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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Nos meses seguintes, nossa relação deixou de girar em torno da pergunta “você vai voltar?” e passou a girar em torno de outra, bem mais difícil: “se você voltar, o que precisa ser diferente?”

Não havia resposta rápida.

Eu continuava na Alemanha. O trabalho ficou mais exigente quando a nova linha entrou em produção. Alguns dias começavam antes das sete e terminavam depois das oito. Eu tomava decisões que afetavam dezenas de pessoas e assinava relatórios que antes passariam por três níveis acima de mim.

Caio continuava em Campinas.

Falávamos toda semana, como tínhamos combinado.

Às vezes a conversa era boa.

Às vezes parecia trabalho.

Em outras, terminava com um dos dois irritado.

Mas havia uma diferença importante: nós parávamos de usar cada conflito como prova de que o casamento estava condenado.

Numa dessas conversas, Caio me contou que tinha discutido com a mãe.

— Ela disse que você me colocou contra a família.

— E o que você respondeu?

— Que eu passei anos colocando você a favor da família sem perguntar se você queria.

Fiquei em silêncio.

— Ela ficou furiosa — ele acrescentou.

— Imagino.

— Disse que sempre te tratou como filha.

— Ela não é uma pessoa ruim, Caio.

— Eu sei.

— E eu não quero que você transforme sua mãe na culpada pelo que você fez.

Ele respirou fundo.

— Você acha que estou fazendo isso?

— Às vezes. É fácil dizer que você aprendeu assim em casa. Mais difícil é dizer que continuou fazendo porque era confortável.

Caio demorou a responder.

— Era confortável.

A honestidade me desarmou.

— Obrigada por dizer.

— Não melhora muito.

— Não. Mas torna a conversa real.

Algum tempo depois, ele veio à Alemanha pela primeira vez.

Não foi uma decisão impulsiva. Guardou dinheiro, organizou férias no trabalho e comprou a passagem com antecedência. Ficaria três semanas comigo.

Quando saiu do aeroporto de Stuttgart, parecia deslocado e cansado.

— Então é aqui que você me trocou — brincou.

— Se eu tivesse te trocado pela Alemanha, teria escolhido um lugar com menos chuva.

Ele riu e me abraçou.

Nossa convivência começou estranha.

Eu já tinha uma rotina própria.

Sabia onde comprar comida, qual trem pegar, como organizar meu apartamento, em que dia lavar roupa, como funcionavam meus horários.

Caio chegou como visitante.

Na primeira manhã, perguntou:

— Onde está o café?

A pergunta era inocente, mas alguma coisa em mim reagiu.

— No armário.

Ele percebeu meu tom.

— Foi só uma pergunta.

— Eu sei.

Ficamos quietos.

Depois ele abriu três armários até encontrar.

À noite, conversamos sobre aquilo.

— Você ficou irritada porque eu perguntei onde estava o café?

— Fiquei irritada porque meu corpo reconheceu a sensação antes da minha cabeça. A sensação de que eu seria novamente a central de informações da casa.

— Mas eu estava num apartamento que nunca tinha visto.

— Eu sei. Por isso não foi justo descontar em você.

Ele me olhou.

— Então eu também posso dizer quando você fizer alguma coisa injusta?

— Claro.

— Isso é novo.

— Para nós dois.

A visita acabou sendo menos romântica e mais útil.

Caio cozinhou algumas noites.

Eu cozinhei outras.

Ele foi ao mercado sozinho depois de dois dias.

Lavou roupa sem perguntar qual programa usar.

Quando eu chegava tarde, não ficava esperando como se minha chegada fosse o início da noite dele.

Em troca, eu comecei a perceber outra coisa: durante muito tempo, eu tinha acumulado ressentimento silenciosamente e depois interpretava qualquer pergunta dele como prova de que nada mudaria.

Isso também precisava ser revisto.

Numa sexta-feira, fomos jantar num restaurante pequeno perto do apartamento.

Caio ficou olhando para mim enquanto eu falava sobre um problema técnico na fábrica.

— O quê? — perguntei.

— Nada.

— Você está me olhando estranho.

— Eu nunca ouvi você falar tanto do seu trabalho.

— Eu sempre falava.

— Não desse jeito.

— Talvez você não escutasse desse jeito.

Ele baixou os olhos.

— Pode ser.

Continuamos comendo.

Depois, disse:

— Eu achava que esse trabalho era importante para você. Mas aqui eu percebi que ele é uma parte grande de quem você é.

— Sim.

— E quando eu pedi para você recusar a transferência, eu estava pedindo uma coisa maior do que imaginava.

— Sim.

Ele respirou fundo.

— Desculpa.

O pedido não veio no meio de uma briga.

Não veio acompanhado de uma expectativa de perdão imediato.

Por isso, significou mais.

— Eu aceito o pedido de desculpas — respondi.

Caio levantou os olhos.

— Isso significa…

— Não termina a frase.

Ele riu.

— Certo.

— Aceitar um pedido de desculpas não apaga o resto.

— Eu sei.

No fim da segunda semana, recebemos uma chamada de vídeo de Clara. Os gêmeos apareceram sentados no chão, batendo brinquedos um no outro.

— Olha quem resolveu visitar a esposa — ela disse.

— Você só liga para ver sua cunhada — Caio reclamou.

— Claro. Ela é mais interessante.

Rafael apareceu atrás dela, carregando uma mamadeira.

Caio perguntou pelos meninos, pelo trabalho de Rafael e pela reforma do apartamento.

Em nenhum momento sugeriu que eu deveria organizar alguma coisa para eles quando voltássemos ao Brasil.

Era um detalhe.

Mas eu o notei.

No último domingo da visita, caminhamos às margens do Neckar.

Caio disse:

— Eu vim achando que três semanas aqui iam me ajudar a convencer você de que dava para voltar antes.

— E agora?

— Agora eu acho que seria injusto.

Parei.

Ele continuou:

— Você construiu alguma coisa aqui. Não só profissionalmente. Você está diferente.

— Melhor?

— Mais dona de si.

A frase ficou entre nós.

— Isso te incomoda?

Caio demorou.

— Às vezes assusta.

A honestidade me fez sorrir.

— Pelo menos você não fingiu.

— Mas não quero que você volte a ser menor para eu me sentir maior.

Olhei para o rio.

Talvez aquela fosse a primeira vez em que eu acreditava plenamente que ele compreendia a natureza do problema.

Ainda assim, compreensão não era garantia.

— O que você quer fazer com nosso casamento? — perguntei.

— Continuar tentando.

— Mesmo se eu cumprir os três anos?

— Sim.

— Mesmo se eu voltar diferente?

— Você já está diferente.

— E se eu decidir que não quero mais a vida que tínhamos?

Ele segurou meu olhar.

— Então a gente não volta para a vida que tinha.

Foi a resposta certa.

Mas eu não queria respostas certas.

Queria consistência.

Quando Caio retornou ao Brasil, não prometemos que ficaríamos juntos para sempre.

Prometemos algo mais concreto:

nenhum de nós tomaria uma decisão importante que afetasse a vida do outro sem conversar primeiro.

Parecia uma regra óbvia.

Para nós, era quase revolucionária.

E seria testada mais cedo do que imaginávamos.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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