
Parte 5
Eu já desconfiava.
Mesmo assim, ouvir a confirmação produziu uma sensação diferente.
Suspeitar ainda deixava espaço para justificativas. Ver uma sequência de fatos se encaixando retirava esse conforto.
Mariana pediu que Clara não mostrasse imagens nem detalhes protegidos fora do procedimento formal. Limitou-se a perguntar se aquela informação seria incluída no relatório interno.
— Sim — respondeu Clara. — As imagens serão preservadas.
Saí do banco sem ligar para Marcelo.
Eu poderia ter telefonado naquele instante, gritado, exigido respostas e lhe dado oportunidade de preparar novas explicações.
Preferi não fazer isso.
Naquela manhã, formalizamos um pedido para que as imagens fossem preservadas para eventual requisição policial ou judicial. Também acrescentei ao boletim a informação de que meu marido estivera com meu pai durante a tentativa de acesso ao cofre.
Depois fui trabalhar.
Parecia absurdo sentar diante do computador enquanto minha vida pessoal se desmontava, mas a rotina me fez bem. Pela primeira vez em dois dias, fiquei três horas pensando em algo que não fosse Carlos, Marcelo ou um incêndio de dezoito anos atrás.
No fim da tarde, encontrei três mensagens de Marcelo.
“Precisamos conversar.”
“Você está entendendo tudo errado.”
“Eu fui ao banco com ele, mas não sabia que a procuração era falsa.”
A terceira mensagem me fez parar.
Marcelo acabara de admitir por escrito algo que, até então, evitava responder diretamente.
Não era prova de participação na falsificação.
Mas estabelecia que ele estivera lá.
Encaminhei a mensagem para Mariana e guardei uma cópia.
Não respondi.
Pouco depois, chegou uma mensagem de um número que eu ainda não havia salvo.
“Sou Carlos. Quero conversar com você. Em local público. Você escolhe. Não vou pedir que vá sozinha.”
Fiquei olhando para a tela.
Durante dezoito anos, eu imaginara centenas de conversas impossíveis com meu pai.
Nenhuma começava assim.
Pedi orientação a Mariana. Ela deixou claro que eu não era obrigada a encontrá-lo. Se decidisse ir, recomendava um lugar público, durante o dia, e que alguém soubesse onde eu estaria.
Eu quis ir.
Não porque confiasse nele.
Porque algumas perguntas só poderiam ser feitas ao homem que havia escolhido ficar morto para mim durante quase duas décadas.
Marcamos numa cafeteria movimentada próxima ao escritório de Mariana. A advogada ficou numa mesa distante, não para conduzir a conversa, mas para que eu não estivesse isolada.
Carlos chegou sozinho.
Quando se sentou diante de mim, os anos entre nós pareceram ocupar uma terceira cadeira.
— Você se parece com sua mãe — disse.
— Não comece por aí.
Ele assentiu.
— Justo.
Coloquei as mãos sobre a mesa.
— Por que eu passei dezoito anos acreditando que você estava morto?
Carlos demorou a responder.
— Porque depois do incêndio eu percebi que continuar oficialmente morto me dava tempo.
— Tempo para quê?
— Para desaparecer.
— Isso não responde.
— É a resposta que eu posso dar agora.
Inclinei-me.
— O senhor não tem mais o direito de decidir quando eu estou pronta para ouvir.
Ele fechou os olhos.
— Havia problemas no fundo da sua mãe.
— Problemas causados por você?
A pergunta o atingiu.
— Eu tomei decisões erradas.
— Que tipo de decisões?
— Movimentei dinheiro sem autorização suficiente. Tentei cobrir perdas usando recursos de outras operações. Achei que conseguiria recompor.
Minha garganta secou.
— Minha mãe descobriu?
— Começou a descobrir.
— E Otávio Xavier?
O rosto dele endureceu.
— Estava auditando as contas.
— Uma semana depois do incêndio, ele desapareceu.
Carlos baixou os olhos.
— Eu sei.
— O senhor fez alguma coisa com ele?
— Não.
— Ameaçou?
Ele demorou demais.
— Eu tentei convencê-lo a não levar algumas informações adiante até eu corrigir as contas.
— Isso não foi o que perguntei.
Carlos segurou a xícara sem beber.
— Houve pressão.
— De quem?
— Minha e de outras pessoas ligadas aos negócios.
A palavra “outras” me incomodou, mas eu não a transformei em conspiração.
— O senhor sabe o que aconteceu com Otávio?
— Não.
Eu o observei.
— Clara acredita que o desaparecimento dele tem relação com você.
— Eu não posso impedir.
— Pode contar a verdade.
Ele respirou fundo.
— A última vez que vi Otávio foi dois dias depois do incêndio.
— Você estava vivo e encontrou o auditor que sabia das irregularidades.
— Sim.
— E sete dias depois ele desapareceu.
Carlos sustentou meu olhar.
— Eu não matei Otávio.
Não era uma resposta completa.
Mas eu percebi que não conseguiria arrancar mais naquele momento.
— Minha mãe morreu no incêndio?
A expressão dele mudou de imediato.
— Sim.
— Tem certeza?
— Tenho.
A primeira lágrima apareceu nos olhos dele, mas eu não senti vontade de consolá-lo.
— Você estava lá?
— Eu saí do galpão antes que o fogo tomasse tudo.
— E deixou que acreditassem que o corpo era seu.
— Quando percebi a confusão, aproveitei.
— Aproveitou a morte de outra pessoa para abandonar a própria filha.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu estava com medo.
— Eu tinha doze anos.
Nenhuma resposta seria suficiente para aquela frase.
Deixei alguns segundos passarem.
— Por que voltou agora?
Carlos esfregou o polegar na borda da xícara.
— Porque descobri que o cofre da sua mãe ainda existia.
— O que tem dentro?
— Eu não sei exatamente.
— Então por que quer abrir?
Ele me encarou.
— Porque Vera guardava documentos importantes fora do escritório. Depois que começou a desconfiar das contas, passou a tirar cópias de algumas coisas.
— Documentos sobre você.
— Provavelmente.
— Então sua urgência não é recuperar um patrimônio. É descobrir o que ela deixou registrado.
Carlos não negou.
Minha respiração ficou mais lenta.
Finalmente a imagem fazia sentido.
O homem que retornara à agência não era um pai em busca da filha.
Era um homem em busca de documentos que poderiam alcançá-lo dezoito anos depois.
— E Marcelo?
Carlos se inclinou.
— Ele me procurou depois que descobriu quem eu era.
— Como?
— Isso você deve perguntar a ele.
— Você prometeu dinheiro?
Silêncio.
— Prometeu?
— Disse que, se ele me ajudasse a regularizar algumas coisas, eu compensaria o trabalho.
Senti náusea.
— Meu marido vendeu meu silêncio por uma compensação?
— Não foi assim.
— O senhor não sabe nada sobre meu casamento.
Levantei.
Carlos também se levantou.
— Ana.
— Não.
Ele parou.
— Ainda existe uma coisa que você precisa saber.
Fiquei imóvel.
— Não vou contar pela metade — disse ele. — Você tem razão nisso.
Esperei.
Carlos respirou fundo.
— Eu não sabia que Marcelo usaria uma procuração falsa.
— Mas sabia que não havia autorização minha.
Dessa vez, ele não tentou escapar.
— Sabia.
A resposta foi suficiente.
Voltei para a mesa de Mariana e saí sem olhar para trás.
Na manhã seguinte, minha decisão estava tomada.
Não sobre meu pai.
Nem sobre o cofre.
Sobre meu casamento.
Eu não precisava esperar toda a investigação terminar para reconhecer que Marcelo havia atravessado um limite que não dependia de perícia nenhuma.
Pedi a Mariana que me orientasse sobre a separação e a proteção do meu patrimônio enquanto tudo fosse apurado.
Horas depois, quando Marcelo recebeu a comunicação de que eu havia iniciado o processo, ele apareceu na porta da casa da minha tia.
Dessa vez, eu não me escondi.
Saí até o portão.
Ele segurava o celular na mão.
— Você está pedindo o divórcio por causa de uma coisa que nem terminou de entender?
Olhei para ele.
— Não.
Abri o portão apenas o suficiente para que ele ouvisse com clareza.
— Estou pedindo porque finalmente entendi o suficiente.
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