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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Marcelo ficou parado do lado de fora.

Durante alguns segundos, vi nele o homem com quem eu havia dividido aniversários, viagens curtas, contas atrasadas, domingos preguiçosos e planos que, até três dias antes, pareciam sólidos.

Era justamente isso que tornava tudo mais difícil.

Pessoas que nos machucam não deixam de carregar as memórias dos dias em que nos fizeram felizes.

— Eu não queria roubar você — disse.

— Então por que mentiu sobre a casa?

— Porque Carlos precisava do dinheiro por poucos dias.

— E você decidiu que podia usar o meu.

— Nosso.

— Pare de usar essa palavra como autorização.

Ele passou a mão pela nuca.

— Eu ia devolver.

— Com o quê?

Marcelo ficou em silêncio.

Eu não precisava de mais uma discussão circular.

— Vá embora.

— Ana, espera.

— Se houver algo relevante para o processo, fale com minha advogada.

— Você vai transformar nosso casamento numa guerra?

— Não. Eu estou tentando impedir que ele continue sendo uma mentira.

Fechei o portão.

Naquela noite, chorei.

Não de choque.

Não porque ainda duvidasse do que fazer.

Chorei pelo casamento que eu pensava ter tido.

A diferença era importante.

No dia seguinte, Clara prestou novo depoimento no procedimento interno do banco. A procuração foi submetida a uma análise documental mais detalhada, e as autoridades requisitaram oficialmente as imagens preservadas.

Eu recebi apenas as informações que podiam ser compartilhadas comigo.

A assinatura parecia ter sido reproduzida a partir de um padrão real.

A impressão digital não correspondia à minha.

O documento, portanto, não poderia ser aceito como autorização válida.

O banco manteve o cofre bloqueado.

Também confirmou que a transferência de R$ 1,9 milhão não havia sido concluída antes da contestação. O valor continuava sob minha disponibilidade depois da reversão do processamento.

Quando vi o saldo novamente, não senti alegria.

Dinheiro recuperado não devolvia confiança.

Mas retirava de Marcelo e Carlos a vantagem que tentaram criar.

Mariana recomendou que eu não movimentasse o valor por impulso. Fiz apenas o necessário para garantir que nenhuma autorização anterior permitisse nova operação sem minha confirmação.

À tarde, fui chamada para reconhecer formalmente as imagens da manhã anterior.

Marcelo aparecia ao lado de Carlos desde a entrada da agência.

Não era alguém que chegara por acaso.

Ele acompanhava meu pai.

Em determinado momento, era Marcelo quem carregava a pasta onde estava a procuração.

Aquilo mudou o peso do que ele vinha dizendo.

Quando o encontrei novamente, dois dias depois, numa reunião entre advogados para organizar questões práticas da separação, coloquei uma pergunta objetiva.

— Você sabia que aquela pasta continha a procuração?

Marcelo olhou para o advogado dele antes de responder.

— Sabia que havia uma autorização.

— Em meu nome?

— Sim.

— Você me perguntou se eu tinha assinado?

— Carlos disse que você havia autorizado antes.

— E você acreditou que eu autorizei meu pai oficialmente morto a abrir o cofre da minha mãe, sem comentar nada com você?

Ele apertou os lábios.

— Quando você coloca assim…

— Eu não estou colocando de nenhum jeito. Estou descrevendo.

O advogado dele interveio, lembrando que a reunião não era interrogatório.

Concordei.

Eu não precisava arrancar uma confissão.

Os documentos e as imagens seriam analisados pelas pessoas responsáveis.

Meu objetivo naquele encontro era outro.

Separei nossas despesas, defini temporariamente o pagamento das obrigações comuns e deixei claro que não autorizava novas operações em meu nome.

Não tentei retirar de Marcelo bens que eram dele.

Não pedi que fosse expulso da casa antes de qualquer acordo.

Eu não queria vingança.

Queria limites.

Dois dias depois, surgiu a primeira mudança real na investigação sobre o passado.

Não veio de um documento misterioso.

Veio do cruzamento de registros que já existiam.

O pedido de Carlos para regularizar sua identidade provocara a reabertura administrativa das circunstâncias da suposta morte. As autoridades começaram a revisar os laudos antigos e a cadeia de identificação do corpo encontrado no galpão.

Não havia conclusão ainda.

Mas a existência do próprio Carlos tornava impossível manter aquele registro como se nada tivesse acontecido.

Ao mesmo tempo, Mariana conseguiu que o conteúdo do cofre fosse preservado até que se definisse uma forma segura de abertura ligada ao espólio de minha mãe e à apuração da procuração falsa.

Eu não teria acesso sozinha.

Carlos também não.

Era exatamente o que eu queria.

Clara me encontrou do lado de fora do banco naquela tarde.

— Minha mãe chorou quando contei que Carlos realmente estava vivo.

— Ela sabia da orientação do seu pai?

— Sabia. Foi ela quem guardou a foto.

Sentamos num banco da praça em frente à agência.

— Clara, seu pai falou alguma vez sobre minha mãe?

— Pouquíssimo. Eu era criança. Minha mãe só lembra que ele dizia que Vera estava começando a perceber que alguma coisa nas contas não fechava.

Aquilo combinava com a anotação que minha mãe deixara no envelope.

Não provava mais do que isso.

Mas duas fontes distintas apontavam na mesma direção.

— Você acha que seu pai está morto? — perguntei.

Clara olhou para a rua.

— Durante anos eu achei. Depois passei a achar que talvez estivesse vivo. Hoje eu não sei mais o que pensar.

Eu entendi melhor do que gostaria.

No fim da tarde, recebi uma nova comunicação da polícia.

Marcelo havia sido chamado para prestar esclarecimentos formais sobre a tentativa de abertura do cofre e sobre a origem da procuração.

Dessa vez, ele não me ligou.

Horas depois, porém, Mariana recebeu do advogado dele um pedido para conversar sobre colaboração.

— Colaboração em quê? — perguntei.

— Ele diz que quer esclarecer como conheceu Carlos.

Senti a mandíbula endurecer.

— Agora?

— Agora que sabe que as imagens foram preservadas.

A resposta de Mariana não tinha julgamento. Era apenas um fato.

Aceitei ouvir apenas se fosse dentro do procedimento correto.

Nada de encontros privados.

Nada de promessas.

Nada de trocar informação por reconciliação.

No dia seguinte, Marcelo prestou depoimento.

Eu não estava presente.

Só soube do conteúdo quando parte das informações passou a integrar formalmente a apuração.

Carlos havia procurado Marcelo cinco meses antes.

Não fora por acaso.

Meu pai sabia quem era meu marido.

Sabia onde trabalhava.

E sabia que, através dele, poderia chegar até mim sem se apresentar diretamente.

Marcelo admitiu que manteve os encontros escondidos.

Também confirmou que ajudou a criar a estrutura da Viana Costa Participações.

Ainda insistia que acreditava estar ajudando Carlos a regularizar patrimônio antigo.

Mas havia uma pergunta que ele não conseguiu explicar de maneira convincente:

Por que um homem tentando apenas regularizar a própria vida precisaria usar uma autorização em nome da filha sem que ela soubesse?

Ao ler o resumo, senti uma calma estranha.

A essa altura, eu já não precisava imaginar a resposta.

Precisava esperar que os fatos fossem apurados.

E precisava continuar tomando minhas próprias decisões.

Naquela mesma semana, veio a autorização para que o cofre 317 fosse aberto sob acompanhamento formal, com registro do conteúdo e presença das partes legalmente interessadas.

Carlos seria comunicado.

Eu também.

Quando Mariana me deu a notícia, fiquei olhando para ela.

Durante três dias, todos haviam falado sobre o que poderia estar dentro daquele cofre.

Agora, finalmente, ninguém precisaria imaginar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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