
Parte 3
Lucas permaneceu parado na porta por alguns segundos, como se esperasse que eu perguntasse qual era o compromisso de sábado.
Não perguntei.
Continuei dobrando minhas roupas.
Uma camiseta, duas calças, um casaco. Cada peça que entrava na mala tornava minha decisão mais concreta. Eu não estava fazendo aquilo para assustá-lo nem para provocar uma reação. Pela primeira vez desde que encontrara a lista, eu apenas executava uma decisão que já havia tomado.
— Você vai viajar? — ele perguntou.
— Vou.
— Para onde?
Fechei uma das divisórias da mala.
— São Paulo.
Lucas franziu a testa.
— Visitar seus pais?
— Sim.
Aquilo não era mentira. Eu apenas não acrescentei que não havia passagem de volta.
Ele entrou no quarto.
— Quanto tempo?
— Ainda não sei.
— Marina.
O modo como pronunciou meu nome carregava aquela autoridade que funcionava tão bem no hospital. Durante muito tempo, eu havia confundido firmeza profissional com segurança emocional.
Naquela noite percebi a diferença.
— O quê?
— Eu estou tentando conversar com você.
— E eu estou respondendo.
— Não está. Você pediu demissão, está arrumando uma mala e decidiu viajar. Tudo isso em menos de dois dias. Alguma coisa aconteceu.
Parei.
Ele estava certo sobre uma parte.
Alguma coisa realmente havia acontecido.
Só que não comigo.
Com ele.
Lucas havia aceitado ficar noivo enquanto ainda voltava para a mesma casa, dormia na mesma cama e falava de futuro comigo.
— Talvez eu só tenha demorado demais para tomar algumas decisões — respondi.
Ele se aproximou.
— Você está com raiva de mim?
A pergunta quase me fez rir.
Não porque fosse engraçada.
Porque era pequena demais para aquilo que havia entre nós.
— Preciso terminar minhas coisas.
Lucas percebeu que eu não continuaria e saiu do quarto.
No dia seguinte, fui cedo ao hospital. Ainda havia prontuários sob minha responsabilidade, orientações a repassar e uma série de pendências administrativas que eu não pretendia abandonar simplesmente porque estava ferida.
Eu podia ter perdido a confiança no homem com quem dividia a vida.
Não perderia meu profissionalismo.
Meus colegas ainda acreditavam que eu havia pedido demissão por algum capricho repentino.
— Você vai mesmo? — perguntou Camila, uma colega da Cirurgia, enquanto conferíamos alguns documentos.
— Vou.
— E o doutor Lucas?
Por um instante, fiquei olhando para ela.
— O que tem ele?
Camila baixou a voz.
— Vocês moram juntos. Ele também vai?
— Não.
Ela entendeu mais do que eu disse.
— Vocês brigaram?
— Não quero falar disso agora.
Ela assentiu e não insistiu.
Aquilo me deixou curiosamente grata. Nos últimos cinco anos, eu havia permitido que grande parte da minha identidade no hospital se confundisse com Lucas.
Marina, a médica da equipe do doutor Lucas.
Marina, a namorada do chefe da Cirurgia.
Marina, a mulher que provavelmente algum dia se casaria com ele.
Sair do hospital significava descobrir quanto de mim ainda existia sem essas definições.
Perto do meio-dia, recebi uma ligação da minha mãe.
Afastei-me do corredor principal para atender.
— Seu pai quer mandar um carro para buscar você no aeroporto.
— Não precisa.
— Marina, você está voltando para casa depois de anos. Deixe seu pai exagerar um pouco.
Sorri pela primeira vez naquele dia.
— Está bem.
Minha mãe fez uma pausa.
— Você contou para ele?
Sabia exatamente a quem ela se referia.
— Ainda não.
— Pretende contar?
Olhei através do vidro para a movimentação do centro cirúrgico.
Lucas estava ao longe conversando com dois médicos.
— Vou contar o necessário.
— Filha, não volte por impulso. Se ainda existe alguma coisa que você precisa resolver, resolva direito.
Minha mãe não sabia exatamente o que acontecera. Eu havia contado apenas que o relacionamento chegara ao fim.
Mesmo assim, entendi o conselho.
Eu não queria fugir de Belo Horizonte.
Queria sair dela sem deixar pedaços meus para trás.
Quando desliguei, Lucas já não estava no corredor.
Encontrei-o vinte minutos depois na antiga sala da equipe.
Ele segurava uma cópia do meu pedido de desligamento.
— Você realmente fez tudo.
— Eu disse que tinha feito.
— Achei que fosse desistir quando esfriasse a cabeça.
— Não estou de cabeça quente.
Lucas apoiou o papel sobre a mesa.
— O diretor já assinou.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Era exatamente o que eu queria.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Marina, você trabalhou cinco anos para construir seu espaço aqui.
— E construí.
— Então por que abandonar tudo?
A pergunta tocou num ponto que eu mesma havia precisado enfrentar.
— Porque sair daqui não apaga o que eu construí.
Lucas ficou quieto.
Eu continuei:
— Meu diploma continua sendo meu. Minha experiência continua sendo minha. As cirurgias de que participei continuam fazendo parte da minha formação. Não preciso permanecer no mesmo hospital para provar que esses anos valeram alguma coisa.
Ele me olhou com uma expressão difícil de decifrar.
— Você fala como se estivesse encerrando uma vida inteira.
— Talvez eu esteja encerrando uma fase.
— E eu faço parte dessa fase?
Aquela foi a primeira pergunta verdadeiramente importante que ele me fez desde que eu encontrara a lista.
Ainda assim, não respondi.
Não ali.
Lucas deu um passo na minha direção.
— Marina, se isso tem a ver comigo, diga.
— Tenho trabalho para terminar.
Saí antes que ele pudesse me impedir.
Naquela tarde, fiz questão de concluir todas as passagens necessárias. Escrevi orientações para os pacientes que seriam acompanhados por outros médicos, entreguei materiais, revisei pendências e deixei meu armário quase vazio.
Não havia cena dramática.
Ninguém chorou.
Ninguém fez discurso.
Era apenas o fim de uma rotina.
Mas, perto das seis da tarde, Camila apareceu com uma sacola de papel.
— O pessoal juntou umas coisas.
Dentro havia um pequeno caderno, chocolates e um cartão cheio de mensagens.
Li apenas duas antes de fechar novamente.
Se continuasse, choraria.
— Obrigada.
Camila me abraçou.
— Você é boa médica, Marina. Não deixa ninguém convencer você do contrário.
A frase me atingiu com uma força inesperada.
Talvez porque Lucas, durante anos, tivesse sido uma das pessoas cuja aprovação mais pesava para mim.
Naquela noite, quando voltei ao apartamento, ele ainda não havia chegado.
Tomei banho, preparei algo simples para comer e continuei empacotando.
Às dez e meia, ouvi a porta.
Lucas entrou e encontrou duas malas grandes perto do sofá.
Dessa vez, não havia mais como fingir que eu estava apenas visitando meus pais.
Ele parou.
Olhou as malas.
Depois olhou para mim.
— O que é isso?
— Minhas coisas.
— Eu estou vendo.
A voz dele ficou baixa.
— Quero saber por quê.
Fechei a caixa que estava organizando.
— Porque vou embora.
Lucas se aproximou lentamente.
— Por quanto tempo?
Olhei diretamente nos olhos dele.
— Lucas, eu não estou viajando.
Sua expressão mudou.
— Então o que você está dizendo?
Respirei fundo.
Eu havia planejado aquela conversa dezenas de vezes desde que encontrara a lista.
Na minha cabeça, sempre havia gritos.
Acusações.
Lágrimas.
Na realidade, minha voz saiu tranquila.
— Estou dizendo que acabou.
Lucas ficou imóvel.
— O quê?
— Nosso relacionamento.
Ele me encarou como se tivesse ouvido alguma coisa em outro idioma.
— Marina, de onde saiu isso?
Dessa vez, eu não desviei.
— Da sua lista de convidados.
A cor desapareceu lentamente do rosto dele.
Não precisei explicar qual lista.
Pelo modo como seus olhos se fixaram nos meus, soube que Lucas havia entendido imediatamente.
E, naquele instante, pela primeira vez desde que descobri o noivado, ele não teve nenhuma resposta pronta.
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