
Parte 5
A primeira sessão de mediação aconteceu quatro dias depois. Até então, Henrique tinha mandado mensagens todos os dias, mas nenhuma delas falava da empresa. Eram lembranças, pedidos de conversa e frases sobre nossos anos juntos. Não respondi. Eu já tinha passado tempo demais confundindo persistência com amor.
André estava comigo na sala, mas deixou claro desde o início que eu precisava decidir o que queria. Ele podia explicar consequências jurídicas, revisar propostas e proteger meus interesses. Não escolheria por mim.
Era exatamente assim que eu queria.
Henrique chegou sozinho.
Sem Lívia.
Sem executivos.
Sem a postura de diretor-presidente.
Sentou-se do outro lado da mesa e parecia um homem que não dormia havia dias.
A mediadora começou pelos pontos práticos: moradia, investimentos, bens adquiridos durante o casamento, participações empresariais e a necessidade de uma análise específica sobre os efeitos patrimoniais da venda da patente.
Henrique tentou me olhar várias vezes.
Eu permaneci concentrada nos documentos.
Quando surgiu a questão do apartamento, ele disse:
— Marina pode ficar.
Olhei para ele.
— Não quero.
— É a nossa casa.
— Exatamente.
Pedi que o imóvel fosse tratado dentro da partilha, sem gestos simbólicos.
Não queria sair do casamento carregando a sensação de que Henrique tinha “me dado” alguma coisa.
A mediadora avançou.
Quando entramos na discussão sobre participação acionária, ele voltou a falar:
— Eu posso transferir mais ações para ela.
— Não — respondi.
Ele franziu a testa.
— Você nem ouviu a proposta.
— Porque não quero transformar o divórcio em compensação por culpa.
A mediadora interveio:
— Podemos registrar apenas que as partes ainda vão analisar a composição patrimonial.
Concordei.
Henrique, não.
— Marina, eu estou tentando facilitar.
— Então pare de oferecer coisas e comece a aceitar limites.
A frase encerrou aquela parte da discussão.
A segunda mudança importante daquele dia aconteceu quando Henrique pediu uma conversa particular durante o intervalo.
Aceitei porque havia algo que eu precisava dizer sem advogado, conselho ou mediador presente.
Fomos até um pequeno jardim interno do prédio.
Henrique ficou alguns segundos procurando as palavras.
— O conselho restringiu meus poderes de aprovação de novos projetos.
— Eu soube.
— Também criaram um comitê para revisar investimentos acima de determinado valor.
— Parece sensato.
Ele soltou uma risada amarga.
— Você fala como se não tivesse nada a ver com isso.
— Eu não votei no conselho.
— Mas tudo começou com a venda.
— Não. Tudo começou com decisões ruins. A venda tornou essas decisões impossíveis de esconder.
Henrique apoiou as mãos no encosto de uma cadeira.
— Você sabe o que mais me deixa furioso?
— Não.
— Eu achei que você nunca faria isso.
— Vender a patente?
— Ir embora.
Ali estava algo verdadeiro.
Não bonito.
Não romântico.
Mas verdadeiro.
Henrique não havia considerado a possibilidade de me perder porque minha permanência tinha virado parte da infraestrutura da vida dele.
Assim como o laboratório.
Assim como a patente.
Assim como o casamento.
— Esse foi o problema — falei.
Ele ergueu os olhos.
— Você nunca precisou ter certeza de que eu estava feliz. Só precisava ter certeza de que eu ficaria.
Henrique não respondeu.
— E a Lívia? — perguntei.
Ele tensionou a mandíbula.
— Terminou.
— Não perguntei se você terminou.
Ele me encarou.
— Então o que você quer saber?
— Nada. Foi uma pergunta retórica.
Ele soltou o ar lentamente.
— Você está diferente.
— Não. Eu só parei de facilitar para você.
Voltamos à mediação.
No fim da sessão, não havia acordo final. Mas havia progresso real. Definimos quais bens precisavam ser avaliados, quais contas seriam separadas e como seriam conduzidas as próximas reuniões.
Pela primeira vez, o divórcio tinha deixado de ser um papel dentro de uma pasta.
Tinha virado processo.
Dois dias depois, finalizei minha transição na empresa.
Entreguei senhas institucionais, relatórios e responsabilidades.
Marcelo me acompanhou até a saída.
— É estranho imaginar esse lugar sem você.
Olhei para o prédio.
— Talvez seja bom.
— Para quem?
— Para mim, com certeza.
Ele sorriu.
— E agora?
— Agora nada.
— Nada?
— Durante algum tempo.
Eu tinha passado cinco anos construindo uma tecnologia e ainda mais tempo sustentando uma vida que parecia depender de mim em todas as direções. Não precisava transformar liberdade em outro cronograma imediatamente.
Viajei por alguns dias para uma cidade pequena no litoral. Sozinha.
Sem reuniões.
Sem apresentações.
Sem internet financeira aberta o tempo inteiro.
No terceiro dia, consegui tomar café olhando para o mar sem pensar no preço das ações.
No quinto, pensei no laboratório.
Mas de outro jeito.
Não senti saudade da empresa.
Senti saudade de pesquisar.
Essa diferença mudou tudo.
Voltei para São Paulo com uma ideia que ainda não era um plano.
Não queria assumir a direção da NovaVita.
Também não queria voltar para a empresa de Henrique.
Talvez existisse uma terceira opção.
Naquela noite, abri um caderno e escrevi três palavras na primeira página:
“Pesquisa sem permissão.”
Não era nome de empresa.
Nem slogan.
Era apenas uma regra para mim mesma.
No dia seguinte, liguei para André.
— Quero conversar sobre como criar uma estrutura de pesquisa independente.
— Empresa?
— Talvez. Centro de pesquisa. Instituto. Ainda não sei.
— Usando o dinheiro da venda?
— Uma parte.
Ele fez uma pausa.
— Então vamos estruturar com calma.
— É exatamente o que eu quero.
Quando desliguei, meu celular mostrou uma notícia sobre a empresa.
O conselho havia concluído a primeira etapa da revisão interna.
O projeto de Lívia seria encerrado.
E Henrique seria convocado para uma votação extraordinária sobre sua permanência na presidência.
Fiquei olhando para a tela.
Não senti vitória.
Senti consequência.
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