
Parte 4
Os primeiros meses na Alemanha foram menos cinematográficos do que Caio imaginava e muito mais cansativos do que eu havia previsto. Eu não passeava por cidades europeias todas as tardes nem vivia em restaurantes bonitos. Trabalhava numa fábrica nos arredores de Stuttgart, chegava ao apartamento temporário com a cabeça cheia de relatórios e ainda precisava aprender a viver num lugar onde até comprar o produto certo para limpar o banheiro exigia atenção.
Mesmo assim, havia uma diferença que eu sentia todos os dias.
Se a roupa estivesse acumulada, era minha responsabilidade porque era minha roupa.
Se eu resolvesse comer algo simples depois de um dia longo, ninguém transformava aquilo numa falha moral.
Se eu trabalhasse até tarde, ninguém aparecia com uma obrigação familiar decidida em meu nome.
A liberdade parecia pequena quando descrita em voz alta. Na prática, era enorme.
Clara ficou na nossa casa por cinco semanas. Quando o banheiro do apartamento dela ficou pronto, voltou para casa com Rafael e os gêmeos. A profissional continuou ajudando durante alguns períodos, mas com menos horas.
Caio me contou tudo numa ligação de domingo.
— O apartamento parece vazio — disse.
— Depois de dois bebês, qualquer lugar parece vazio.
— Não estou falando deles.
Eu sabia do que ele estava falando.
Durante os primeiros meses, nossas conversas tinham sido funcionais. Contas, correspondências, manutenção do apartamento, notícias da família. Sempre que Caio tentava transformar a ligação numa discussão sobre minha volta, eu encerrava.
Naquela noite, ele não fez isso.
— Eu comecei a cozinhar — contou.
— Você já sabia fazer algumas coisas.
— Arroz não conta.
Ri pela primeira vez durante uma conversa com ele desde minha mudança.
— Depende do arroz.
— Agora faço feijão também.
— Então a Alemanha já produziu resultados no Brasil.
Ele riu, mas logo ficou sério.
— Você sabe o que mais me irritou?
— O quê?
— Descobrir que não era impossível.
Esperei.
— Mamadeira, roupa dos bebês, jantar, mercado… eu reclamava porque achava cansativo, mas eu conseguia fazer. O que eu não conseguia era fazer tudo e continuar vivendo como se não estivesse fazendo nada.
A frase me atingiu.
— Era exatamente isso que eu tentava explicar.
— Eu sei.
Foi o primeiro “eu sei” de Caio que não veio seguido de uma justificativa.
Depois, porém, acrescentou:
— Ainda acho três anos exagero.
Sorri sozinha.
A mudança não seria rápida.
— Você não precisa gostar da minha escolha — respondi. — Precisa parar de tratar como se ela só existisse para punir você.
Ele não respondeu.
Algumas semanas depois, minha sogra me ligou.
— Você emagreceu — foi a primeira coisa que disse ao me ver pela câmera.
— Um pouco.
— Está comendo direito?
— Estou.
Ela perguntou sobre o trabalho, comentou que os gêmeos já começavam a sorrir e então chegou ao assunto que realmente queria discutir.
— Caio está sozinho demais.
— Ele é adulto, mãe.
Ainda a chamava de “mãe” por hábito e carinho. Nossa relação nunca tinha sido ruim antes da discussão do pós-parto. O problema era que ela havia passado décadas dentro de uma lógica em que as mulheres da família absorviam o trabalho necessário para manter tudo funcionando.
— Casamento à distância não é vida — ela disse.
— Também não era vida para mim ser voluntariada para tudo sem consulta.
A testa dela se contraiu.
— Aquilo já passou.
— Para a senhora, talvez. Para mim, foi quando eu percebi um padrão.
— Que padrão?
— Toda vez que alguém precisava de alguma coisa, a primeira pergunta era se eu podia fazer. Nunca se perguntavam o que Caio faria, o que Rafael faria ou quanto custaria contratar ajuda.
Ela ficou quieta.
— Você sempre foi mais organizada.
— Ser organizada não me torna disponível.
A conversa terminou sem acordo, mas não terminamos brigadas.
Esse detalhe importava.
No quinto mês, Caio começou a fazer terapia individual. Não porque eu pedi. Ele me contou numa noite de terça-feira, quase constrangido.
— Não precisa fazer essa cara — disse. — Não virei outra pessoa.
— Eu não fiz cara nenhuma.
— Fez sim.
— Por que começou?
Ele demorou a responder.
— Porque toda vez que eu conto a história para alguém, na minha cabeça eu começo com “minha esposa aceitou trabalhar três anos fora depois de uma briga”. A terapeuta perguntou o que aconteceu antes da decisão. Aí eu precisei contar o resto.
— E?
— O resto ficou pior quando eu ouvi da minha própria boca.
Não comemorei.
Também não usei aquilo para dizer “eu avisei”.
— Espero que ajude.
— Marina…
— Oi.
— Eu realmente achava que estava elogiando você quando dizia que você dava conta de tudo.
Fechei o notebook.
— Eu sei.
— Eu falava com orgulho.
— Esse também era o problema. Você tinha orgulho da quantidade de coisas que eu suportava. Não da quantidade de coisas que eu podia escolher.
Caio abaixou os olhos.
— Nunca pensei assim.
— Eu pensei muitas vezes. Só não falava com clareza.
Ele respirou devagar.
— Você devia ter falado.
— Talvez. Mas naquela noite eu falei. E você tentou fechar minha mala.
Ele levantou os olhos.
— Aquilo foi errado.
A frase foi simples.
Sem “mas”.
Sem “eu estava nervoso”.
Sem “você também”.
Eu senti alguma coisa dentro de mim se mover, mas não era perdão. Ainda não.
Era apenas a sensação de que, finalmente, estávamos conversando sobre o mesmo problema.
No nono mês da transferência, tive férias acumuladas e voltei ao Brasil por duas semanas.
Caio foi me buscar no aeroporto.
Ele estava mais magro. Tinha algumas marcas de cansaço ao redor dos olhos e um jeito estranho de permanecer parado diante de mim, como se não soubesse se deveria me abraçar.
Fui eu quem reduziu a distância.
O abraço não resolveu nada.
Mas também não foi vazio.
No caminho para Campinas, ele contou coisas pequenas: que tinha queimado uma panela tentando fazer molho, que aprendera a conferir os produtos antes de ir ao caixa, que agora entendia por que eu ficava irritada quando ele largava roupa sobre a cadeira.
— Demorou quase seis anos para você descobrir o cesto — eu disse.
— Tecnicamente, eu sempre soube onde ficava.
— Isso piora sua situação.
Nós rimos.
Quando chegamos ao apartamento, encontrei meu escritório montado novamente.
A mesa estava no lugar.
Meus livros, nas estantes.
Os berços tinham desaparecido semanas antes.
Passei a mão pela borda da mesa.
— Você colocou tudo de volta.
— Era seu espaço antes de eu decidir usá-lo sem perguntar.
Virei para ele.
— Obrigada.
Caio assentiu.
Naquela noite, dormimos no mesmo quarto, mas a distância entre nós ainda estava lá.
Não era uma distância de milhares de quilômetros.
Era a distância entre reconhecer um erro e reconstruir a confiança que ele tinha atingido.
E, pela primeira vez, Caio parecia entender que não poderia atravessá-la pedindo que eu andasse até ele sozinha.
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