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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Parte 1

Na noite em que minha cunhada deu à luz gêmeos, eu estava agachada na cozinha, limpando o mingau que tinha transbordado e secado ao redor do fogão.

Caio saiu da sala quase correndo, o celular na mão e o rosto vermelho de alegria.

— A Clara teve os bebês! Dois meninos! Ela e os pequenos estão bem!

Lavei as mãos depressa e me aproximei para ver a chamada de vídeo.

Clara estava pálida. Os lábios, ressecados. Ao lado da cama do hospital, dois recém-nascidos enrolados em mantas deixavam à mostra apenas metade dos rostinhos.

— Marina…

A voz dela saiu fraca.

— O médico disse que vai avaliar de novo depois de amanhã. Se estiver tudo bem, talvez eu tenha alta em cinco dias.

Eu ia perguntar como estava a dor quando Caio falou primeiro:

— Quando sair, vem passar o resguardo aqui em casa. A gente mora perto da maternidade, fica mais fácil para os retornos. E o nosso quarto pega bastante sol.

Clara hesitou.

— Caio… você já conversou com a Marina?

— Conversar o quê?

Ele virou a câmera para mim com um sorriso quase orgulhoso.

— Minha esposa dá conta de tudo. Cozinha bem, organiza a casa rápido, resolve qualquer coisa. Você traz os meninos e fica tranquila. Não precisa se preocupar com nada.

O pano ainda pingava na minha mão.

Do outro lado da chamada, minha sogra concordou imediatamente:

— Claro. Somos família. Para que tanta cerimônia? A Marina é cuidadosa. Melhor do que deixar tudo na mão de alguém de fora.

Olhei para Caio.

— Você acabou de prometer o tempo de quem?

O sorriso dele travou.

— Não começa com isso agora. A Clara acabou de dar à luz.

— Eu não estou começando nada. Se ela precisar ficar aqui, não tenho problema nenhum. O que você acabou de dizer é que eu vou cozinhar, limpar a casa e ajudar a cuidar de dois recém-nascidos. Em que momento você me perguntou se eu podia fazer isso?

Clara se apressou:

— Marina, se for complicado, o Rafael e eu damos outro jeito.

Caio afastou o celular do rosto.

— Você precisa falar disso na frente dela? Ela está numa cama de hospital.

— Eu estou falando com você, não culpando a Clara.

Minha sogra ouviu e fechou a expressão.

— É só um mês. No máximo algumas semanas. Você vai fazer um pouco mais de comida, ajudar sua cunhada… Depois ela vai lembrar disso para o resto da vida.

Olhei para a crosta de mingau no fogão e perdi a vontade de explicar.

Quantas vezes dois recém-nascidos mamavam por dia?

Quantas mamadeiras precisariam ser lavadas e esterilizadas?

Quem prepararia as refeições de uma mulher recém-operada?

Quem levantaria quando os dois chorassem no meio da madrugada?

Na boca deles, tudo aquilo tinha virado apenas:

“Fazer um pouco mais de comida.”

Caio encerrou a chamada e largou o celular sobre a mesa.

— Marina, o que deu em você hoje? Minha irmã teve dois filhos. Era para ser uma coisa feliz.

— E é. Se você quer ajudá-la, eu apoio. O que você pode oferecer é a sua própria ajuda. Não a minha.

— Eu sou seu marido. Desde quando marido e mulher precisam separar tudo entre “meu” e “seu”?

— Então amanhã você pode ir trabalhar no meu lugar. Nosso dinheiro também é dos dois.

Ele ficou sem resposta por um instante.

— Você está distorcendo as coisas.

— Não. O seu tempo é seu. O meu tempo também é meu.

Caio puxou uma cadeira.

— O resguardo vai durar, no máximo, 42 dias. A gente aperta um pouco e passa.

Eu ri, sem humor.

— Então você sabe que alguém vai precisar se apertar.

Naquela noite, não conversamos mais.

Às duas da manhã, acordei com a voz dele na sala.

Primeiro, Caio discutiu com minha sogra qual modelo de berço comprar. Depois mandou um áudio para Rafael, dizendo que podia trazer as coisas de Clara diretamente para nossa casa quando ela recebesse alta.

Ele tinha pensado em tudo.

Até onde colocar os dois berços.

Só não ouvi Caio mencionar uma única coisa:

o que ele próprio faria.

Na manhã seguinte, recebi uma ligação do setor de Recursos Humanos.

Três meses antes, a empresa em que eu trabalhava havia iniciado uma nova linha de produção numa unidade na Alemanha. Precisavam enviar alguém da área de qualidade para permanecer lá por três anos.

Meu nome estava entre os primeiros indicados.

Eu só ainda não tinha assinado a confirmação final.

— Marina, hoje é o último dia — disse a gerente de RH. — Se você recusar, vamos chamar a segunda pessoa da lista.

Fui até a varanda.

Pela porta de vidro, vi Caio retirando caixas do meu escritório.

— Eu aceito.

Houve uma pequena pausa do outro lado.

— Tem certeza? Antes da mudança, você precisa passar dez dias em São Paulo para treinamento. Depois, em cerca de duas semanas, embarca para a Alemanha.

— Tenho certeza. Pode mandar a confirmação.

Quando desliguei, tirei do alto do armário a mala grande.

Uma das rodinhas estava ruim e fazia um ruído seco toda vez que atravessava o piso.

Caio entrou carregando uma pilha dos meus livros técnicos.

— Vou tirar suas coisas do escritório. A Clara fica no nosso quarto, nós dormimos aqui por enquanto, e à noite minha mãe pode colocar um colchão no chão.

Abri a mala e comecei a dobrar minhas roupas.

Ele parou.

— O que você está fazendo?

— Arrumando a mala.

— Vai para a casa da sua mãe?

Alisei a manga de um casaco antes de colocá-lo dentro.

— A empresa vai me mandar para a Europa por três anos. Já que você prometeu cuidar da Clara, espero que cuide muito bem dela.

Caio me encarou por alguns segundos.

Então riu.

— Para com isso. Você está usando trabalho para me assustar?

Abri o documento de confirmação no celular e o coloquei diante dele.

Minha assinatura eletrônica estava no final.

A data também.

O sorriso desapareceu.

— Você está falando sério?

— Estou.

— Só porque eu falei para a Clara ficar aqui, você vai fugir para a Europa por três anos?

— Essa oportunidade apareceu há três meses. Eu não tinha assinado porque não queria ficar tanto tempo longe da nossa vida.

Levantei os olhos.

— Só que ontem eu percebi que talvez a vida da qual eu não queria me afastar não me considere realmente parte dela.

— Como assim não considera? Justamente porque você é da família eu tive liberdade para dizer que a gente ajudaria.

— Você teve liberdade porque quem faria a maior parte do trabalho não seria você.

Ele rolou o documento para cima e para baixo.

— Dá para cancelar?

— Dá.

— Então cancela.

— Não vou cancelar.

— Marina, isso é vingança.

— Não. A oportunidade já existia. Você apenas me fez enxergar uma coisa que eu estava ignorando.

Respirei fundo.

— Eu não preciso abrir mão dela por alguém que acha normal distribuir meu tempo sem me consultar.

Caio fechou a tampa da mala com força.

— Você não vai.

Segurei a tampa e a abri novamente.

— Você não decide isso por mim.

— E a Clara? O banheiro do apartamento dela está com infiltração, as paredes estão em obra, os meninos vão precisar voltar ao hospital várias vezes. Você sabe que ela não tem onde ficar agora.

— Ela pode ficar aqui. Eu nunca disse que não. O apartamento é nosso, e eu concordo em ceder o quarto.

— E quem vai cozinhar?

— Você.

— Eu trabalho.

— Eu também.

— Eu não sei preparar comida para uma mulher no pós-parto.

— Aprende.

— E quando os bebês chorarem à noite?

— Você, sua mãe e Rafael podem dividir.

— Minha mãe tem dor nas costas. Rafael vai ter poucos dias de licença.

— Então contratem ajuda profissional.

Caio passou as duas mãos pelo rosto, irritado.

— Uma profissional para ajudar com dois recém-nascidos pode custar mais de R$ 10 mil por mês. O dinheiro cai do céu?

— Então vocês vão precisar compensar com o próprio tempo.

Fechei uma necessaire.

— O que não existe é querer economizar dinheiro, economizar esforço e jogar toda a conta nas minhas costas.

Ele andou duas vezes pelo quarto e diminuiu a voz.

— Amor, para de fazer isso. São três anos. Três anos, não três dias. Você realmente consegue simplesmente deixar nosso casamento de lado?

— Ontem, quando você decidiu que eu dedicaria 42 dias à sua irmã, você também não perguntou se eu podia deixar meu trabalho de lado.

— Não é a mesma coisa.

— Para mim, é.

Às dez da manhã, minha sogra chegou com uma sacola cheia de ovos.

Assim que viu a mala na sala, o rosto mudou.

— Marina, a Clara nem saiu do hospital e você já está indo embora?

— É uma transferência de trabalho.

— Por que não aconteceu antes? Por que justamente agora? Caio falou que você estava fazendo isso por raiva, mas eu achei que ele estivesse exagerando.

Mostrei o documento.

Ela mal prestou atenção à descrição do cargo. Os olhos ficaram presos em uma linha:

“36 meses”.

— O que uma mulher casada vai fazer tão longe? Não é como se você estivesse desempregada.

— É uma oportunidade de crescimento profissional.

— Crescer no trabalho é mais importante do que a família?

Em vez de responder, perguntei:

— Quando Clara vier para cá, qual parte a senhora vai assumir?

Ela piscou.

— Durante o dia posso vir ajudar. Faço sopa, seguro os bebês…

— E à noite?

— Na minha idade? Eu não aguento ficar virando madrugada.

— Então Caio cuida à noite?

— Caio trabalha no dia seguinte.

— E Rafael?

— Rafael trabalha em obra. Também não pode prejudicar o emprego.

Peguei uma folha e dividi em quatro partes.

— Então vamos escrever. Comida, roupa, limpeza, esterilização das mamadeiras, compras, consultas e os turnos da madrugada. Quem fica responsável por quê?

Minha sogra franziu a testa.

— Família não precisa ficar contabilizando cada coisinha desse jeito.

— Se ninguém combinar nada, tudo acaba caindo sobre a pessoa que tem mais dificuldade de dizer não.

Caio arrancou a caneta da minha mão.

— Chega. Para de transformar a nossa casa numa reunião de empresa.

Olhei para ele.

— Olha só… você nem quer colocar seu nome ao lado das tarefas, mas acha que eu deveria concordar imediatamente.

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