
Parte 4
Na manhã seguinte, eu não fui ao trabalho. Pela primeira vez desde que tudo começara, não senti necessidade de correr atrás de uma explicação emocional. Precisava organizar o problema como ele realmente era.
Havia quatro questões diferentes.
Meu pai estava vivo.
Minha assinatura aparecia numa procuração que eu nunca fizera.
Meu marido havia mentido sobre o destino de R$ 1,9 milhão.
E existia um cofre da minha mãe que não constava nos documentos do inventário que eu tinha em mãos.
Misturar tudo numa única acusação seria exatamente o tipo de erro que poderia favorecer quem estivesse escondendo alguma coisa.
Encontrei a advogada, doutora Mariana Reis, num escritório simples em Belo Horizonte. Entreguei cópias do boletim, dos documentos antigos e do protocolo fornecido pelo banco.
Ela não prometeu prender ninguém, recuperar dinheiro em cinco minutos ou descobrir dezoito anos de história numa tarde.
Aquilo me tranquilizou.
— Primeiro protegemos o que pode ser protegido — explicou. — Depois verificamos o que pode ser provado.
A transferência permanecia bloqueada internamente porque a análise havia sido interrompida antes da liberação final. O banco abriria investigação de fraude.
Quanto ao cofre, Mariana recomendou formalizar imediatamente que eu não reconhecia a procuração e pedir que qualquer abertura ocorresse apenas depois da definição de quem tinha legitimidade para representar o espólio de minha mãe e diante das autoridades competentes.
Assinei somente o necessário.
Desta vez, li cada linha.
Na saída, Marcelo estava encostado no meu carro.
Parei a alguns metros.
— Como você descobriu que eu estava aqui?
— Sua tia me contou que você procuraria uma advogada.
Fechei os olhos por um instante.
Helena ainda enxergava Marcelo como o homem com quem eu dividira sete anos da minha vida. Não havia compreendido que, naquele momento, até informações aparentemente inocentes podiam ser usadas para me alcançar.
— Não apareça de surpresa de novo.
Ele ergueu as mãos.
— Eu só quero conversar.
— Então fale daqui.
Marcelo parecia não ter dormido.
— Eu sei que errei em esconder seu pai.
— Isso não é a única coisa que você escondeu.
— A empresa não é o que você está pensando.
— Pare de dizer o que eu estou pensando. Explique o que você fez.
Ele respirou fundo.
— Carlos precisava de uma empresa ativa para reorganizar alguns negócios antigos. Eu ajudei na parte administrativa.
— Por que o nome Viana Costa?
— Foi ideia dele.
— E por que meu dinheiro iria para lá?
Marcelo apertou os lábios.
— Ele disse que, assim que recuperasse o conteúdo do cofre, devolveria tudo.
Eu quase ri, mas não havia nada engraçado.
— Então você sabia que meu dinheiro estava financiando o plano dele.
— Não era para desaparecer com o dinheiro.
— Você mentiu dizendo que compraríamos uma casa.
Ele se aproximou um passo.
— Porque se eu contasse sobre Carlos, você entraria em pânico.
— Isso se chama decidir por mim.
— Eu estava tentando proteger você.
A frase atingiu o limite da minha paciência.
— Minha tia escondeu coisas para me proteger. Meu pai desapareceu e me deixou acreditar que estava morto por algum motivo que ainda não conheço. Agora você diz que mentiu para me proteger. É impressionante como todo mundo consegue transformar meu silêncio em prova do próprio amor.
Marcelo ficou imóvel.
— Eu amo você.
— Talvez. Mas hoje eu não confio em você.
Abri a porta do carro.
Ele segurou a parte superior da porta, sem impedir que eu entrasse.
— Carlos quer falar com você.
— Ele tem meu número.
— Não por telefone.
— Então ele vai continuar querendo.
Marcelo soltou a porta.
Antes de eu entrar, fiz a pergunta que vinha me perseguindo.
— Você estava com ele de manhã quando tentaram abrir o cofre?
O rosto dele mudou.
Não foi uma confissão.
Mas também não foi a reação de alguém ofendido por uma acusação absurda.
— Responda.
— Eu fui à agência.
— Isso não foi o que perguntei.
— Ana…
— Chega.
Entrei no carro.
Naquela tarde, alterei senhas, revisei os acessos às minhas contas e pedi ao banco um relatório das autorizações vinculadas ao meu cadastro. Não bloqueei contas de outras pessoas nem movi patrimônio que não fosse meu. Apenas encerrei acessos que eu havia concedido a Marcelo para facilitar nossa vida cotidiana.
Cada pequena mudança parecia ridícula diante da dimensão do problema.
Ainda assim, eram escolhas minhas.
E isso importava.
Clara me telefonou no fim do expediente.
— A investigação interna começou.
— Você descobriu alguma coisa?
— Oficialmente eu não posso acessar o que não faz parte das minhas funções. Mas fui chamada para prestar esclarecimentos sobre a procuração.
— E?
— Confirmaram que o documento apresentado de manhã será encaminhado para análise técnica.
Ela hesitou.
— Também pediram as imagens da área dos cofres.
Meu corpo ficou alerta.
— Existem câmeras lá?
— Não dentro da sala dos cofres, por questão de privacidade. Mas existem nos acessos, corredores e recepção.
Aquilo era importante, mas ainda não dizia quem havia acompanhado meu pai.
— Clara, não coloque seu emprego em risco por mim.
Ela ficou quieta.
— Eu não estou fazendo isso só por você.
Pensei em Otávio Xavier.
— Eu sei.
À noite, minha tia se desculpou por ter comentado com Marcelo que eu procuraria uma advogada. Não discutimos.
Eu apenas pedi:
— Não conte a ninguém onde estou nem o que estou fazendo.
Ela concordou.
Pela primeira vez desde o incêndio, Helena abriu uma caixa menor que estava dentro do guarda-roupa dela.
— Tem outra coisa.
Meu peito apertou.
— O quê?
— Não é um segredo. Eu só não achava importante.
Ela me entregou alguns envelopes antigos, todos abertos.
Eram cobranças, notificações empresariais e correspondências relacionadas ao fundo de minha mãe. Nada que resolvesse o caso.
Mas um dos envelopes trazia o nome de Otávio Xavier como responsável pela auditoria.
No verso, à mão, minha mãe havia escrito apenas:
“Otávio encontrou divergências. Carlos diz que é erro de contabilização. Preciso conferir antes da reunião.”
Reli a frase várias vezes.
Não provava fraude.
Não provava crime.
Mas estabelecia uma coisa que até então eu não sabia:
Antes do incêndio, minha mãe e meu pai já discordavam sobre as contas do fundo.
Fotografei o documento e o guardei.
Na manhã seguinte, Mariana me acompanhou ao banco para protocolar cópia daquela correspondência junto às demais informações.
Quando estávamos saindo, Clara nos alcançou discretamente.
Seu rosto estava tenso.
— Ana.
Ela olhou para Mariana e depois para mim.
— A análise preliminar das imagens ficou pronta.
Eu esperei.
Clara não precisava dizer o nome.
Bastou completar:
— O homem que entrou com Carlos Viana na área de atendimento dos cofres ontem de manhã era Marcelo.
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