
Parte 8
A informação sobre a suspensão mudou a forma como eu enxergava os últimos dias da minha mãe.
Até então, eu imaginava Vera cercada por dúvidas.
Agora havia um ato concreto.
Ela não apenas desconfiara.
Tinha começado a agir.
Pedi ao perito que explicasse o documento em linguagem simples.
— Sua mãe enviou uma solicitação para restringir temporariamente os poderes operacionais de Carlos dentro do fundo — respondeu. — Isso não prova que ela o acusasse de crime. Mas mostra que não queria novas movimentações até revisar as anteriores.
Olhei para Mariana.
— Então ele sabia que estava perdendo acesso.
— Precisamos descobrir quando foi comunicado — ela respondeu.
Essa distinção evitava uma conclusão precipitada.
Se Carlos nem sequer soubesse do pedido antes do incêndio, a informação não poderia ser usada para presumir um motivo.
A investigação buscou os registros disponíveis.
Dois dias depois, confirmou-se que ele havia recebido uma comunicação preliminar na tarde anterior ao incêndio.
Meu estômago se apertou quando ouvi.
Ainda assim, continuei repetindo para mim mesma:
Motivo possível não é prova de incêndio provocado.
Carlos podia ter cometido irregularidades financeiras e, mesmo assim, o incêndio ter outra origem.
Eu já havia aprendido o perigo de preencher lacunas com aquilo que parecia mais dramático.
Foi nesse período que Marcelo prestou um segundo depoimento.
Dessa vez, decidiu detalhar como começara a relação com Carlos.
Cinco meses antes, recebera uma mensagem profissional de um homem que dizia ter informações sobre minha família. Marcou um encontro, mostrou fotografias antigas e documentos suficientes para convencê-lo de que era realmente meu pai.
Marcelo afirmou que quis me contar naquele mesmo dia.
Mas Carlos o impediu.
Disse que havia questões financeiras antigas e que revelar sua existência antes de recuperar determinados documentos poderia destruir qualquer chance de esclarecer o passado.
Marcelo aceitou.
Depois vieram os encontros.
As promessas.
A empresa.
A dívida dele.
E, por fim, o plano do cofre.
Segundo Marcelo, Carlos dizia que eu teria direito ao conteúdo de qualquer forma e que a procuração servia apenas para acelerar um procedimento burocrático.
— Você acreditou que ela havia assinado? — perguntaram.
Marcelo respondeu que, no começo, sim.
Mas admitiu que, na manhã da tentativa de abertura, já suspeitava que eu não sabia de nada.
Foi uma frase pequena.
Suficiente.
Não significava que ele falsificara o documento.
Mas destruía a última versão em que aparecia apenas como alguém enganado.
Ele escolhera continuar.
A origem material da procuração ainda estava sendo investigada.
Eu não transformei essa lacuna em história.
Não precisava.
Marcelo já assumira responsabilidade suficiente pelas próprias decisões.
Quanto a Carlos, as coisas começaram a se estreitar.
Os registros societários da Viana Costa Participações mostraram que a empresa fora estruturada com participação administrativa de Marcelo e representação de Carlos.
A transferência que eu faria seria uma das primeiras entradas relevantes de recursos.
Não havia compra de imóvel vinculada.
Nenhum contrato de aquisição de casa.
Nenhuma negociação com proprietário.
A história que Marcelo me contara naquela manhã era completamente falsa.
Quando recebi essa confirmação, não chorei.
Abri o aplicativo do banco, olhei para o dinheiro que continuava na minha conta e pensei em como estive perto de entregá-lo por confiança.
Depois fechei o aplicativo.
Já não queria medir a traição pelo valor que quase perdi.
A maior perda tinha sido outra.
Clara, enquanto isso, acompanhava a reabertura do caso do pai dela por meio da mãe.
A polícia localizara registros antigos que indicavam que Otávio realmente havia feito contatos com colegas depois do incêndio.
Um deles relatara, na época, que o auditor estava assustado e dizia ter sido pressionado a interromper o trabalho.
O registro existia num depoimento arquivado, mas nunca levara a uma conclusão sobre o desaparecimento.
Quando Clara me contou, perguntei:
— Seu pai citou Carlos?
— Não no documento que me mostraram.
Aquilo era importante.
— Então não vamos dizer que citou.
Ela me deu um sorriso triste.
— Acho que nossos pais deixaram problemas suficientes. Não precisamos inventar outros.
Foi a primeira vez que sorrimos juntas.
A análise dos documentos do cofre avançou.
Não havia uma única pasta capaz de resolver tudo.
Havia dezenas de pequenas peças.
Movimentações.
E-mails impressos.
Solicitações internas.
Cópias de contratos.
Anotações de Vera.
Quando sobrepostas, elas mostravam um padrão de tentativas de cobrir perdas financeiras com transferências internas e operações temporárias.
Carlos havia começado admitindo “decisões erradas”.
Agora, a extensão dessas decisões estava sendo quantificada.
Parte do dinheiro retornara às carteiras originais.
Parte não.
Os valores seriam objeto de apuração própria.
O que me interessava mais era compreender minha mãe.
Em suas anotações, ela parecia menos preocupada em punir meu pai do que em impedir que o fundo afundasse.
Isso doeu.
Vera tentara consertar uma situação criada pelo homem com quem dividia a vida.
Dezoito anos depois, eu havia começado a fazer algo parecido com Marcelo.
A diferença era que eu ainda tinha a chance de parar.
Na semana seguinte, minha separação avançou.
Marcelo concordou em deixar a casa que ocupávamos até que definíssemos formalmente a partilha e as responsabilidades. O acordo provisório foi feito sem espetáculo.
Quando fui buscar roupas e objetos pessoais, encontrei nosso porta-retratos de casamento sobre a estante.
Fiquei parada diante dele.
Não quebrei.
Não rasguei.
Coloquei numa caixa.
Algumas histórias terminam sem que seja necessário destruir as fotografias que provaram que um dia existiram.
Antes de sair, Marcelo apareceu na porta da sala.
— Posso falar uma coisa?
— Se for sobre o processo, fale com Mariana.
— Não é.
Esperei.
— Carlos me procurou de novo.
Meu corpo ficou alerta.
— Quando?
— Ontem.
— O que ele queria?
— Que eu mudasse meu depoimento.
— Como?
— Que eu dissesse que a empresa e a procuração foram ideias minhas.
A frase caiu pesada.
— Ele ofereceu alguma coisa?
— Não. Disse que, se eu assumisse a responsabilidade, me ajudaria com minhas dívidas depois.
Pensei por um instante.
— Você registrou isso?
— Não.
— Então conte formalmente. Não para mim.
Marcelo assentiu.
— Vou contar.
Passei por ele.
— Ana.
Parei.
— Eu sei que isso não conserta nada.
— Não conserta.
— Mas vou parar de esconder.
Olhei para ele.
— Faça isso por você.
Saí.
Naquela noite, Carlos me ligou.
Atendi pela primeira vez.
— Você falou com Marcelo — ele disse.
Não era uma pergunta.
— Se tiver algo a dizer, diga.
— Ele está tentando jogar tudo em cima de mim.
— E você está tentando jogar tudo em cima dele?
Silêncio.
— Ana, você não entende com quem está lidando.
A frase quase me fez rir.
— Essa é a segunda vez que alguém tenta me dizer que eu não entendo minha própria vida.
— Marcelo quer se salvar.
— E você?
Do outro lado, ele respirou fundo.
— Também.
Foi a resposta mais sincera que meu pai me dera.
Antes que ele continuasse, eu disse:
— Então pare de me procurar como filha quando o que você quer é me usar como saída.
Desliguei.
Na manhã seguinte, fui informada de que Carlos seria novamente ouvido, agora confrontado com os registros financeiros, a tentativa de acesso ao cofre e as novas declarações de Marcelo.
O passado finalmente começava a se encontrar com o presente.
E, dessa vez, eu não estava no meio tentando salvar ninguém.
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