
Parte 1
Eu tinha acabado de fechar uma negociação e, no caminho de volta, passei perto de uma das filiais do grupo. Foi então que tive a ideia de fazer uma surpresa para meu marido, Rafael Nogueira, que vinha trabalhando até tarde havia vários dias.
Pensei em levar o jantar para ele.
Assim que a porta do elevador se abriu, porém, o cheiro forte de macarrão instantâneo tomou o corredor.
Rafael estava espremido em uma estação de trabalho ao lado de Larissa Martins, sua nova secretária. Diante dos dois havia copos grandes de macarrão instantâneo ainda soltando vapor.
Não comentei nada.
Apenas me virei para meu assistente.
— Compre duas caixas desse macarrão para eles.
Ele me lançou um olhar rápido, mas já me conhecia bem o suficiente para não perguntar.
— Pelo jeito, os dois gostam bastante. Então podem comer à vontade. Se não terminarem, não precisam nem ir embora hoje.
Nunca gostei de obrigar ninguém a nada.
Encontrar um homem de duas pernas que saiba respeitar limites nunca foi exatamente uma missão impossível.
O som dos meus saltos ecoou pelo piso enquanto eu me aproximava.
Antes que Rafael percebesse minha presença, Larissa pegou um ovo cozido temperado de sua própria refeição e colocou no copo dele.
— Sr. Rafael, o senhor está trabalhando demais. Coma isso também.
Rafael não recusou.
Baixou a cabeça e comeu.
Alguns funcionários me viram primeiro. Levantaram-se quase ao mesmo tempo.
— Boa noite, senhora Almeida.
Assenti educadamente.
Meu olhar desceu para os recipientes de macarrão sobre a mesa.
Meu assistente falou antes que eu precisasse dizer qualquer coisa:
— Há uma regra interna proibindo alimentos de cheiro forte nas áreas de trabalho. Abram as janelas e ventilem o ambiente, por favor.
Larissa imediatamente fez uma expressão ofendida.
Durou pouco.
No instante seguinte, ergueu o queixo e me encarou com uma coragem que provavelmente vinha da falta de informação.
— Senhora Almeida, o Sr. Rafael está sacrificando a própria saúde pela empresa. Ele ficou até tarde trabalhando com a gente.
Fez uma pequena pausa.
— A senhora nem está aqui trabalhando e ainda usa as regras da empresa para impedir que ele coma. Como esposa, não deveria se preocupar mais com a saúde dele?
Virei o rosto lentamente em sua direção.
Sorri.
— Então você gostaria de cuidar do meu marido no meu lugar?
O rosto de Larissa ficou vermelho de imediato.
Ela pareceu finalmente perceber como suas palavras tinham soado.
Puxou de leve a manga de Rafael, procurando ajuda.
Rafael não se mexeu.
Quem falou foi um funcionário sentado perto deles:
— Larissa, o Sr. Rafael administra várias áreas do grupo. Esta é apenas uma filial. Não é razoável esperar que a presidente venha acompanhar nosso trabalho operacional.
Ele hesitou e acrescentou:
— E nós a chamamos de senhora Almeida por respeito ao Sr. Rafael. Mas ela é a presidente do grupo.
A expressão de Larissa mudou completamente.
Todo funcionário, no primeiro dia, passava pela integração institucional. Era impossível trabalhar ali sem saber quem controlava a empresa.
Rafael finalmente levantou a cabeça.
— Ela acabou de chegar e ainda não entende bem os limites. Vou pedir que alguém acompanhe melhor a adaptação dela.
Depois olhou para mim.
— A filial anda sobrecarregada. Também foi falha minha não organizar melhor a equipe.
Em seguida, lançou um olhar para Larissa.
— Peça desculpas à presidente.
Ela não parecia satisfeita, mas abaixou a cabeça.
— Desculpe, presidente Almeida. Eu não reconheci a senhora e falei coisas que não deveria.
Não respondi.
Virei-me para meu assistente.
— Todo mundo está trabalhando até tarde. Peça alguma coisa melhor para a equipe comer.
Deixei a filial pouco depois.
Quando cheguei em casa, ainda não fazia muito tempo que eu tinha entrado quando Rafael apareceu.
O jantar não estava completamente pronto.
Ele disse que tomaria banho e trocaria de roupa primeiro.
Quando voltou para a sala de jantar, eu já tinha começado a comer.
No lugar dele, entretanto, havia apenas um copo grande de macarrão instantâneo.
Rafael parou diante da cadeira.
— Eu só vou comer isso?
Sorri e fiz que sim.
— Você não gosta tanto? Até coloquei um ovo cozido para acompanhar.
Ele ficou imóvel por um instante.
Depois entendeu.
Uma risada sem graça escapou.
— Eu estava com fome. Só queria comer alguma coisa rápido e terminar o trabalho.
Puxou a cadeira.
— Você está com ciúme de uma funcionária da própria empresa?
Não respondi.
Rafael se sentou e empurrou o macarrão para o lado.
Parecia quase divertido.
— Marina, acho que essa é a primeira vez que vejo você com ciúme. Confesso que gostei.
— Para com isso. Vamos jantar normalmente. Eu realmente estou com fome.
Pousei os talheres.
Quando ergui os olhos para ele, meu rosto já não tinha nenhum traço de brincadeira.
Eu tinha escolhido Rafael para ser meu marido justamente porque conhecia sua origem e seu caráter.
O pai dele havia trabalhado por muitos anos como motorista da minha família. Rafael praticamente cresceu perto do meu pai.
Na minha casa, ninguém fazia questão de transformar diferença financeira em hierarquia pessoal. Rafael também sempre soube se comportar.
Era inteligente, estudioso, bonito e, naquela época, direto.
Depois da faculdade, entrou no grupo da minha família.
Começou em uma posição comum.
Subiu por mérito próprio e também porque, tendo convivido durante anos com meu pai, conhecia muito bem a cultura da empresa.
Eu poderia ter me casado com algum herdeiro de outra família empresarial e transformado o casamento em uma união de interesses.
Nunca quis isso.
Preferi um homem que conhecesse limites e não transformasse minha vida em uma sequência interminável de jogos, disputas e problemas.
Durante muito tempo, Rafael parecera exatamente esse homem.
— Rafael, você me conhece.
Ele parou de sorrir.
— Eu poderia ter escolhido um casamento entre famílias do mesmo nível financeiro. Escolhi você porque nunca gostei de controlar ninguém e porque você sempre soube até onde podia ir.
Mantive a voz tranquila.
— Eu detesto perder tempo com problemas desnecessários. E menos ainda gosto de fingir que não estou vendo algo desagradável quando está bem diante dos meus olhos.
Ele me observou em silêncio.
— Você entendeu o que eu quis dizer?
Levantei-me.
Antes de sair da sala, olhei para o macarrão ainda intocado.
— Termine isso antes de dormir.
Fiz uma pausa.
— Afinal, você gosta tanto. Seria desperdício jogar fora.
Naquela noite, Rafael não comeu o macarrão.
A empregada me contou no dia seguinte que ele passou a madrugada inteira no escritório.
Não comer era uma forma de me contrariar.
Não ir dormir era a forma dele de fingir que ainda estava obedecendo.
Era apenas um teste.
Rafael queria descobrir até onde podia avançar sem que eu reagisse.
Na manhã seguinte, o café estava servido normalmente.
Quando desci, Rafael já estava na sala de jantar.
Assim que me viu, levantou-se e puxou minha cadeira.
— Pensei bastante sobre ontem.
Serviu um copo de leite para mim.
Sua voz parecia sincera.
— Eu realmente não prestei atenção aos limites. Não vai acontecer de novo.
Não respondi.
Continuei tomando meu café.
Rafael empurrou um prato na minha direção.
— Você quase não comeu ontem. Coma primeiro.
Nos dias seguintes, ele mudou bastante.
Parou de ficar na filial até tarde. Aos poucos, voltou a deixar os assuntos operacionais nas mãos dos gestores responsáveis.
Quando eu passava por alguma unidade onde ele estava, também não via mais nada que me incomodasse.
Soube pelos funcionários que Larissa havia sido transferida para a área comercial.
Pensei que aquilo tivesse terminado.
Era um problema pequeno.
E problemas pequenos não mereciam mais espaço na minha vida do que o necessário.
Um mês depois, porém, chegou o aniversário de 80 anos do avô de Rafael.
Nos últimos anos, a família Nogueira havia melhorado bastante de vida e ampliado seus contatos em São Paulo, em parte pela ligação com minha família.
A comemoração reuniu muitos convidados.
Como esposa do neto, naturalmente compareci.
Quando cheguei, Rafael ainda não estava lá.
A família dele sempre soube manter uma distância equilibrada comigo. Nunca exageravam na bajulação, mas também não tinham o hábito de tratar uma nora como alguém sem importância.
Tudo corria normalmente.
Até Rafael entrar no salão.
E Larissa entrar logo atrás dele.
Ela usava um vestido vermelho.
As conversas ao redor diminuíram quase ao mesmo tempo.
Dezenas de olhares se voltaram para a entrada.
O sorriso da minha sogra endureceu por uma fração de segundo.
Ela caminhou até Rafael e, baixando a voz, perguntou:
Obrigado por acompanhar até aqui 🙌📖 Isso é só o começo… A próxima parte já está nos comentários 👇🔥 Se você não encontrar, toque em “Ver todos os comentários” 💬✨
