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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Na véspera da assinatura do divórcio, acordei antes do despertador. Por alguns minutos, fiquei deitada olhando para o teto do apartamento temporário que tinha alugado desde a separação.

Não senti medo.

Também não senti felicidade.

Senti a seriedade de encerrar uma vida que tinha sido real.

Henrique não tinha sido um estranho durante todos aqueles anos.

Nós tivemos dias bons.

Construímos projetos.

Compartilhamos planos.

Rimos.

Falhamos.

O problema era justamente esse: aceitar o fim não exigia fingir que tudo tinha sido mentira.

Exigia reconhecer que o que existiu não justificava continuar aceitando o que passou a existir depois.

No instituto, tentei trabalhar normalmente.

Não consegui.

Por volta das dez, fechei o notebook.

A pesquisadora que eu havia contratado me viu levantar.

— Algum problema?

— Tenho uma assinatura importante amanhã.

Ela sorriu.

— Contrato?

Pensei um instante.

— Mais ou menos.

Não expliquei.

Passei o restante da manhã revisando apenas decisões do centro que realmente precisavam de mim. Depois fui embora cedo.

Na saída, encontrei Marcelo.

Ele tinha vindo conhecer o instituto.

— Então é aqui.

— É.

Ele olhou para as bancadas.

— Menor do que imaginei.

— Obrigada.

Marcelo riu.

— Isso foi elogio?

— Para mim, foi.

Ele caminhou pelo corredor.

— Lá na empresa, tudo precisava parecer maior do que realmente era.

— Eu sei.

— Aqui parece o contrário.

— Espero continuar assim.

Sentamos na pequena sala de reuniões.

Marcelo me contou que a empresa começava a estabilizar operações. O novo presidente havia interrompido a prática de prometer produtos antes de validação técnica, e várias equipes estavam sendo reorganizadas.

— O Henrique quase não aparece mais — disse.

— Ele não tem função executiva.

— Eu sei. Ainda parece estranho.

— Vocês vão se acostumar.

Marcelo ficou sério.

— Você sente alguma coisa vendo tudo isso?

— O quê?

— A empresa seguindo sem você.

Pensei.

— Alívio.

— Só?

— E curiosidade.

— Nenhuma vontade de voltar?

— Nenhuma.

A resposta saiu fácil.

Isso me surpreendeu mais do que deveria.

Quando Marcelo foi embora, recebi uma mensagem de André confirmando horário e documentos.

No dia seguinte, encontrei Henrique no escritório da mediação.

Ele estava sozinho novamente.

A sala parecia menor do que nas reuniões anteriores.

A mediadora revisou os últimos termos.

A divisão patrimonial tinha sido definida após avaliações e negociações. Não era necessário transformar cada número numa batalha. Nenhum de nós sairia da sala exatamente com tudo que desejara no início, mas ambos sairíamos com um acordo juridicamente claro.

A cessão da patente continuava intacta.

A venda não seria revertida.

A vida empresarial de Henrique seguiria separada.

Meu novo instituto não teria vínculo com a antiga empresa.

As últimas conexões estavam sendo cortadas de forma limpa.

A mediadora colocou os documentos diante de nós.

— Antes de assinarem, preciso confirmar mais uma vez: os dois estão de acordo com os termos?

— Sim — respondi.

Henrique olhou para mim.

— Sim.

Peguei a caneta.

Antes que eu assinasse, ele disse:

— Marina.

Parei.

A mediadora levantou os olhos, mas não interferiu.

Henrique respirou fundo.

— Eu preciso dizer uma coisa antes.

Esperei.

— Quando você vendeu a patente, eu achei que estava tentando me destruir.

Não respondi.

— Depois achei que queria dinheiro.

Ele sorriu sem humor.

— O que era ridículo, considerando que o dinheiro já era seu.

Continuei esperando.

— Depois pensei que você estava me punindo pela Lívia.

A mão dele repousou sobre o documento.

— Agora eu entendo que você simplesmente parou de esperar que eu mudasse.

A frase me atingiu de um jeito inesperado.

Não porque trouxesse uma revelação.

Mas porque era a primeira vez que ele descrevia corretamente o que eu tinha feito.

— Sim — respondi.

Henrique assentiu.

— Eu queria ter entendido antes.

— Eu também.

Não havia mais nada a acrescentar.

Assinei.

Ele assinou depois.

A mediadora recolheu os documentos para os procedimentos finais.

A nossa história jurídica ainda precisava cumprir as formalidades de registro e homologação cabíveis, mas nossa decisão estava tomada.

Quando saímos do prédio, Henrique caminhou comigo até a calçada.

— Então é isso.

— É.

— Você vai ficar bem?

Olhei para ele.

Durante anos, eu teria respondido alguma coisa para tranquilizá-lo.

Desta vez, respondi a verdade.

— Eu já estou ficando.

Henrique fez que sim.

— Eu também espero ficar.

— Espero que fique.

Não era amor romântico.

Não era reconciliação.

Era apenas desejar que uma pessoa com quem eu tinha dividido parte da vida aprendesse alguma coisa com a própria queda.

Nos despedimos ali.

Sem abraço.

Sem promessa.

Sem “quem sabe um dia”.

Eu caminhei até meu carro.

Ainda usava o mesmo sedã branco de sete anos atrás.

Poderia comprar qualquer carro que quisesse.

Não tinha pressa.

Quando entrei, vi uma notificação do instituto.

O primeiro projeto interno tinha sido aprovado pelo comitê técnico.

Não era revolucionário.

Não valia bilhões.

Era um estudo pequeno para melhorar a confiabilidade de um sistema de triagem.

Sorri.

Toquei em “confirmar participação”.

O divórcio encerrava uma parte da minha vida.

Aquele projeto abria outra.

E, pela primeira vez, as duas coisas não dependiam da decisão de Henrique.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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