
Parte 6
Quando cheguei ao Hospital São Gabriel, o movimento na entrada principal estava maior que o habitual para um sábado.
Alguns funcionários administrativos haviam aparecido por causa do jantar que o diretor Carvalho ofereceria naquela noite. Embora a cerimônia de noivado estivesse aparentemente ameaçada, quase ninguém sabia disso ainda.
Para o hospital, Lucas continuava sendo o futuro genro do diretor.
Para mim, ele era apenas o homem de quem eu estava me despedindo.
Entrei sozinha.
O motorista permaneceu do lado de fora, conforme eu havia pedido.
Usava uma roupa simples, sem qualquer intenção de transformar minha saída numa exibição. A única diferença visível era o anel-sinete na minha mão direita.
Passei pela recepção e encontrei Camila perto do elevador.
— Você voltou?
— Vim pegar um documento.
Ela percebeu minha mala pequena.
— Vai direto para o aeroporto?
— Sim.
— Então é mesmo adeus.
— É um até logo.
Camila me abraçou.
Quando nos afastamos, seus olhos desceram para minha mão.
— Bonito esse anel.
— É da minha família.
Ela sorriu.
— O tal patrimônio?
— O próprio.
Camila riu, ainda pensando que eu brincava.
Subimos juntas.
No arquivo, retirei o documento que faltava. Depois passei pelo setor de pessoal e entreguei meu crachá.
A funcionária olhou a foto, conferiu meu nome e empurrou o protocolo na minha direção.
— Pronto, doutora Marina Albuquerque.
Peguei a caneta.
— Obrigada.
Eu já havia assinado quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Marina.
Lucas.
Estava de roupa cirúrgica sob o jaleco. Parecia cansado.
Camila percebeu o clima e se afastou discretamente.
Lucas olhou para minha mão.
— Você está indo agora?
— Sim.
— Minha cirurgia terminou antes do previsto.
— Espero que tenha corrido bem.
— Correu.
Ele parecia frustrado com a normalidade da conversa.
— Podemos falar?
Olhei o relógio.
— Cinco minutos.
Fomos até um corredor lateral.
Lucas parou diante de uma janela.
— O jantar ainda vai acontecer.
— Você me disse ontem.
— Mas não haverá noivado.
Esperei.
— Conversei com a filha do diretor Carvalho esta manhã.
Foi a primeira vez que ele mencionou diretamente a mulher que deveria ocupar meu lugar naquela cerimônia.
— Ela sabia de mim? — perguntei.
Lucas demorou.
— Sabia que eu tinha tido um relacionamento.
Meu estômago apertou.
— Tinha tido?
— Foi assim que minha família apresentou.
A raiva voltou, mas dessa vez veio limpa.
— Então enquanto eu ainda morava com você, sua família dizia que nosso relacionamento já havia acabado.
— Eu não autorizei essa versão.
— Você corrigiu?
Silêncio.
Aquilo bastou.
— Entendi.
— Marina…
— Não. Esse era o tipo de resposta que eu precisava.
Lucas respirou fundo.
— Ela descobriu ontem que nós ainda estávamos juntos quando começaram os preparativos.
— E?
— Ficou furiosa.
— Com razão.
Ele me olhou surpreso.
— Você não está com raiva dela?
— Por quê? Ela não tinha compromisso comigo.
Aquilo pareceu incomodá-lo mais do que uma acusação.
— Ela disse que não aceita começar um casamento baseado numa mentira.
— Nesse ponto, concordamos.
Lucas passou a mão pelo rosto.
— Minha mãe acha que tudo isso é culpa sua.
Eu ri, sem humor.
— Claro.
— Eu disse que não era.
— Finalmente.
Ele levantou os olhos.
— Eu estou tentando assumir o que fiz.
— Continue.
— Mas isso realmente não muda nada?
— Muda você. Talvez.
— E nós?
— Nós já mudamos.
Antes que ele respondesse, ouvi movimento no fim do corredor.
O diretor Carvalho vinha acompanhado de duas pessoas da administração.
Ao me ver conversando com Lucas, diminuiu o passo.
Seu rosto permaneceu profissional.
— Doutora Marina.
— Diretor.
Ele assentiu.
— Soube que está deixando o hospital.
— Sim.
— Desejo boa sorte.
— Obrigada.
Não havia razão para transformar aquele homem num inimigo. Até onde eu sabia, ele apenas participara de um arranjo familiar acreditando numa versão incompleta da vida de Lucas.
O diretor seguiu caminho.
Lucas ficou me olhando.
— Você vai embora sem dizer nada para ninguém?
— Já me despedi.
— Quero dizer sobre você.
Eu sabia o que ele queria perguntar.
— Sobre minha família?
— Sim.
— Por que importa agora?
— Porque você disse que havia coisas que eu não sabia.
— E havia.
Lucas esperou.
Eu não pretendia fazer uma revelação teatral.
Mas também já não tinha motivo para mentir.
— Meus pais moram em São Paulo. Estou voltando para assumir responsabilidades na família.
— Que responsabilidades?
Antes que eu respondesse, Camila apareceu no corredor.
— Marina, tem alguém perguntando por você lá embaixo.
— Quem?
Ela parecia confusa.
— Seu pai, eu acho.
Meu coração deu um salto.
— Meu pai veio?
— Acho que sim.
Descemos.
No saguão, percebi imediatamente por que algumas pessoas estavam olhando para a entrada.
Meu pai havia decidido vir pessoalmente.
Não havia comitiva.
Não havia segurança espalhafatosa.
Apenas ele, minha mãe e o motorista.
Mesmo assim, o rosto dele era conhecido em determinados círculos empresariais, e pelo menos dois membros da administração o reconheceram.
Minha mãe foi a primeira a me ver.
— Marina!
Ela atravessou o saguão e me abraçou.
Depois de anos tentando ser apenas mais uma profissional naquele hospital, senti dezenas de olhos sobre nós.
Meu pai sorriu.
— Finalmente decidiu voltar para casa.
— Decidi.
Ele olhou para o crachá que eu ainda carregava na mão.
— Terminou tudo?
— Agora sim.
Um dos administradores se aproximou hesitante.
— Senhor Augusto Albuquerque?
Meu pai virou-se.
— Sim.
O homem estendeu a mão.
— Já nos encontramos em um evento empresarial em São Paulo. Não sabia que a doutora Marina…
Meu pai olhou para mim antes de responder.
— Minha filha sempre fez questão de construir a própria carreira sem usar nosso nome como apresentação.
O silêncio ao redor mudou.
Camila estava alguns passos atrás.
Seus olhos estavam enormes.
— Marina — murmurou. — Você estava falando sério.
Sorri.
— Eu avisei.
Outra colega aproximou-se.
— Você é filha do Augusto Albuquerque?
— Sou.
— A família Albuquerque?
— Sim.
Não senti prazer em observar o choque.
Também não senti vergonha.
Foi apenas estranho perceber quanto esforço eu havia feito para esconder uma parte de mim que, no fim, não diminuía nada do que eu construíra.
Lucas desceu alguns instantes depois.
Parou perto do elevador.
Seus olhos passaram pelo meu pai, por minha mãe e finalmente chegaram até mim.
Eu vi exatamente o momento em que ele compreendeu.
Meu pai percebeu quem ele era.
Nunca o havia encontrado pessoalmente, mas sabia seu nome.
Ele não fez cena.
Apenas estendeu a mão.
— Doutor Lucas.
Lucas apertou a mão dele.
— Senhor Albuquerque.
Minha mãe ficou ao meu lado.
— Então ele é Lucas?
— É.
Não acrescentei nada.
Não precisava.
Camila levou a mão à boca quando percebeu que aquela conversa já estava sendo acompanhada por várias pessoas do hospital.
Meu pai olhou para minha mala.
— Pronta?
— Sim.
Lucas deu um passo.
— Marina.
Virei-me.
Ele parecia diferente de todas as vezes em que discutimos durante aquela semana.
Não havia irritação.
Havia espanto.
— Por que você nunca me contou?
A pergunta ecoou no saguão mais silencioso do que deveria.
Eu poderia ter respondido muitas coisas.
Escolhi a mais simples.
— Porque eu queria saber se você escolheria Marina sem precisar conhecer o peso do sobrenome Albuquerque.
Lucas ficou parado.
Eu segurei a alça da mala.
— Agora eu já sei.
Minha mãe tocou meu braço.
Caminhamos em direção à saída.
Antes de atravessar a porta, olhei uma última vez para trás.
Vários colegas ainda me observavam.
Lucas continuava no mesmo lugar.
Naquele sábado, o Hospital São Gabriel finalmente descobriu quem eu era.
Mas a revelação que realmente importava havia acontecido dentro de mim.
Eu não precisava mais esconder meu tamanho para descobrir se alguém seria capaz de me amar.
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