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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Um mês depois de deixar Belo Horizonte, minha vida já tinha uma rotina que eu não imaginara possível.

Três dias por semana eu acompanhava assuntos da família.

Nos outros, estava no hospital.

Não era simples.

Algumas noites terminavam com relatórios abertos na mesa da cozinha e artigos médicos espalhados ao lado.

Mas eu gostava.

Pela primeira vez, não sentia que precisava escolher qual versão de mim merecia existir.

Meu pai levou algum tempo para aceitar que sua herdeira continuaria entrando em centro cirúrgico.

Depois passou a contar isso como se fosse motivo de orgulho.

— Minha filha trabalha mais do que eu — dizia.

— Porque você marca reunião demais — eu respondia.

A relação com meus pais se tornou mais leve conforme deixei de enxergar minha volta como uma derrota.

Eu não havia fracassado em Belo Horizonte.

Eu havia vivido.

Aprendido.

Amado.

Errado.

E finalmente escolhido sair quando permanecer passou a significar trair a mim mesma.

Lucas respeitou a distância por quase três semanas.

Não telefonou.

Não apareceu.

Não enviou discursos.

Até que recebi uma mensagem curta.

“Vou estar em São Paulo na próxima quinta por causa de um congresso. Se você estiver confortável, gostaria de conversar pessoalmente uma última vez. Se disser não, vou respeitar.”

Li várias vezes.

Depois mostrei à minha mãe.

— O que você acha?

Ela colocou o celular de volta na mesa.

— Acho que ele aprendeu a pedir.

— Isso não responde.

— Porque não sou eu que quero ou não vê-lo.

Revirei os olhos.

— Você está insuportavelmente coerente.

Ela sorriu.

Passei dois dias pensando.

No fim, respondi.

“Uma conversa. Em local público. Quinta, às 18h.”

Lucas concordou.

Escolhi uma cafeteria tranquila perto do hospital onde eu trabalhava.

Cheguei alguns minutos antes.

Ele apareceu exatamente às seis.

Parecia mais magro.

Não dramaticamente.

Apenas cansado.

— Oi.

— Oi.

Sentou-se diante de mim.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Lucas foi o primeiro.

— Não vim pedir para você voltar.

— Você já disse isso no telefone.

— Estou repetindo porque preciso que você saiba que não vou transformar essa conversa numa negociação.

Assenti.

— Então fale.

Ele apoiou as mãos sobre a mesa.

— O noivado foi encerrado definitivamente.

Não respondi.

— Não por sua causa — acrescentou rapidamente. — Quer dizer, toda a situação começou porque eu menti, mas a decisão final foi dela e minha. Conversamos com nossas famílias separadamente.

— Entendi.

— Minha mãe tentou culpar você de novo.

— Imagino.

— Dessa vez eu não deixei.

Olhei para ele.

— Lucas, você não precisa me entregar um relatório das vezes em que fez o mínimo correto.

Ele abaixou a cabeça.

— Tem razão.

A resposta imediata me surpreendeu.

Ele respirou e continuou.

— Eu também disse aos meus pais que eles estavam errados sobre você antes de saber quem era sua família.

— Como assim?

— Minha mãe mudou completamente o discurso depois que descobriu que você era uma Albuquerque.

A frase me causou nojo, mas não surpresa.

— De repente você deixou de ser “inadequada”.

Soltei uma risada seca.

— Conveniente.

— Foi exatamente quando eu percebi uma coisa que deveria ter percebido anos atrás.

Esperei.

— Se o valor que eles davam a você mudava quando descobriam seu patrimônio, então nunca foi você o problema.

Fiquei quieta.

Lucas continuou:

— E eu aceitei a lógica deles. Talvez não com as mesmas palavras, mas aceitei.

Aquilo era mais difícil de ouvir do que uma desculpa comum.

Porque era específico.

— Você tinha vergonha de mim? — perguntei.

Ele levantou os olhos imediatamente.

— Não.

— Então o quê?

Lucas demorou.

— Eu tinha medo de enfrentar minha família por alguém que eles consideravam socialmente abaixo de nós.

A frase caiu entre nós.

Cruel.

Humilhante.

Honesta.

Lucas não tentou suavizar.

— Essa é a verdade — disse. — E sei como soa.

— Soa exatamente como foi.

— Sim.

Meu peito apertou.

Por estranho que parecesse, aquela confissão doeu mais do que descobrir que ele ficaria noivo.

Ali estava a raiz.

Não era falta de amor.

Era covardia alimentada por preconceito.

— Quando descobri sua família — Lucas continuou — meu primeiro pensamento foi que tudo teria sido diferente se eu soubesse.

— Eu percebi.

— Depois entendi como esse pensamento era horrível.

Fiquei olhando para ele.

— Porque significava que você teria me escolhido se meu sobrenome tivesse valor suficiente.

— Sim.

Lucas engoliu em seco.

— E isso me fez perceber que, mesmo dizendo que amava você, eu ainda deixei o olhar da minha família definir quanto risco eu estava disposto a correr por nós.

Nenhum de nós falou durante alguns instantes.

— Por que está me dizendo isso? — perguntei.

— Porque eu passei semanas querendo explicar o que fiz de um jeito que me deixasse menos culpado.

Ele respirou.

— Pressão familiar. Tradição. Carreira. Medo de conflito. Tudo verdade. Mas nenhuma dessas coisas assinou meu nome por mim.

Eu não sentia prazer em vê-lo admitir.

Sentia tristeza.

Talvez aquela fosse a versão de Lucas que eu gostaria que tivesse existido meses antes.

— Eu sinto muito — ele disse. — Não pelo noivado ter fracassado. Não porque você foi embora. Eu sinto muito pelo que fiz enquanto acreditava que poderia manter você perto sem lhe dar a verdade.

Meus olhos arderam.

— Eu amei você de verdade.

— Eu sei.

— E parte de mim ainda ama.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu sei.

— Isso não significa que eu consiga confiar outra vez.

— Eu sei.

Foi a resposta mais difícil.

Lucas não pediu exceção.

Não disse que mudaria.

Não prometeu que o amor resolveria.

Apenas aceitou.

— Eu não vim para mudar sua decisão — disse. — Vim porque você merecia ouvir uma verdade inteira de mim pelo menos uma vez.

Limpei discretamente uma lágrima.

— Obrigada.

Ele assentiu.

Conversamos por mais alguns minutos sobre assuntos simples.

O hospital.

Alguns colegas.

Um paciente antigo que finalmente recebera alta.

Era estranho perceber que ainda conseguíamos falar como duas pessoas que haviam compartilhado grande parte da vida.

Quando nos levantamos, Lucas hesitou.

— Posso abraçar você?

Pensei.

Depois assenti.

O abraço foi breve.

Sem promessa.

Sem tentativa de recomeço.

Apenas despedida.

Quando nos afastamos, ele falou:

— Espero que você seja feliz, Marina.

— Eu também espero que você aprenda a viver sem deixar os outros escolherem por você.

Ele sorriu, triste.

— Estou tentando.

Lucas foi embora.

Fiquei alguns minutos sozinha na calçada.

Meu coração doía, mas não havia dúvida.

Aquilo não reabria nossa história.

Fechava uma parte dela do jeito que eu precisava.

Na manhã seguinte, encontrei meu pai no escritório.

Ele colocou um documento diante de mim.

— Preciso de sua assinatura.

Peguei a caneta.

— Finalmente confiando em mim?

— Infelizmente.

Ri.

Assinei.

Meu pai observou meu rosto.

— Você encontrou ele ontem?

— Encontrei.

— E?

Fechei a pasta.

— Terminamos de verdade.

Não havia raiva naquela frase.

Nem esperança escondida.

Apenas certeza.

Meu pai assentiu.

— Então vamos trabalhar.

Olhei pela janela para São Paulo despertando abaixo de nós.

No celular, havia uma mensagem do hospital confirmando minha primeira escala oficial para a semana seguinte.

Na mesa, havia projetos da família aguardando minha decisão.

As duas partes da minha vida finalmente estavam diante de mim.

E nenhuma dependia mais de Lucas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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