
Parte 1
Quando eles ergueram a segunda taça para beber de braços entrelaçados, a tela do meu celular acendeu.
No palco, Henrique Tavares segurava o microfone com a confiança de quem acreditava ter o mundo inteiro sob controle.
— Se a nossa empresa chegou até aqui, a pessoa que mais merece ser agradecida hoje não sou eu. É a Lívia Ramos.
Os aplausos explodiram pelo salão.
Lívia estava ao lado dele, usando um vestido branco impecável e um relógio pequeno cravejado de diamantes. O sorriso parecia discreto o bastante para passar por modéstia, mas não escondia o orgulho.
Henrique entregou uma taça a ela.
Lívia recebeu a bebida e entrelaçou o braço no dele.
Alguém assobiou no fundo do salão.
— Beija! Beija!
Outra voz veio logo depois:
— Henrique, com uma assistente tão dedicada assim, o bônus dela precisa aumentar!
Ele riu.
— Ela merece.
Eu estava sentada na ponta da segunda fileira, ainda segurando a mesma taça de vinho que tinham colocado na minha mão no começo da festa.
Não tinha tomado um gole.
Marcelo Duarte, diretor de produto, inclinou-se discretamente na minha direção.
— Marina, você está bem?
Olhei para os dois no palco.
— Muito bem.
Meu celular acendeu de novo.
Desta vez, havia apenas uma mensagem na tela.
“O valor de R$ 2,2 bilhões foi creditado na conta.”
Fiquei olhando para aquela frase por três segundos.
Depois bloqueei a tela.
Marcelo continuava me observando.
— Você realmente não vai fazer nada?
— Sobre o quê?
Ele fez um movimento quase imperceptível com o queixo na direção do palco.
— Sobre o Henrique e a Lívia.
Coloquei minha taça sobre a mesa.
— Se eles estão felizes, está tudo certo.
Henrique já tinha passado um braço pelos ombros dela.
Uma das câmeras do evento apontou para os dois, e os rostos deles apareceram gigantes no painel de LED atrás do palco.
Lívia se inclinou ainda mais, encostando o corpo no dele.
O salão voltou a rir.
Algumas pessoas olharam para mim.
Outras nem se deram ao trabalho de abaixar a voz.
— A esposa está sentada bem ali.
— Ah, mas ela vive trancada no laboratório. O que uma mulher dessas entende dessas coisas de relacionamento e evento corporativo?
Levantei-me.
Marcelo segurou meu braço.
— Aonde você vai?
— Ao banheiro.
— Marina, não faça nada de cabeça quente.
Dei dois tapinhas leves na mão dele.
— Fica tranquilo.
Olhei uma última vez para o palco.
— Hoje eu estou muito calma.
Saí pela porta lateral do salão.
Assim que ela se fechou atrás de mim, os gritos, os aplausos e as risadas ficaram abafados.
O corredor parecia outro mundo.
Meu celular tocou.
Era o advogado André Farias.
Atendi.
— Marina, o pagamento foi confirmado?
— Acabou de cair.
— Então está concluído. O contrato de cessão da patente entrou oficialmente em vigor. Às nove da noite, a NovaVita Medical vai apresentar o novo produto.
Olhei para o relógio.
20h26.
— Eu sei.
— E os documentos do divórcio estão no seu carro. Deixei tudo no porta-luvas, do lado do passageiro.
— Obrigada.
André hesitou antes de continuar.
— Tem mais uma coisa.
— Pode falar.
— A NovaVita quer saber se você aceitaria assumir a direção do novo centro de pesquisa e desenvolvimento deles. Salário, participação acionária e estrutura podem ser negociados.
A porta do elevador abriu.
Entrei e apertei o botão do segundo subsolo.
— Não.
Houve uma pequena pausa.
— Tem certeza?
— Tenho.
Encostei as costas na parede metálica.
— Eu preciso descansar por um tempo.
O elevador chegou ao estacionamento.
Saí e caminhei até o carro.
Meu sedã branco estava parado no mesmo canto discreto de sempre. Já tinha sete anos.
Ao lado dele, brilhando sob as luzes frias da garagem, estava o Maybach que Henrique havia comprado poucos meses antes.
Para Lívia.
Abri a porta do meu carro e me sentei.
No porta-luvas havia uma pasta.
O primeiro documento era o pedido de divórcio.
O segundo comprovava a titularidade independente da patente.
O terceiro era uma cópia do contrato de cessão.
Passei as folhas lentamente.
Quando cheguei à página destinada à minha assinatura no pedido de divórcio, parei.
André tinha deixado uma caneta presa à pasta.
Peguei-a.
Antes que a ponta tocasse o papel, meu celular começou a vibrar sem parar.
O grupo da diretoria estava em completo caos.
“Liguem a transmissão financeira agora!”
“O evento da NovaVita começou!”
“Espera. Esse não é o conceito central do nosso projeto?”
“O que está acontecendo com as ações?”
“O Henrique está onde?”
“Alguém chama o Henrique!”
Abri o link.
No palco da NovaVita Medical, uma apresentadora mostrava a nova geração de equipamentos portáteis de diagnóstico.
O produto surgiu no telão.
Reconheci cada princípio da tecnologia antes mesmo de ela terminar a primeira frase.
Claro que reconheci.
Eu tinha passado noites demais acordada por causa daquilo.
Foram cinco anos pesquisando.
Cinco anos testando, errando, voltando ao início, corrigindo cálculos, redesenhando componentes e perseguindo uma solução que quase ninguém acreditava que funcionaria.
Inclusive meu próprio marido.
Eu ainda me lembrava da reunião do conselho em que Henrique fechou a pasta diante de todos e disse:
— Marina, o seu projeto está avançando devagar demais e consumindo recursos demais. O mercado não vai esperar você para sempre.
Pouco depois, ele desviou praticamente todo o orçamento daquele desenvolvimento para o projeto comandado por Lívia.
Ela gastou o equivalente a R$ 45 milhões.
No fim, produziu uma coleção de protótipos bonitos para apresentações e quase inúteis tecnicamente.
Ainda assim, encontrou coragem para entrar no meu laboratório, olhar para os meus relatórios e dizer:
— Marina, o mercado não gosta de coisa seca demais. Para vender um produto, você precisa saber contar uma história.
Henrique estava presente.
E concordou.
— Você devia aprender um pouco com ela.
Eu não discuti.
Não naquele dia.
Também não discuti quando reduziram minha equipe.
Não discuti quando me tiraram das principais reuniões.
Não discuti quando Henrique passou a apresentar Lívia como a pessoa responsável pela “nova fase de inovação” da empresa.
Eu só comecei a organizar tudo.
Relatórios.
Registros.
Documentos de titularidade.
Datas.
Contratos.
Tudo aquilo que provava uma coisa muito simples:
a patente era minha.
O desenvolvimento tinha sido tratado juridicamente de forma independente, e a empresa jamais havia concluído um acordo definitivo de cessão ou exclusividade sobre aquela tecnologia.
Henrique sabia disso.
Ou deveria saber.
Durante anos, porém, ele pareceu acreditar que existir um casamento entre nós era praticamente a mesma coisa que possuir o meu trabalho.
No telão da transmissão, a apresentadora da NovaVita continuava falando.
“Uma plataforma portátil de diagnóstico capaz de reduzir drasticamente o tempo entre coleta, processamento e resultado…”
Fechei os olhos por um instante.
Eu conhecia cada linha daquele sistema.
Conhecia os dias em que quase abandonei tudo.
Conhecia o primeiro teste que falhou.
O primeiro que funcionou.
O primeiro resultado que me fez ficar sentada no chão do laboratório por vários minutos porque eu não conseguia acreditar no que estava vendo.
Henrique também conhecia parte daquela história.
Mas, quando precisou escolher entre o meu trabalho e a imagem brilhante que Lívia vendia em reuniões, escolheu a segunda opção.
A transmissão financeira começou a exibir os gráficos.
As ações da empresa despencavam.
O mercado tinha entendido rápido demais o que significava ver a tecnologia mais promissora daquele setor sendo apresentada por um concorrente.
As mensagens aumentaram.
“Perdemos mais 8%.”
“Agora 11%.”
“Alguém confirma se essa patente era nossa?”
“Henrique precisa falar imediatamente.”
“Os investidores estão ligando.”
“Temos uma reunião emergencial?”
Meu telefone começou a receber chamadas individuais.
Marcelo.
O diretor financeiro.
Um dos conselheiros.
Outro conselheiro.
Recusei todas.
Na tela da transmissão, o valor de mercado evaporava em blocos enormes.
Não havia quebradeira instantânea.
Não havia falência em dez minutos.
Mas havia pânico.
E havia uma pergunta que ninguém conseguia responder:
como a tecnologia que todos acreditavam fazer parte do futuro da empresa tinha ido parar nas mãos da principal concorrente?
A resposta estava diante de mim.
Na pasta aberta sobre o banco do passageiro.
Henrique havia tratado o meu trabalho como se estivesse garantido.
Como se não fosse necessário me respeitar.
Nem me ouvir.
Nem sequer negociar comigo.
Porque, no fim das contas, eu era sua esposa.
A mulher do laboratório.
A pessoa que estaria sempre ali.
Peguei novamente a caneta.
Assinei o pedido de divórcio.
Meu celular vibrou.
Outro alerta financeiro apareceu.
A perda de valor de mercado já se aproximava de R$ 58 bilhões.
Respirei fundo e fechei a pasta.
O telefone tocou novamente.
Desta vez, não era Marcelo.
Não era o diretor financeiro.
Não era nenhum conselheiro.
Por fim, duas palavras apareceram na tela:
Henrique Tavares.
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