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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

A votação não aconteceu imediatamente. O conselho marcou a reunião para a semana seguinte, depois de receber o relatório completo sobre decisões de investimento, governança de propriedade intelectual e projeções financeiras. Pela primeira vez, Henrique teria de responder não a mim, mas às pessoas que tinham colocado capital e responsabilidade nas mãos dele.

Eu não participei.

Não era mais funcionária.

Não era conselheira.

Não era dona da patente que causara a crise.

Meu vínculo com aquela empresa estava diminuindo a cada dia, e isso era exatamente o que eu queria.

Enquanto eles discutiam o futuro de Henrique, comecei a trabalhar no meu.

Contratei uma pequena equipe de consultoria para estruturar um centro privado de pesquisa em diagnóstico médico. Não queria repetir o modelo que tinha acabado de abandonar. Nada de transformar cientistas em decoração para apresentação a investidores. Nada de vender cronogramas impossíveis apenas porque uma campanha de marketing precisava de uma data bonita.

Também não queria brincar de bilionária impulsiva.

R$ 2,2 bilhões pareciam um número capaz de permitir qualquer coisa, mas eu sabia melhor do que ninguém quanto dinheiro podia desaparecer quando decisões técnicas eram tomadas por ego.

Defini que o projeto começaria pequeno.

Equipe limitada.

Metas reais.

Governança clara.

E, principalmente, regras transparentes sobre propriedade intelectual.

Na segunda reunião de planejamento, interrompi uma consultora que sugeriu que todas as invenções futuras fossem automaticamente controladas pela organização sem exceção.

— Não.

Ela pareceu surpresa.

— É o modelo mais simples.

— Simples para quem?

A sala ficou quieta.

— Eu quero contratos claros — expliquei. — Se uma pesquisa for integralmente financiada pelo centro e estiver dentro da função contratada, tudo precisa estar definido. Se houver projeto independente, também. Ninguém vai descobrir depois de cinco anos que trabalhou em cima de uma expectativa diferente.

Eu sabia exatamente de onde vinha aquela exigência.

Mas não precisava contar a história inteira para defendê-la.

Dois dias antes da votação do conselho, Henrique pediu para me encontrar.

Dessa vez, aceitei em um café público.

Ele chegou sem motorista e sem gravata.

Sentou-se diante de mim.

— Eu não vim pedir para você voltar.

— Ótimo.

— Vim porque você tinha razão em uma coisa.

Esperei.

— Eu achei que a patente acabaria ficando com a empresa porque você era minha esposa.

A sinceridade quase brutal me pegou de surpresa.

Henrique continuou:

— Não pensei dessa forma conscientemente. Eu não acordava dizendo isso para mim mesmo. Mas, quando você recusava condições, eu achava que teria tempo. Quando o projeto atrasava, eu movia dinheiro para outro lugar porque imaginava que sua tecnologia continuaria ali.

— E eu?

Ele olhou para a mesa.

— Também.

Não havia desculpa boa para aquilo.

Só uma explicação feia.

— E a Lívia? — perguntei.

Henrique demorou mais.

— Começou como proximidade demais. Depois eu parei de colocar limite.

— Porque?

— Porque com ela tudo parecia mais fácil.

— Claro.

Ele ergueu o rosto.

— Não estou tentando justificar.

— Ainda bem.

— Ela elogiava as decisões que eu tomava. Você questionava.

Soltei uma pequena risada.

— Eu era diretora de pesquisa. Questionar decisão ruim fazia parte do meu trabalho.

— Eu sei agora.

— Você sabia antes. Só não gostava.

Ele aceitou o golpe sem discutir.

Foi a primeira vez que nossa conversa não se transformou numa batalha sobre quem tinha direito de definir a realidade.

Henrique falou:

— Eu não culpo mais você pela venda.

— Isso não muda o contrato.

— Eu sei.

— Nem o divórcio.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu também sei.

Naquela mesma tarde, recebi uma ligação de Marcelo.

— A revisão interna confirmou que a empresa não tinha exclusividade sobre a sua patente.

— Isso já estava nos documentos.

— Sim. Mas agora ninguém pode fingir que era uma interpretação.

— E o Henrique?

— O relatório diz que houve falhas graves de gestão. Principalmente por projetar crescimento em uma tecnologia que não estava garantida e por deslocar recursos demais para um projeto sem maturidade técnica.

— E a Lívia?

— Saiu.

— Pediu demissão?

— Fizeram um acordo de desligamento. O conselho entendeu que a posição dela ficou insustentável.

Fechei os olhos.

Aquela notícia não me deu satisfação.

Lívia tinha feito escolhas.

Henrique também.

Mas o fim dela na empresa não devolvia nada que eu havia perdido.

— E o projeto? — perguntei.

— Encerrado.

— A equipe?

— Parte será realocada.

— Bom.

Essa era a única informação que realmente me importava.

No dia seguinte, Henrique perdeu a votação.

Não foi expulso da empresa.

Continuava acionista e membro do conselho.

Mas deixou a presidência executiva.

O comunicado ao mercado falava em “reestruturação de governança e nova fase operacional”. Nenhuma linha dizia que um casamento destruído tinha participado daquilo.

Nem precisava.

As consequências profissionais dele não existiam porque eu quis puni-lo.

Existiam porque suas decisões tinham produzido riscos que o conselho já não aceitava.

Na semana seguinte, a volatilidade das ações diminuiu. A empresa não recuperou os R$ 58 bilhões perdidos de valor de mercado. Também não faliu.

Começou a fazer o que empresas reais fazem depois de uma crise séria:

cortar projetos, rever metas, substituir lideranças e tentar recuperar confiança.

Eu acompanhei de longe.

Minha vida, porém, estava finalmente andando em outra direção.

O projeto do meu centro de pesquisa ganhou forma.

Encontrei um imóvel na zona oeste de São Paulo, grande o bastante para laboratórios e pequeno o bastante para não parecer um monumento ao meu próprio ego.

Quando entrei no espaço vazio pela primeira vez, o corretor perguntou:

— A senhora quer imaginar a recepção aqui?

Olhei ao redor.

— Não.

Apontei para a área com melhor ventilação e acesso técnico.

— Quero imaginar o laboratório.

Ele riu.

— Certo.

Naquela noite, André me enviou a minuta da segunda rodada da mediação do divórcio.

Henrique havia aceitado praticamente todos os pontos de procedimento.

Restava o mais difícil:

ele precisava parar de tratar o fim do casamento como uma suspensão temporária.

E eu precisava dizer isso a ele sem deixar nenhuma porta aberta por pena.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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