Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

 

Parte 2

O segurança parou a poucos metros de nós. Não levou a mão ao rádio nem tentou bloquear a passagem; apenas olhou para Clara e informou que o gerente estava procurando por ela. Clara respondeu com naturalidade que estava acompanhando uma cliente que havia passado mal e pediu um copo d’água. O homem pareceu hesitar antes de dizer que o gerente queria as duas no salão imediatamente.
Meu primeiro impulso foi recuar, mas percebi que isso nos colocaria ainda mais isoladas. Inclinei a cabeça para Clara. — Vamos juntas. Ela entendeu. Saímos do corredor lado a lado, e o segurança veio atrás, sem tocar em nenhuma de nós.
Assim que atravessamos a porta, meu celular recuperou o sinal. A tela começou a receber notificações atrasadas. Guardei o aparelho sem tentar ligar naquele instante, porque Marcelo já havia me visto. Ele deixou a entrada e caminhou na nossa direção com um sorriso que não chegou aos olhos.
— Até que enfim. — Ele tentou segurar minha mão. — Vamos?
Afastei os dedos antes que me tocasse. — A transferência ainda não foi concluída. O banco encontrou uma inconsistência.
O sorriso desapareceu por uma fração de segundo. — Que inconsistência?
— Ainda estão verificando.
Clara passou por nós e entrou atrás do balcão. Sem olhar diretamente para mim, chamou outra funcionária e pediu que registrasse uma contestação preventiva da operação por suspeita de fraude. Como a transferência ainda estava retida para análise interna, o dinheiro não havia sido efetivamente disponibilizado ao beneficiário.
Marcelo ouviu. O maxilar dele se contraiu. — Fraude? Ana, você está confundindo as coisas. Fui eu que passei essa conta para você.
— Eu sei exatamente quem me passou.
A resposta saiu mais fria do que eu esperava. Pela primeira vez, ele pareceu não saber qual papel representar. O marido carinhoso desapareceu; o homem que surgiu no lugar dele me observava como se estivesse calculando o quanto eu sabia.
A porta automática da agência se abriu.
Clara, que digitava atrás do balcão, parou.
Eu segui o olhar dela.
O homem da fotografia entrou caminhando devagar.
Nenhuma imagem, nenhum sonho e nenhuma lembrança me prepararam para aquilo. Ele estava mais velho, mais magro e ligeiramente curvado, mas carregava o mesmo jeito de virar o rosto antes de observar um ambiente. A mesma cicatriz junto à orelha apareceu quando ele passou sob a luz.
Meu pai.
Vivo.
Marcelo não demonstrou surpresa.
Foi essa ausência de surpresa que me feriu antes de qualquer palavra.
O homem olhou primeiro para Marcelo, depois para mim. Seus passos diminuíram. Por um instante, pareceu envelhecer mais dez anos diante dos meus olhos.
— Ana Viana.
Meu antigo nome atravessou o salão como uma lâmina.
— Não me chame assim — respondi.
Ele abriu a boca, mas eu não deixei.
— O senhor morreu há dezoito anos. Minha mãe morreu há dezoito anos. Eu enterrei vocês dois. Agora aparece aqui com uma procuração falsa em meu nome e uma empresa que leva o seu sobrenome e o do meu marido.
Várias pessoas começaram a prestar atenção. O gerente saiu de uma sala e tentou se aproximar. Clara se antecipou, dizendo em voz firme que havia uma contestação formal em andamento e que qualquer procedimento envolvendo o cofre 317 deveria permanecer suspenso até nova verificação documental.
Meu pai fechou os olhos por um instante.
— Você não entende o que está acontecendo.
— Então explique.
Ele olhou ao redor.
— Aqui, não.
— Aqui é justamente onde eu quero ouvir.
Marcelo se aproximou de mim. — Ana, vamos para casa. A gente conversa com calma.
— Você já sabia que ele estava vivo?
Marcelo não respondeu.
Eu repeti:
— Você sabia?
O silêncio dele foi suficiente.
Algo dentro de mim mudou naquele instante. Eu ainda estava assustada, ainda queria respostas, mas a dor deixou de ser confusão. Transformou-se em certeza sobre uma coisa simples: eu não podia sair dali confiando em nenhum dos dois.
Peguei o celular e disquei 190. Dessa vez a chamada completou.
Marcelo ficou pálido.
Meu pai deu apenas um passo na minha direção.
— Não faça isso antes de me ouvir.
— Dezoito anos foram tempo suficiente para o senhor falar.
Passei à atendente o nome da agência, disse que havia suspeita de falsificação documental e tentativa de movimentação patrimonial em meu nome. Não acusei ninguém de crimes que ainda não podia provar. Contei somente o que eu sabia.
Quando desliguei, meu pai me encarava.
— O cofre era da sua mãe.
— Eu sei.
— E o que está dentro dele nunca pertenceu ao Marcelo.
Virei o rosto para meu marido.
Ele ficou imóvel.
Meu pai continuou:
— Mas também nunca pertenceu a mim.
Foi a primeira frase dele que pareceu não ser uma defesa.
E foi exatamente por isso que me assustou mais.
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