
Parte 3
A polícia chegou pouco depois. Não houve sirenes, homens correndo ou algemas no meio da agência. Dois policiais ouviram primeiro o gerente, depois Clara, Marcelo, meu pai e eu. A normalidade do procedimento contrastava de forma quase cruel com tudo que estava acontecendo dentro de mim.
Clara entregou a informação sobre a procuração e explicou que havia identificado divergência entre a impressão digital do documento apresentado de manhã e a impressão vinculada à minha movimentação daquela tarde. Também registrou que minha transferência ainda estava em análise, motivo pelo qual a instituição poderia mantê-la suspensa enquanto verificava a contestação.
Meu pai não tentou fugir.
Marcelo também não.
Isso me lembrava o tempo todo de que suspeita não era prova e de que eu precisava separar aquilo que sabia daquilo que imaginava.
Quando um dos policiais me perguntou se eu reconhecia Carlos Viana como meu pai, quase respondi automaticamente. Parei antes.
— Reconheço o rosto. Reconheço a cicatriz e a voz. Mas oficialmente meu pai está morto há dezoito anos. Quero que isso também seja verificado.
O policial anotou.
Meu pai abaixou os olhos.
Foi uma pequena cena, mas me atingiu com força. Quando eu era criança, bastava ele entrar num cômodo para eu me sentir protegida. Agora eu precisava pedir a um desconhecido de uniforme que confirmasse quem aquele homem realmente era.
Marcelo tentou se aproximar quando terminei de prestar minhas informações.
— Ana, por favor.
— Não.
— Você está tirando conclusões sem saber de tudo.
— Então responda apenas uma pergunta.
Ele respirou fundo.
— Qual?
— Há quanto tempo você sabe que meu pai está vivo?
Os músculos do rosto dele endureceram.
— Alguns meses.
Não senti o choque que imaginei sentir.
Talvez porque, desde o momento em que ele não se surpreendeu ao ver meu pai entrando na agência, uma parte de mim já soubesse.
— Alguns meses — repeti. — E todos os dias você tomou café comigo, dormiu ao meu lado, planejou comprar uma casa comigo e decidiu não dizer nada.
— Eu tinha meus motivos.
— Você tinha os seus. Eu é que não tinha escolha.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Carlos me procurou dizendo que existiam assuntos antigos envolvendo sua mãe. Disse que contar antes da hora poderia colocar você em risco.
— E você acreditou?
Marcelo não respondeu diretamente.
— Eu queria entender primeiro.
— Então por que me pediu R$ 1,9 milhão?
Ele olhou para meu pai.
Foi rápido.
Mas eu vi.
Carlos Viana também viu.
— Não olhe para ele — eu disse. — Eu perguntei a você.
— O dinheiro era para uma operação da empresa. Seria temporário.
Meu estômago se fechou.
— Você me disse que era a entrada de uma casa.
— Eu explicaria depois.
— Depois que o dinheiro estivesse fora da minha conta?
Marcelo baixou a voz:
— Nosso dinheiro.
Aquilo me fez encará-lo de um jeito diferente.
A maior parte daquela reserva vinha da venda de um imóvel que eu recebera anos antes da minha família materna. Durante o casamento, eu sempre falara em “nossas economias” porque considerava Marcelo meu parceiro.
Naquela tarde, pela primeira vez, percebi que ele talvez tivesse entendido essa confiança de outra maneira.
Um dos policiais interrompeu a conversa e orientou que qualquer discussão financeira fosse levada aos canais adequados. O banco formalizou o bloqueio preventivo da transferência enquanto examinava a contestação e suspendeu qualquer nova tentativa de acesso ao cofre 317.
Não era uma vitória.
Era apenas tempo.
E naquele momento, tempo era exatamente o que eu precisava.
Saí da agência acompanhada por Clara. Recusei entrar no carro de Marcelo.
— Onde você vai? — ele perguntou.
— Para um lugar onde eu consiga pensar sem alguém decidindo o que eu devo saber.
— Ana, eu sou seu marido.
— Hoje isso não me tranquiliza.
Meu pai estava alguns metros atrás.
Eu quase caminhei até ele. Quase perguntei onde estivera durante todos aqueles anos, por que me deixara acreditar que estava morto, o que acontecera de verdade no incêndio.
Mas não perguntei.
Eu tinha passado dezoito anos desejando, em algum canto impossível de mim, que meu pai voltasse.
Agora que ele estava diante de mim, compreendi que sentir falta de uma pessoa morta e confiar numa pessoa viva eram coisas completamente diferentes.
Fui para a casa da minha tia Helena.
Ela abriu a porta sorrindo e perdeu a cor assim que viu meu rosto.
— O que aconteceu?
Entrei sem responder.
Clara havia ido embora depois de me passar seu número pessoal. Disse que não podia me fornecer documentos internos sem autorização, mas que prestaria qualquer depoimento necessário sobre o que presenciara.
Sentei à mesa da cozinha onde eu fizera lição de casa durante anos.
Minha tia colocou um copo de água na minha frente.
— Ana, você está me assustando.
Olhei para a mulher que me criou depois do incêndio.
— Meu pai está vivo.
O copo escapou da mão dela.
A água se espalhou pela mesa.
Por alguns segundos, Helena não falou.
Dessa vez, o silêncio não era uma figura de linguagem. Ela realmente parecia incapaz de respirar.
— Você viu?
— Vi.
Ela se sentou.
Contei apenas o essencial: a agência, a procuração, o cofre, Marcelo, a empresa.
Quando terminei, minha tia estava chorando sem fazer barulho.
— Você sabia? — perguntei.
— Não.
A resposta veio imediata.
Eu acreditei nela.
— Então por que mudou meu sobrenome?
Helena limpou o rosto.
— Porque depois do incêndio começaram a aparecer telefonemas estranhos.
Eu me inclinei.
— Que telefonemas?
— Gente perguntando se você tinha documentos da sua mãe. Se Vera havia deixado alguma pasta comigo. Se eu sabia de contas, papéis, investimentos. Nunca diziam nomes.
Meu corpo ficou tenso.
— Por que nunca me contou?
— Porque você tinha doze anos.
Ela apertou as mãos.
— Você acordava gritando à noite. Passou meses perguntando se o fogo podia entrar pela janela. Eu não queria colocar mais medo na sua cabeça.
— E depois que eu cresci?
Helena desviou o olhar.
A resposta doeu mais porque não tinha maldade.
— Depois, quanto mais tempo passava, mais difícil ficava contar.
Aquela frase me lembrou Marcelo.
Segredos protegidos por silêncio acabavam sempre usando a mesma desculpa: “Eu queria poupar você.”
Levantei.
— Quero ver tudo o que você guardou daquela época.
Minha tia me levou até um armário no quarto de hóspedes. No fundo havia uma caixa de plástico com certidões, recortes de jornal, documentos do inventário e algumas fotografias.
Nada parecia capaz de resolver o mistério.
E eu não queria uma solução milagrosa.
Eu queria fatos.
Passei quase duas horas separando datas.
O incêndio ocorrera numa quinta-feira à noite.
Minha mãe, Vera Duarte, era administradora de um pequeno fundo privado de investimentos formado anos antes com outros sócios.
Carlos Viana trabalhava na estrutura financeira e operacional do fundo.
Otávio Xavier, pai de Clara, participara de uma auditoria externa.
Minha mãe e meu pai foram declarados mortos após o incêndio.
Otávio desapareceu sete dias depois.
A sequência parecia simples demais para ser ignorada e incompleta demais para ser tratada como prova.
Peguei meu celular.
Havia dezenove chamadas de Marcelo.
Três do meu pai.
Nenhuma delas foi atendida.
Em vez disso, procurei uma advogada indicada havia anos por uma colega de trabalho. Não contei uma novela inteira pelo telefone. Expliquei que havia uma procuração possivelmente falsificada em meu nome, uma tentativa de acesso a um cofre ligado ao espólio da minha mãe e uma transferência contestada.
Ela me orientou a preservar todos os documentos, não assinar nada e evitar discussões privadas sobre patrimônio até que tivéssemos acesso às informações oficiais.
Na manhã seguinte, eu faria o boletim complementar e iniciaria as medidas necessárias para proteger minha posição jurídica.
Depois da ligação, encontrei dentro da caixa uma cópia antiga do inventário da minha mãe.
Li página por página.
O cofre 317 não aparecia em lugar nenhum.
Chamei Helena.
— Você sabia desse cofre?
Ela analisou o papel.
— Nunca ouvi falar.
— Então por que ele permaneceu dezoito anos no nome dela?
Minha tia balançou a cabeça.
Não sabia.
Foi então que meu celular tocou.
Não era Marcelo.
Era Clara.
— Ana, eu precisava avisar você antes de sair da agência.
— O quê?
A voz dela estava baixa.
— Seu pai protocolou um pedido formal para comprovar que está vivo e regularizar a própria identidade.
Apertei o telefone.
— Então ele pretende voltar oficialmente.
— Sim.
Clara fez uma pausa.
— E o primeiro documento anexado ao pedido menciona o cofre 317.
Naquela noite, finalmente compreendi que Carlos Viana não havia voltado por saudade.
Ele havia voltado porque precisava de alguma coisa.
E, de algum modo, aquela coisa ainda estava ligada à minha mãe.
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