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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

A atendente me entregou um bilhete no banco: “Não saia daqui” — então mostrou a foto do meu pai morto há 18 anos

Parte 1

— Não saia do banco. Vá até a saída de emergência ao lado do banheiro e espere por mim.

Foi a única frase escrita no pequeno pedaço de papel que a atendente havia escondido debaixo do meu cartão.

Eu tinha ido à agência naquela tarde para fazer uma transferência comum. O salão estava cheio, peguei uma senha e esperei num canto por pouco mais de dez minutos até meu número aparecer no painel.

Entreguei meu documento e o cartão à jovem do caixa. Ela parecia ter pouco mais de vinte anos, recebeu tudo com educação e começou a digitar.

Até ali, nada me chamou a atenção.

Então, de repente, ela ergueu os olhos.

Olhou diretamente para mim.

Não foi um olhar de curiosidade. Parecia o olhar de alguém que acabara de confirmar uma suspeita.

Antes que eu perguntasse qualquer coisa, ela tornou a baixar a cabeça e continuou trabalhando como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, devolveu meu cartão.

Quando estendi a mão para pegá-lo, senti o papel por baixo.

Li a mensagem.

Meu corpo ficou imóvel.

Levantei os olhos, mas a atendente já chamava a próxima senha. O rosto dela estava absolutamente normal.

Fiquei ali por alguns segundos, tentando decidir se aquilo era uma brincadeira, um engano ou um aviso real.

No fim, guardei o bilhete e obedeci.

A saída de emergência ficava num corredor lateral, perto dos banheiros. O lugar era silencioso, iluminado por uma lâmpada que piscava de tempos em tempos. Havia apenas uma câmera de segurança presa perto do teto.

Pouco depois, a atendente apareceu.

Quando ouvi a primeira pergunta que ela me fez, demorei a entender.

— Carlos Viana é seu pai?

Meu pensamento pareceu parar.

— É. Quer dizer… era.

Respirei fundo.

— Meu pai morreu há dezoito anos.

O rosto da jovem perdeu a cor.

Ela lançou um olhar rápido para a câmera no fim do corredor e me puxou para um ponto menos exposto, ao lado da porta corta-fogo.

— Isso não pode ser verdade.

A voz dela mal passava de um sussurro.

— Porque ele esteve nesta agência hoje de manhã.

Meu coração bateu tão forte que senti a pulsação na garganta.

— Você confundiu a pessoa.

— Não confundi.

Ela tirou o celular do bolso e abriu uma fotografia feita às pressas através do vidro de um dos caixas.

Um homem de pouco mais de cinquenta anos aparecia de perfil.

Os cabelos estavam grisalhos. Havia rugas novas ao redor dos olhos. Mas o nariz alto e, principalmente, a cicatriz em forma de meia-lua junto à orelha continuavam exatamente como eu lembrava.

Quase deixei o celular cair.

Não existia possibilidade de engano.

Aquele homem era meu pai.

Carlos Viana.

O homem cuja morte havia sido oficialmente confirmada depois do incêndio num galpão, dezoito anos antes.

Na época, o corpo encontrado estava tão carbonizado que mal podia ser reconhecido. O relógio no pulso e o resultado da perícia confirmaram a identidade.

Eu passara três dias diante da fotografia dele no velório, chorando até perder as forças.

Minha mãe também morrera naquele incêndio.

Durante dezoito anos, eu aprendera a viver como órfã.

E agora meu pai aparecia numa fotografia tirada naquela mesma manhã.

— O que ele veio fazer aqui?

A jovem apertou o celular na mão.

— Tentou abrir o cofre de segurança número 317.

— Que cofre?

— Está no nome da sua mãe, Vera Duarte.

Minha respiração ficou presa.

— Minha mãe morreu no mesmo incêndio.

— Eu sei.

Ela me observou com uma mistura de preocupação e cautela.

— O problema é que o homem que se apresentou como seu pai trouxe uma procuração em seu nome. Segundo o documento, você autorizava a abertura do cofre e a transferência de tudo que estivesse lá dentro para outra conta.

— Eu nunca assinei procuração nenhuma.

— Foi o que imaginei.

Ela respirou fundo.

— A assinatura é muito parecida com a que você acabou de fazer no caixa. Mas a impressão digital anexada ao documento não confere com a sua.

Foi naquele momento que me lembrei da transferência que acabara de solicitar.

Naquela manhã, meu marido, Marcelo Costa, havia me passado os dados de uma conta. Disse que eu precisava transferir R$ 1,9 milhão das nossas economias para garantir a entrada de uma casa que pretendíamos comprar.

Segundo ele, o proprietário estava com pressa e poderia fechar com outra pessoa caso o dinheiro não fosse enviado naquele mesmo dia.

Eu não suspeitara de nada.

Marcelo era meu marido.

Por que eu suspeitaria?

Mas diante daquela fotografia, uma ideia terrível começou a tomar forma.

— A conta para a qual acabei de transferir o dinheiro tem alguma ligação com Carlos Viana?

A jovem assentiu lentamente.

— O beneficiário é a Viana Costa Participações. O representante legal da empresa foi alterado três dias atrás.

Ela fez uma pausa.

— O novo representante é Carlos Viana.

Senti um frio atravessar minhas costas.

Viana.

Costa.

O sobrenome do meu pai e o do meu marido reunidos no nome da mesma empresa.

Tive de apoiar a mão na parede.

— Quem é você? Por que está me contando tudo isso?

Ela hesitou antes de tirar uma fotografia antiga do bolso do uniforme.

Na imagem, meu pai estava ao lado de um homem mais jovem vestido com um uniforme bancário.

No verso, havia dois nomes escritos à mão:

Carlos Viana.

Otávio Xavier.

— O homem ao lado do seu pai era meu pai.

Ela guardou a fotografia com cuidado.

— Meu nome é Clara Xavier.

Continuei olhando para ela sem conseguir dizer nada.

— Há dezoito anos, meu pai participou da auditoria de um fundo de investimentos criado pela sua mãe. Uma semana depois do incêndio, ele desapareceu.

Minha boca ficou seca.

Clara continuou:

— Antes de desaparecer, deixou uma única orientação para a minha família.

Se algum dia Carlos Viana aparecesse de novo, ninguém deveria permitir que a filha de Vera Duarte saísse de um banco sozinha.

Antes que eu conseguisse perguntar por quê, meu celular começou a tocar.

Marcelo.

Clara imediatamente fez um gesto para que eu não demonstrasse nada.

Atendi.

— Alô?

A voz do meu marido veio tranquila, quase carinhosa.

— Ana, terminou a transferência?

Meu nome era Ana Viana quando eu era criança.

Depois do incêndio, minha tia materna providenciou a mudança do meu sobrenome para Lima, o sobrenome da família com quem passei a viver. Dizia que eu precisava me afastar daquele passado e recomeçar.

Havia dezoito anos que quase ninguém me chamava de Ana Viana.

— O banco está fazendo algumas verificações — respondi, tentando manter a voz firme. — Acho que vai demorar um pouco.

Houve dois segundos de silêncio.

— Verificações de quê?

— Disseram que, por ser um valor alto, precisa passar por aprovação.

— Coloca a atendente no telefone. Eu falo com ela.

Olhei para Clara.

Ela balançou a cabeça e apontou para a porta do corredor.

— Estou no banheiro.

— Então volta para o caixa.

A voz de Marcelo continuava baixa.

— Estou aqui na frente. Depois ainda precisamos encontrar o proprietário da casa.

Apertei o celular.

— Você está no banco?

— Acabei de chegar.

— Por que não avisou?

Ele deu uma risadinha.

— Vim buscar minha esposa. Agora preciso avisar antes?

Era a mesma voz gentil que eu conhecia.

Mas, pela primeira vez, percebi algo que antes parecia invisível.

Debaixo da gentileza havia uma ordem.

E aquela ordem não aceitava uma resposta diferente da que ele esperava.

— Já estou indo.

Desliguei.

Clara abriu no aparelho interno a transmissão das câmeras do salão.

Marcelo estava perto da entrada.

Usava o terno cinza que eu lhe dera no nosso aniversário de casamento e segurava um guarda-chuva preto. Para qualquer pessoa, parecia apenas um marido atencioso esperando a esposa.

Só que o carro dele estava parado quase em frente à escadaria.

Dois homens desconhecidos permaneciam ao lado do veículo.

Um consultava o relógio repetidamente.

O outro mantinha a mão dentro do bolso do casaco.

— Eles chegaram há uns dez minutos — murmurou Clara. — O gerente orientou os seguranças a não criar problema com eles.

— O gerente está envolvido?

— Não sei.

— E a polícia?

— Apertei o botão de emergência assim que reconheci o nome Carlos Viana. O sistema acusou falha de comunicação.

Ela olhou outra vez para a câmera.

— Alguém bloqueou a conexão interna.

Peguei meu celular e tentei ligar para a polícia.

Sem sinal.

Clara tentou o dela.

Nada.

Aquele corredor parecia isolado do resto do mundo.

— Vamos voltar para o salão — eu disse. — Tem muita gente. Eles não vão fazer nada na frente de todo mundo.

Clara segurou meu braço.

— Não tenho tanta certeza.

Ela olhou o relógio.

— Seu pai não conseguiu abrir o cofre de manhã porque a agência exigiu uma verificação complementar. O gerente marcou o retorno para as quatro da tarde.

— Que horas são?

Clara virou a tela para mim.

Faltavam três minutos.

Foi então que ouvimos passos vindo da outra ponta do corredor.

Passos lentos.

Pesados.

Um homem usando uniforme de segurança apareceu.

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