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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

 

Parte 7

Na manhã marcada para a abertura do cofre, acordei antes do despertador.

Não senti ansiedade pelo que poderia encontrar.

Senti medo do que aquilo mudaria.

Durante dezoito anos, minha mãe existira para mim como uma fotografia congelada no tempo. Eu conhecia a voz dela nas minhas lembranças, o perfume, a maneira como prendia o cabelo antes de trabalhar.

Mas eu nunca conhecera a mulher que administrava um fundo de investimentos, discutia com meu pai sobre contas e possivelmente guardava documentos num cofre secreto.

Eu estava prestes a conhecer uma parte dela que me fora arrancada junto com tudo o que aconteceu depois do incêndio.

Cheguei ao banco acompanhada por Mariana.

Carlos estava com um advogado.

Marcelo não tinha legitimidade para participar da abertura e não estava presente.

Clara também não entrou na sala. Apesar de tudo, ela era funcionária da instituição e precisava respeitar os limites da função.

A abertura foi documentada.

Não houve música dramática, revelação cinematográfica ou objeto impossível escondido no fundo.

Havia pastas.

Um pequeno estojo de joias.

Documentos pessoais.

Cópias de extratos.

Contratos antigos.

Relatórios financeiros.

E dois cadernos de anotações.

Tudo foi registrado antes de qualquer análise.

Carlos ficou muito quieto quando viu as pastas.

Eu notei.

Não disse nada.

Parte dos papéis dizia respeito a investimentos comuns. Outros continham cópias de movimentações do fundo de minha mãe.

Mariana pediu que eu não tentasse interpretar números sozinha.

Foi um conselho importante.

Um conjunto de documentos financeiros pode parecer suspeito para quem procura uma resposta e perfeitamente normal para um contador que conhece o contexto.

Por isso, o material seria analisado tecnicamente.

Mas houve uma coisa que não exigia interpretação especializada.

Dentro de um dos cadernos, minha mãe havia registrado datas de reuniões e perguntas que pretendia fazer.

Não eram confissões.

Eram dúvidas.

“Por que Carlos transferiu valores entre carteiras sem a autorização prevista?”

“Otávio pediu os comprovantes originais.”

“Carlos diz que é temporário.”

“Não assinar novas movimentações antes da revisão.”

Li cada frase devagar.

As palavras de minha mãe conversavam diretamente com o que Carlos havia admitido na cafeteria.

Ele fizera movimentações que ela começara a questionar.

Ao meu lado, meu pai empalideceu.

— Você reconhece a letra dela? — perguntei.

O advogado dele tentou interromper, mas Carlos respondeu:

— Reconheço.

Não perguntei mais.

Também havia cópias de correspondências enviadas por Otávio Xavier ao fundo. Alguns documentos pediam esclarecimentos sobre operações específicas.

Nada ali dizia: “Carlos é culpado.”

Nada dizia o que aconteceu no incêndio.

Nada explicava o desaparecimento de Otávio.

Mas os papéis construíam uma sequência.

Minha mãe desconfiava.

Otávio investigava.

Carlos era uma das pessoas responsáveis pelas operações questionadas.

Depois vieram o incêndio, a falsa morte e o desaparecimento do auditor.

Pela primeira vez, o passado deixou de ser apenas uma coleção de histórias contadas por outras pessoas.

Havia registros contemporâneos aos fatos.

Quando saímos da sala, Carlos pediu alguns minutos para falar comigo.

— Não.

Ele pareceu surpreso.

— Ana, depois do que você viu…

— Justamente por isso.

Parei diante dele.

— Durante dias eu corri atrás de respostas suas. Agora os documentos vão ser analisados. Se tiver algo relevante, diga formalmente.

— Eu sou seu pai.

— Biologicamente, sim.

A frase doeu em mim também.

— Mas você não pode usar isso como acesso ilimitado à minha vida.

Carlos abaixou a cabeça.

Naquela tarde, tomei uma decisão que já vinha amadurecendo.

Autorizei Mariana a prosseguir com a separação sem condicioná-la ao resultado da investigação.

Até então, uma parte de mim ainda tratava o divórcio como reação à crise.

Eu não queria mais isso.

Meu casamento havia terminado por uma razão que já estava clara: Marcelo conspirara com um homem que eu acreditava estar morto, escondera essa informação por meses, ajudara a estruturar uma empresa com ele e tentara convencer-me a transferir uma quantia enorme usando uma mentira.

Mesmo que amanhã se provasse que Carlos era inocente de tudo o que ocorrera dezoito anos antes, nada disso apagaria o que Marcelo fizera comigo agora.

Quando disse isso a Mariana, ela assentiu.

— Essa distinção é importante.

Também pedi que qualquer negociação patrimonial permanecesse separada da investigação criminal.

Eu não usaria o risco jurídico de Marcelo como moeda para obter vantagem no divórcio.

Queria sair daquele casamento com a consciência de que não havia me transformado em alguém que eu mesma não reconhecesse.

Dois dias depois, Marcelo pediu para falar comigo através dos advogados.

Aceitei uma conversa curta no escritório.

Ele parecia mais magro.

— Soube que abriram o cofre.

— Sim.

— Tinha dinheiro?

A pergunta me atingiu.

Não porque fosse inesperada.

Porque revelou que, mesmo depois de tudo, aquele era um dos primeiros pensamentos dele.

— Isso importa para você?

Marcelo percebeu o erro.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso que você perguntou.

Ele baixou os olhos.

— Carlos dizia que havia ativos importantes lá dentro.

— Então foi por isso?

Marcelo ficou calado.

— Quanto ele prometeu?

— Ana…

— Quanto?

— Dez por cento do que fosse recuperado.

Senti a última parte da dúvida morrer.

— E você achava que tinha direito?

— Eu estava endividado.

A informação era nova.

Mas não mudava o que havia acontecido.

— Que dívida?

Ele explicou que fizera investimentos ruins meses antes e perdera muito mais do que me contara. Usara crédito pessoal para tentar cobrir parte do prejuízo.

Não era uma dívida secreta capaz de justificar tudo.

Era apenas o motivo pelo qual a promessa de Carlos parecera tão atraente.

— Você podia ter falado comigo.

— Eu tinha vergonha.

— E preferiu mentir.

Marcelo olhou para as próprias mãos.

— Sim.

Foi a primeira resposta inteira que me deu desde que tudo começara.

Não senti pena suficiente para voltar atrás.

Mas senti uma tristeza mais limpa.

Ele não era um gênio manipulador que planejara destruir minha vida desde o casamento.

Era um homem que fizera escolhas covardes uma após outra até atravessar uma linha que não podia desfazer.

— Vou colaborar com a investigação — disse.

— Faça isso porque é a coisa certa.

— Eu sei.

— Não faça esperando que eu volte.

Ele ergueu os olhos.

Dessa vez, não pediu outra chance.

— Entendi.

Quando saiu, percebi que aquela conversa havia mudado nossa relação.

Não éramos mais marido e mulher tentando decidir se ainda existia algo para salvar.

Éramos duas pessoas enfrentando as consequências do que uma delas fizera.

Na manhã seguinte, o perito financeiro contratado no procedimento para analisar parte da documentação do cofre apresentou uma conclusão preliminar.

Existiam operações antigas que mereciam revisão mais profunda.

Várias transferências registradas nos meses anteriores ao incêndio haviam sido autorizadas por Carlos sem a confirmação de Vera exigida pelas regras internas do fundo.

Meu pai já admitira algo semelhante.

Agora havia documentos que permitiam verificar.

Mas uma observação do relatório chamou ainda mais atenção.

Poucos dias antes do incêndio, Vera havia solicitado a suspensão temporária das permissões financeiras de Carlos.

Ela estava tentando impedir que ele continuasse movimentando recursos.

O pedido nunca chegou a ser plenamente processado.

Porque o incêndio aconteceu antes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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