu coração estava acelerado.

Não porque eu quisesse voltar.

Mas porque aquela foi a primeira conversa em que ele não tentou convencer, negociar, minimizar ou prometer.

Lucas finalmente começava a aceitar que pedir perdão e receber outra chance eram duas coisas diferentes.

Na semana seguinte, comecei um período de observação em um hospital de São Paulo, sem vínculo definitivo.

Quando coloquei o jaleco novamente, uma sensação que eu havia perdido voltou inteira.

Eu continuava amando aquilo.

Minha carreira não havia terminado.

Ela apenas mudara de endereço.

Na saída, encontrei uma mensagem de Camila.

“Lucas pediu afastamento da chefia por alguns dias. Disse que precisava resolver questões pessoais e familiares. Nada dramático. Só achei que você gostaria de saber.”

Respondi:

“Obrigada. Mas não precisa mais me atualizar sobre ele.”

Demorou menos de um minuto.

“Entendi.”

Apaguei a conversa.

Aquilo foi importante.

Durante semanas, mesmo distante, Lucas ainda ocupava espaço demais na minha rotina por meio das notícias que chegavam.

Eu não queria continuar vivendo como espectadora das consequências dele.

Precisava construir as minhas próximas escolhas.

Naquela noite, abri a agenda de reuniões da família e acrescentei uma anotação no horário de quarta-feira.

Depois abri meu e-mail e respondi ao hospital de São Paulo.

Aceitava iniciar o processo para integrar a equipe cirúrgica em regime parcial.

Negócios da família de um lado.

Medicina do outro.

Duas vidas que, pela primeira vez, eu não tentaria separar.

Ao confirmar o envio, senti uma tranquilidade que não experimentava havia muito tempo.

Lucas estava aprendendo a assumir as próprias escolhas.

Eu também.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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