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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Atendi no quarto toque. Do outro lado, a música da festa ainda estava alta, mas a respiração de Henrique era mais alta do que tudo. — Marina, onde você está? — No estacionamento. — Não sai daí.
— Por quê? — perguntei. Houve uma pausa curta, seguida por uma explosão. — Porque a NovaVita está apresentando a nossa tecnologia! Você sabe o que está acontecendo com a empresa? — Sei.
— Então volta agora. O conselho inteiro está procurando por você. — Henrique, vocês passaram a noite inteira dizendo diante de centenas de pessoas quem era a responsável pelo sucesso da empresa. Achei que conseguiriam resolver sem a mulher que fica “trancada no laboratório”.
Ele abaixou a voz. — Não brinca com isso. Aquela patente pertence à empresa. — Não. — Marina… — Ela nunca pertenceu. A documentação está muito clara.
Do outro lado, ouvi passos rápidos e uma porta batendo. Henrique devia ter finalmente saído do palco. — Você vendeu? — Vendi. — Para a NovaVita? — Sim. — Por quanto?
Olhei para o comprovante no celular. — R$ 2,2 bilhões. Henrique ficou mudo. Pela primeira vez naquela noite, o barulho ao redor dele pareceu desaparecer.
— Você perdeu a cabeça. — Foi exatamente isso que você veio me perguntar? — Eu quero saber como você pôde fazer uma coisa dessas sem me consultar. — Eu não precisava da sua autorização.
— Eu sou seu marido. — Justamente. E foi por acreditar que essa frase resolvia tudo que você chegou até aqui.
Ouvi a porta do elevador do estacionamento abrir ao longe. Poucos segundos depois, Henrique apareceu. Ainda estava com o terno da festa, mas já não restava nada da expressão satisfeita que ele exibia no palco. O rosto estava tenso e os olhos, vermelhos de raiva.
Ele veio até o carro e bateu a mão no teto. — Abre. Baixei o vidro. — Não precisa bater no meu carro. — Mostra o contrato. — Não. — Marina, isso pode destruir anos de trabalho.
— Engraçado. Foi exatamente o que eu pensei quando você cortou o orçamento do meu projeto e entregou R$ 45 milhões para a Lívia montar protótipos de apresentação.
Henrique apertou a mandíbula. — Aquilo foi uma decisão empresarial. — E a minha também. — Não compara as duas coisas. — Por quê? Porque a sua decisão podia me prejudicar, mas a minha não podia prejudicar você?
Ele estendeu a mão pela janela. — Me dá a pasta. Fechei o vidro até a metade. — Não.
Henrique me encarou como se estivesse diante de uma pessoa que não conhecia. Talvez estivesse. Durante anos, ele tinha conhecido a versão de mim que preferia terminar um relatório a vencer uma discussão.
— Você está fazendo isso por causa da Lívia? — perguntou. — Não. — Por causa do brinde? — Também não. — Então por quê?
— Porque você deixou muito claro, durante muito tempo, que meu trabalho só tinha valor enquanto estivesse à sua disposição.
O celular dele tocou. Henrique olhou para a tela e rejeitou a chamada. Um segundo depois, outra entrou. Depois outra.
— O conselho está enlouquecendo — disse ele. — Temos investidores exigindo explicações. A imprensa já está perguntando por que a nossa principal tecnologia apareceu na NovaVita.
— Então explique a verdade. — Que verdade? — Que vocês nunca tiveram aquela patente.
Henrique respirou fundo. — Nós investimos em você. — Não naquela patente do jeito que você está tentando fazer parecer. E a documentação existe exatamente para evitar essa conversa.
— Você pesquisou dentro da empresa. — E a titularidade foi definida formalmente antes de qualquer tentativa de licenciamento exclusivo. Você participou dessas discussões.
Ele desviou o olhar por um instante. Pequeno demais para parecer confissão, longo demais para parecer surpresa.
Abri a pasta, retirei o pedido de divórcio e o coloquei pela abertura da janela.
Henrique não pegou.
— O que é isso?
— Leia.
Os olhos dele desceram até o título.
A raiva em seu rosto mudou de forma.
— Você está pedindo o divórcio?
— Já pedi.
— Por causa de hoje?
— Hoje só foi o dia em que você finalmente viu uma consequência.
Ele segurou as folhas. — Você está misturando casamento com empresa. — Não. Fui eu quem demorou anos para separar as duas coisas. Você nunca separou.
Uma nova chamada apareceu no celular dele. Desta vez, Henrique atendeu. Não precisei ouvir tudo. A voz do conselheiro do outro lado estava alta o suficiente.
“Henrique, sobe agora. A reunião vai começar.”
Ele fechou os olhos.
— Estou indo.
Desligou e voltou a olhar para mim.
— Você quer dinheiro? Participação? Um cargo? O que você quer?
A pergunta doeu mais do que eu esperava.
Não porque eu quisesse alguma daquelas coisas.
Mas porque, depois de tudo, ele ainda acreditava que qualquer decisão minha precisava esconder uma negociação.
— Eu quero sair.
— Marina…
— Da empresa. Do casamento. Dessa vida em que você decide até onde eu posso existir e depois chama isso de parceria.
Henrique segurou a porta quando tentei abri-la.
— Não faz isso hoje.
— Eu já fiz.
— Eu não vou assinar esse divórcio.
Olhei para a mão dele na porta.
— Então o processo segue do jeito que tiver de seguir.
— Você acha que acabou?
— Não.
Ele pareceu se agarrar à palavra.
Completei:
— Eu acho que está só começando.
O telefone dele tocou outra vez.
No estacionamento vazio, a voz do conselheiro saiu pelo viva-voz antes mesmo que Henrique conseguisse desligar:
— Henrique, entra nessa reunião agora. O conselho quer saber por que você administrou a empresa como se tivesse direitos sobre uma patente que nunca foram formalizados.
Desta vez, ele não teve resposta.
Soltei a porta das mãos dele, liguei o carro e fui embora.

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