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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

Na sexta-feira, levantei antes de Lucas.

Não quis acordá-lo.

Nem precisava.

Aquela era minha última manhã no apartamento, mas eu já havia percebido que despedidas nem sempre acontecem com grandes discursos. Às vezes elas acontecem enquanto dobramos a última peça de roupa ou verificamos se não esquecemos um carregador na tomada.

Deixei uma das chaves sobre a mesa.

A outra entregaria ao porteiro depois de buscar o restante das minhas coisas.

No hospital, o ambiente estava mais movimentado que o normal.

O noivado de Lucas e da filha do diretor Carvalho já não era exatamente segredo.

Ouvi duas enfermeiras comentando perto dos elevadores.

— Dizem que vai ser amanhã à noite.

— Metade da direção vai.

Quando me viram, pararam imediatamente.

Fingi não perceber.

Minha reação surpreendeu até a mim mesma.

Dias antes, escutar aquilo teria aberto outra ferida.

Naquela manhã, foi apenas confirmação.

Eu estava terminando de assinar documentos quando Camila entrou na sala administrativa.

Seu rosto estava estranho.

— Marina, posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você e o Lucas terminaram?

Continuei organizando os papéis.

— Terminamos.

Ela respirou fundo.

— Então é verdade.

Levantei os olhos.

— O quê?

Camila hesitou.

— Estão dizendo que ele vai ficar noivo amanhã.

— Vai.

— Você sabia?

— Sei há alguns dias.

A indignação dela apareceu imediatamente.

— Meu Deus, Marina.

— Não precisa.

— Precisa, sim. Vocês estavam juntos há cinco anos.

— Eu sei exatamente quanto tempo ficamos juntos.

Camila percebeu que eu não queria transformar o corredor do hospital num tribunal.

Apenas colocou a mão sobre meu braço.

— Se precisar de alguma coisa…

— Obrigada.

Mais tarde, encontrei Lucas perto do setor cirúrgico.

Ele estava de jaleco e parecia não ter dormido.

Parou quando me viu.

— Você vai embora hoje?

— Amanhã cedo.

— Achei que sua passagem fosse depois de amanhã.

— Antecipei.

Ele absorveu a informação.

— Por minha causa?

— Por mim.

Essa diferença ainda parecia difícil para ele.

Lucas baixou a voz.

— Conversei com meus pais ontem.

Esperei.

— Disse que não quero continuar com o noivado.

— Certo.

Ele franziu a testa.

— Só isso?

— O que espera que eu diga?

— Não sei.

— Então talvez você esteja finalmente tomando uma decisão que deveria ter tomado antes.

Ele me encarou.

— Minha mãe ficou furiosa. Meu pai disse que eu estou jogando fora anos de relação entre as famílias.

— Isso é entre vocês.

— O diretor Carvalho também foi avisado.

— Lucas, eu não preciso de relatório.

Ele perdeu a paciência.

— Eu estou tentando mostrar que estou fazendo alguma coisa.

— Eu sei.

— E não muda nada para você?

Pensei antes de responder.

— Muda uma coisa.

Ele esperou.

— Agora sei que você é capaz de dizer não. Só gostaria que tivesse descoberto isso antes de me trair.

Lucas desviou o olhar.

Não discutiu.

Aquela ausência de defesa me mostrou que alguma coisa nele começava a mudar, ainda que tarde demais para nós.

No fim do expediente, alguns colegas fizeram uma pequena despedida na sala de descanso.

Nada formal.

Café.

Bolo comprado na padaria da esquina.

Abraços.

Histórias sobre cirurgias difíceis.

Promessas de manter contato.

Em determinado momento, alguém voltou à brincadeira do almoço.

— E aí, herdeira, quando assumir seu império lembra da gente.

Eu ri.

— Vou lembrar.

— Ela continua com isso — Camila disse.

Peguei minha bolsa.

— Amanhã vocês descobrem se era brincadeira.

Todos riram novamente.

Dessa vez, eu não expliquei.

Meu pai havia insistido em mandar um carro para buscar minhas malas no apartamento e depois me levar ao aeroporto no sábado.

Eu pedira apenas uma alteração.

Antes do aeroporto, queria passar no hospital.

Ainda precisava retirar um documento original do arquivo e devolver meu crachá definitivo.

Minha mãe perguntou:

— Justamente amanhã?

— Quero sair de Belo Horizonte sem deixar nada pendente.

— E o noivado dele?

— Também é amanhã.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Você vai aparecer lá?

— Não no noivado.

Eu não tinha qualquer desejo de transformar a cerimônia de outra pessoa num palco para minha dor.

A filha do diretor Carvalho não havia me feito nada.

Eu nem sabia o quanto ela conhecia sobre mim.

Minha briga era com Lucas.

Naquela noite, voltei ao apartamento pela última vez.

Ele estava sentado na sala.

— Minha família não cancelou nada — disse antes mesmo que eu perguntasse. — Estão dizendo que amanhã ainda haverá um jantar para conversar.

— Entendi.

— Mas eu deixei claro que não vou anunciar noivado nenhum.

Assenti.

— Você não acredita em mim.

— Acredito que você disse isso.

— Não é a mesma coisa?

— Amanhã saberemos.

Lucas ficou em silêncio.

Eu fui buscar as últimas caixas.

Quando voltei à sala, ele olhava uma fotografia nossa que havia encontrado dentro de um livro.

— Você vai jogar tudo fora?

— Não.

— Então ainda significa alguma coisa.

— Significou cinco anos da minha vida.

Ele levantou os olhos.

— Passado?

Senti a garganta apertar.

— Lucas, não me obrigue a odiar tudo que vivemos só para conseguir ir embora.

A frase o desarmou.

Ele colocou a fotografia de volta na caixa.

— Eu não quero que você me odeie.

— Então aceite que algumas coisas não podem ser consertadas apenas porque você finalmente ficou com medo de perdê-las.

Ele se levantou.

— Eu estava com medo antes.

— Não o bastante.

Peguei a última mala.

Lucas não tentou impedir.

No corredor do prédio, ouvi sua voz.

— Marina.

Virei-me.

— Eu vou estar no hospital amanhã antes do jantar. Tenho uma cirurgia pela manhã.

— Certo.

— Podemos conversar uma última vez?

Olhei para ele.

— Se ainda houver alguma coisa que realmente precise ser dita.

Ele assentiu.

Entrei no elevador.

Quando as portas se fecharam, percebi que minhas mãos não estavam tremendo.

Passei a noite em um hotel próximo ao aeroporto.

Pela manhã, meu pai me ligou.

— O carro já está a caminho.

— Pai.

— O quê?

— Não precisa mandar ninguém entrar no hospital comigo.

Ele riu.

— Marina, você ainda acha que está escondendo alguma coisa?

Olhei para o anel-sinete que havia colocado pela primeira vez naquela manhã.

— Não mais.

— Tem certeza?

Pensei em cinco anos fingindo que meu sobrenome não carregava história alguma.

Pensei em quantas vezes me diminuí para não parecer privilegiada.

Pensei em Lucas dizendo que poderia me sustentar.

— Tenho.

Meu pai respondeu apenas:

— Então volte para casa como você quiser voltar.

Desliguei.

Às dez e quinze, o carro parou diante do hotel.

Eu ainda não sabia exatamente o que encontraria no Hospital São Gabriel.

Mas sabia uma coisa.

Naquele sábado, eu não esconderia mais quem era para tornar ninguém confortável.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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