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LEITURA EM PARTESParte 2 de 3

Parte 2

— Rafael, por que essa moça veio com você?
Ele olhou para a mãe como se já tivesse preparado uma resposta. — Larissa estava comigo resolvendo algumas coisas da filial. Ela me ajudou bastante neste último mês e eu achei que não teria problema trazê-la. Minha sogra olhou primeiro para ele, depois para o vestido vermelho dela. — Isso é uma festa de família.
Larissa se apressou em sorrir. — Dona Teresa, eu não quero incomodar. O Sr. Rafael comentou que haveria muitos parceiros e pessoas da empresa. Achei que talvez pudesse ajudar se surgisse alguma necessidade. A justificativa era educada. O problema era que ninguém a havia chamado para trabalhar.
Rafael me viu do outro lado do salão. Por um instante, nossos olhos se encontraram. Ele não pareceu surpreso nem constrangido. Aquilo me incomodou mais do que a presença de Larissa. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Caminhei até eles sem pressa. — Se veio trabalhar, quem autorizou hora extra para uma funcionária do comercial em uma festa particular? Larissa abriu a boca, mas Rafael respondeu antes. — Marina, não precisa transformar tudo em regra de empresa.
— Foi você quem disse que ela veio por causa do trabalho. Só estou tentando entender qual das duas versões é verdadeira. Minha sogra apertou os lábios. Alguns familiares próximos fingiram não ouvir, mas ninguém saiu do lugar.
Rafael respirou fundo. — Eu a convidei. Pronto. Ela me ajudou muito e achei que seria gentil. — Então diga isso desde o início — respondi. — Não use a empresa como desculpa para uma escolha pessoal.
Larissa tocou o braço dele. Foi um gesto rápido, talvez automático. Rafael imediatamente afastou o braço, mas tarde demais para eu não notar. Ela percebeu meu olhar e recolheu a mão. — Presidente Almeida, acho que a senhora está interpretando errado.
— Eu não interpretei nada. Só vi você tocar no braço do meu marido. O que isso significa é responsabilidade de vocês dois. Mantive a voz baixa. Não precisava criar um espetáculo no aniversário de um senhor de 80 anos para deixar um limite claro.
Rafael ficou irritado. — Você está exagerando de novo. Larissa não fez nada contra você. — Eu também não disse que fez. Estou falando com você.
Minha sogra tentou encerrar a situação. — Hoje não é dia para isso. Rafael, leve sua convidada para uma mesa e depois conversamos. Ele assentiu, mas a expressão dele já havia mudado. Havia alguma coisa parecida com desafio em seu rosto.
Durante o jantar, Larissa ficou em uma mesa lateral, perto de conhecidos da empresa. Rafael passou boa parte da noite circulando pelo salão e, mais de uma vez, parou para falar com ela. Eu não fui atrás. Não estava interessada em vigiar um homem adulto para garantir que soubesse se comportar.
Na volta para casa, Rafael entrou no carro comigo. O silêncio durou até passarmos pelo portão da garagem. Então ele falou: — Você me tratou como um funcionário na frente da minha família. — Você usou uma funcionária como justificativa para trazê-la a uma festa particular.
— Porque eu sabia que, se dissesse simplesmente que a convidei, você faria exatamente o que fez. — Então você sabia que eu não concordaria e resolveu fazer mesmo assim. Ele ficou calado.
Entramos em casa. Rafael tirou o paletó e o jogou sobre uma poltrona. — Eu não fiz nada com Larissa. Não tenho um caso com ela. — Eu não perguntei se vocês têm um caso. — Mas é isso que você está insinuando. — Não. O que estou dizendo é que você percebeu que aquela proximidade me incomodava, prometeu estabelecer limites e, um mês depois, levou a mesma mulher a uma festa da sua família sem sequer me avisar.
Ele passou a mão pelo rosto. — Eu cansei de sentir que preciso pedir permissão para tudo. Aquela frase finalmente tirou a conversa do lugar errado. Não estávamos mais falando sobre Larissa.
— Você acha que nosso casamento funciona porque eu lhe dou ordens? — perguntei. Rafael demorou a responder. — Acho que funciona porque tudo sempre acontece do seu jeito.
Olhei para ele por alguns segundos. — Quando você quis continuar trabalhando no grupo, eu não impedi. Quando quis assumir mais responsabilidades, eu apoiei. Quando quis ajudar sua família, nunca me opus. Então escolha com cuidado o que vai chamar de controle.
Rafael baixou o olhar, mas não voltou atrás. — Você sempre pode dizer que a empresa é sua. Que a casa é da sua família. Que eu cheguei onde cheguei porque você abriu portas. Mesmo quando não fala, isso está lá.
Finalmente compreendi que Larissa era apenas a parte visível de um problema que ele vinha alimentando sozinho havia muito tempo. — E trazer uma funcionária para provocar sua esposa faz você se sentir menos dependente de mim?
Ele levantou a cabeça depressa. — Eu não trouxe Larissa para provocar você. — Então por que trouxe justamente ela, depois da conversa que tivemos? Rafael não respondeu.
Na manhã seguinte, pedi ao RH apenas uma informação administrativa: qual era a posição atual de Larissa. A resposta foi simples. Ela continuava formalmente no comercial, mas havia passado as últimas duas semanas dando suporte direto a Rafael em um projeto por solicitação dele.
Não era prova de traição. Nem precisava ser.
Era a confirmação de que a promessa de estabelecer distância nunca havia sido cumprida.
Quando Rafael chegou em casa naquela noite, eu já tinha tomado a primeira decisão que realmente importava.
— A partir de amanhã, você e eu vamos separar trabalho de casamento. E depois disso, vamos decidir se ainda existe casamento para separar.

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