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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Naquela tarde, voltei ao laboratório apenas para iniciar a transição. Não levei caixas nem fiz uma despedida dramática. Meu objetivo era separar o que ainda pertencia à rotina da empresa do que já tinha deixado de fazer parte da minha vida. O laboratório continuaria existindo sem mim. Pela primeira vez, eu também queria descobrir se conseguiria existir sem ele.

Minha equipe já sabia da renúncia. Alguns pareciam constrangidos; outros, preocupados. Ninguém mencionou a festa.

Marcelo entrou enquanto eu revisava uma lista de projetos.

— O conselho suspendeu o lançamento do projeto da Lívia.

Assenti.

— Faz sentido.

— Eles descobriram que não existe produto pronto. Só protótipos, apresentações e estudos preliminares.

— Isso eu já sabia.

— Você não parece satisfeita.

— Porque não estou.

Ele franziu a testa.

— Depois do que fizeram com você?

Fechei a planilha.

— Eu não queria ver R$ 45 milhões desperdiçados para poder dizer que estava certa. Queria que alguém tivesse feito a escolha certa antes de desperdiçar.

Marcelo ficou em silêncio.

Era uma diferença que eu mesma demorara para compreender. Durante muito tempo, imaginei que ser reconhecida significaria finalmente ver todos admitirem que eu estava certa. Agora percebia que reconhecimento tardio não devolvia anos.

Às quatro da tarde, recebi um e-mail do setor jurídico da empresa solicitando formalmente uma reunião técnica para mapear os projetos que tinham dependência direta da minha atuação.

Aceitei.

Não porque Henrique tivesse pedido.

Porque abandonar tarefas sem transição prejudicaria pessoas que não tinham participação alguma no que aconteceu.

Durante duas horas, sentei com engenheiros, pesquisadores e responsáveis regulatórios. Expliquei o estágio de cada projeto, indiquei documentação, responsabilidades e riscos. Quando perguntaram sobre a tecnologia vendida, fui clara:

— Essa parte não está mais sob meu controle. Tudo relacionado à patente deve ser tratado com a NovaVita.

Ninguém insistiu.

No fim da reunião, Lívia apareceu na porta.

A sala esvaziou rapidamente.

Ela entrou e fechou a porta.

— Você conseguiu o que queria.

— O que exatamente?

— Me tirar do projeto. Colocar o conselho contra o Henrique. Fazer todo mundo me tratar como se eu tivesse roubado alguma coisa.

Levantei os olhos do notebook.

— Eu não disse que você roubou nada.

— Não precisava.

— Então talvez o problema não seja o que eu disse.

Ela apertou os lábios.

— Você sempre me odiou.

— Não.

A resposta pareceu irritá-la mais.

— Para de fingir superioridade.

— Não estou fingindo. Eu simplesmente nunca tive tempo para competir com você.

— Competir?

— Pela atenção do Henrique.

Lívia cruzou os braços.

— Se você tivesse prestado mais atenção ao seu casamento, talvez ele não tivesse procurado isso em outro lugar.

A frase veio limpa.

Sem grito.

Sem hesitação.

Eu já sabia o que ela era na minha história. Ainda assim, ouvir aquilo diretamente dela produziu uma sensação estranha. Não foi choque. Foi confirmação de uma ferida que já existia.

— Então é isso que você diz a si mesma?

Ela ergueu o queixo.

— Eu não obriguei ninguém.

— Nisso nós concordamos.

Lívia pareceu esperar uma cena.

Talvez um tapa.

Talvez lágrimas.

Talvez perguntas sobre quando tinha começado.

Eu não dei nada disso.

— Você pode ter entrado pela porta que ele abriu — falei. — Mas foi ele quem abriu.

A segurança no rosto dela vacilou.

— Você não vai perguntar nada?

— Não.

— Nem quanto tempo?

— Não muda a decisão que eu já tomei.

Ela ficou desconcertada.

Pela primeira vez, o caso entre eles deixava de ser uma arma capaz de me manter presa ao passado.

Meu telefone tocou.

Era André.

Saí da sala e atendi no corredor.

— Henrique respondeu à notificação do divórcio — informou.

— E?

— Ele quer tentar uma mediação antes de transformar tudo em disputa judicial.

— Isso é ruim?

— Não necessariamente. Pode ser mais rápido e menos destrutivo, desde que você queira.

Pensei no apartamento, nos investimentos comuns, nas contas, na empresa, na patente e no fato de que nenhum desses assuntos deveria ser decidido em uma briga de corredor.

— Eu aceito conversar.

— Tem certeza?

— Conversar não significa voltar atrás.

Depois da ligação, encontrei Henrique me esperando perto dos elevadores.

O rosto dele estava mais cansado do que no dia anterior.

— A Lívia falou com você?

— Falou.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Marina…

— Não começa com uma explicação vaga.

— Eu ia contar.

— Quando?

Ele não respondeu.

— Depois da festa? Depois do terceiro brinde? Depois de comprar outro carro?

— Não foi assim.

— Então use palavras claras.

Henrique passou a mão pelo rosto.

— Eu tive um caso com ela.

Não houve surpresa.

Só uma espécie de silêncio interno.

A confirmação não abriu uma ferida nova. Apenas colocou nome naquela que já estava ali.

— Certo.

Ele me encarou.

— Só isso?

— O que você esperava?

— Não sei.

— Que eu gritasse? Que perguntasse se você ainda me ama? Que tentasse provar que sou melhor?

Henrique desviou os olhos.

— Eu errei.

— Sim.

— Mas isso não apaga tudo o que nós tivemos.

— Não apaga.

A resposta o fez olhar de novo para mim.

— Só não é suficiente para salvar o que você destruiu.

O elevador abriu.

Antes de entrar, tirei minha aliança.

Não joguei no chão.

Não entreguei a ele.

Apenas coloquei dentro da bolsa.

— André vai marcar a mediação — falei. — Se você realmente quer resolver alguma coisa, apareça disposto a tratar o divórcio como adulto.

— E nós?

Segurei a porta do elevador.

— “Nós” é exatamente o assunto que estamos encerrando.

As portas se fecharam entre nós.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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