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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Aceitei sair com Lucas, mas não porque ainda quisesse salvar alguma coisa entre nós. Eu queria apenas observar até onde ele conseguiria manter aquela vida dupla enquanto olhava diretamente para mim. Coloquei a caixa no quarto, troquei de roupa e voltei para a sala.
— Quer jantar onde? — ele perguntou, animado demais para alguém que estava prestes a ficar noivo de outra mulher. Respondi que qualquer lugar servia. Pela primeira vez, o restaurante, a comida e até a companhia pareciam detalhes sem importância.
Durante o caminho, Lucas falou sobre cirurgias, pacientes e uma reunião administrativa que supostamente havia tomado quase toda a semana dele. Eu ouvia sem interromper, percebendo quantas lacunas antes eu preenchia por conta própria. Quando amamos alguém, às vezes fazemos metade do trabalho necessário para acreditar nas explicações dessa pessoa.
No restaurante, ele segurou minha mão por cima da mesa. — Você está diferente desde ontem. Aconteceu alguma coisa no hospital? — Não exatamente. — Brigou com alguém? — Também não. Ele apertou meus dedos e sorriu. — Então para de fazer essa cara. Hoje é nosso dia.
Antes que eu respondesse, o celular dele acendeu sobre a mesa. Lucas olhou a tela e imediatamente virou o aparelho para baixo. O gesto foi tão rápido que talvez eu nem percebesse antes de encontrar aquela lista. Dessa vez, percebi tudo.
— Não vai atender? — perguntei. — Não é importante. — Você nem leu. Lucas pegou o copo. — Marina, eu tirei a tarde para você. Não quero falar de trabalho.
Quase ri. Cinco anos juntos e eu conhecia aquele tom. Era a voz que ele usava quando queria encerrar um assunto sem parecer rude. Antes, eu respeitava o limite; agora, sabia que parte daquele silêncio servia para manter duas vidas separadas.
Poucos minutos depois, o telefone tocou novamente. Lucas respirou fundo. — Desculpa. Preciso atender. Ele se afastou alguns metros, mas não o suficiente para impedir que algumas palavras chegassem até mim: “sábado”, “minha mãe”, “o horário já está confirmado”.
Quando voltou, eu estava cortando calmamente um pedaço de comida. — Era o hospital? — perguntei. Lucas demorou um instante antes de responder. — Era. Um assunto administrativo. Assenti sem discutir. A mentira doeu menos do que eu imaginava, talvez porque já não houvesse nada para quebrar.
No caminho de volta, fiz uma pergunta que pareceu surpreendê-lo. — Lucas, se um dia eu decidisse ir embora de Belo Horizonte, o que você faria? Ele olhou para mim antes de voltar os olhos para a avenida. — Por que você iria embora? — É só uma pergunta. — Eu iria buscar você, obviamente.
— Mesmo se você tivesse outras obrigações? — insisti. Ele soltou uma risada curta. — Que tipo de obrigação seria mais importante do que você? Virei o rosto para a janela para que ele não percebesse meu sorriso sem humor.
Quando chegamos ao apartamento, Lucas encontrou sobre a mesa uma pasta que eu havia trazido do hospital. Meu comprovante de desligamento estava parcialmente visível. Ele puxou o papel e leu as primeiras linhas. A expressão dele mudou na mesma hora.
— Você pediu demissão? — perguntou. Não respondi imediatamente. Lucas levantou os olhos. — Marina, isso não é férias. Você saiu do hospital.
— Sim. — Sem falar comigo? — O emprego é meu. — Eu sou seu chefe. — Era meu chefe.
O rosto dele endureceu. — Você está agindo de maneira impulsiva. Se estava cansada, eu poderia diminuir sua carga por algumas semanas. Se alguém fez alguma coisa, eu resolveria. — Não foi ninguém do hospital. — Então por quê? — Porque eu decidi que era hora de seguir outro caminho.
A irritação dele deu lugar a algo parecido com preocupação. — Você tem outro emprego? — Tenho planos. — Que planos? — Meus. Lucas me encarou como se fosse a primeira vez que percebia que havia uma parte da minha vida à qual ele não tinha acesso.
Mais tarde, enquanto eu dobrava roupas no quarto, ele apareceu na porta. — No sábado eu tenho um compromisso com a minha família — disse, evitando meu olhar. — Provavelmente vou passar o dia fora. Não espere por mim. Fechei a mala devagar. — Pode ficar tranquilo, Lucas. Eu não vou esperar.

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