
Parte 4
A sala pareceu menor depois que mencionei a lista.
Lucas abriu a boca, mas não disse nada.
Aquele silêncio confirmou mais do que qualquer explicação poderia confirmar.
Eu me levantei do sofá.
— Quanto tempo você pretendia esconder?
— Marina…
— Não pergunta de onde eu tirei. Não tenta mudar o assunto. Eu só quero saber quanto tempo você pretendia continuar voltando para esta casa enquanto preparava um noivado com outra mulher.
Ele respirou fundo.
— Não é tão simples.
— É exatamente essa frase que eu imaginei que você usaria.
— Porque não é.
Lucas caminhou até a janela, passou a mão pelo cabelo e voltou.
Eu conhecia aquele movimento. Era o mesmo que fazia antes de explicar uma complicação durante uma cirurgia.
Mas ali não existia prontuário.
Não existia caso clínico.
Só existiam escolhas.
— Minha família pressiona esse casamento há meses — disse.
— E você aceitou.
— Eu não disse que queria.
— Mas aceitou.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Sim.
A resposta doeu.
Ainda assim, foi melhor do que outra mentira.
— Por quê?
— Você sabe como minha família funciona.
— Na verdade, não sei. Em cinco anos você nunca me levou até eles.
Lucas baixou o olhar.
— Justamente porque eu sabia como eles reagiriam.
— A quê?
— A você.
Eu já conhecia a resposta, mas queria ouvi-la.
— Continua.
— Eles acham que nossas vidas são diferentes demais. Sempre acharam.
— Porque pensam que minha família não tem dinheiro.
— Não coloque desse jeito.
— Então coloca você.
Lucas ficou irritado.
— Não é só dinheiro.
— Status?
Ele não respondeu.
— Sobrenome? Relações? O fato de a filha do diretor Carvalho ser considerada uma escolha mais adequada?
— Marina, eu tentei evitar isso por muito tempo.
— Não. Você evitou me contar por muito tempo. É diferente.
Aquilo o fez recuar.
Lucas caminhou até mim.
— Eu precisava de tempo.
— Tempo para quê?
— Para resolver a situação.
— Depois do noivado?
Ele hesitou.
Foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
— Você ia ficar noivo e depois pensar no que fazer comigo?
— Eu não estava planejando abandonar você.
Por alguns segundos, senti uma tristeza tão profunda que a raiva desapareceu completamente.
— Você consegue ouvir o que acabou de dizer?
Lucas franziu a testa.
— Eu disse que não pretendia abandonar você.
— Como se isso fosse bondade.
Minha voz baixou.
— Você ia aceitar outra mulher oficialmente e continuar comigo. E, na sua cabeça, talvez isso fosse uma forma de me preservar.
— Não seria desse jeito.
— Como seria?
Ele não respondeu.
— Você nem sabe — continuei. — Porque não existia plano nenhum. Existia apenas a esperança de que ninguém obrigasse você a escolher imediatamente.
Lucas se aproximou.
— Eu amo você.
Aquelas três palavras, que tantas vezes me fizeram feliz, me causaram um cansaço enorme.
— Talvez ame.
Ele pareceu surpreso.
— Talvez?
— Eu não vou discutir o que você sente. Mas amor sem honestidade não constrói uma vida.
— Eu estava tentando proteger nosso relacionamento.
— De quem?
— Da minha família.
— Não. Você estava protegendo você mesmo das consequências.
Lucas ficou vermelho.
— Você está simplificando tudo.
— Não. Eu simplifiquei durante cinco anos. Toda vez que você dizia que não podia me apresentar à sua família, eu aceitava. Toda vez que desaparecia, eu imaginava que era trabalho. Toda vez que alguém dizia que nós não tínhamos futuro, eu achava que bastava confiar em você.
Caminhei até uma das malas.
— Agora eu parei de simplificar.
Ele segurou meu braço.
Não com força.
Mesmo assim, puxei-o de volta.
Lucas soltou imediatamente.
— Não vai embora hoje.
— Não vou. Minha passagem é depois de amanhã.
— Então temos dois dias para conversar.
— Não temos dois dias para salvar isso.
— Você decidiu sozinha.
A frase me fez encará-lo.
— Assim como você decidiu sozinho ficar noivo.
Lucas passou a língua pelos lábios, nervoso.
— Eu ainda posso desfazer isso.
— Pode.
Ele pareceu ver esperança na minha resposta.
— Então…
— Mas não por mim.
A esperança desapareceu.
— O que isso significa?
— Que, se você não quer esse noivado, deveria ter coragem de recusar porque não quer. Não use minha existência como desculpa depois de aceitar escondido.
Lucas sentou-se na poltrona.
Pela primeira vez, parecia genuinamente perdido.
— Você não entende o peso que existe sobre mim.
— Talvez eu entenda mais do que você imagina.
Ele levantou o rosto.
Por um instante, pensei em contar tudo.
Sobre meu pai.
Minha mãe.
O patrimônio.
A posição que eu estava voltando para assumir.
O anel-sinete guardado no fundo da minha bolsa.
Mas não contei.
Não queria que minha identidade mudasse o valor das escolhas dele.
— Você sempre teve liberdade — Lucas disse. — Sua família não controla sua vida.
Pensei nos anos em que meus pais haviam esperado pacientemente minha volta.
— Você não sabe nada sobre minha família.
— Porque você nunca fala deles.
— E você nunca perguntou muito.
Lucas abriu a boca e tornou a fechá-la.
Aquela verdade era desconfortável para nós dois.
Ele conhecia meus hábitos.
Sabia qual café eu bebia.
Sabia de que lado da cama eu dormia.
Sabia que eu ficava irritada quando alguém interrompia meu raciocínio no centro cirúrgico.
Mas conhecia muito pouco da vida que existira antes de Belo Horizonte.
E eu havia permitido isso.
Talvez porque também tivesse medo de descobrir se ele me enxergaria da mesma maneira depois de saber quem eu era.
Lucas se levantou.
— Sábado não precisa acontecer.
— Não estou pedindo isso.
— Eu posso conversar com meus pais.
— Deveria ter conversado antes de aceitar.
— Marina, pessoas erram.
— Sim.
— Então por que você está tratando isso como se não houvesse volta?
A pergunta me fez respirar profundamente.
— Porque não foi um erro de cinco minutos.
Apontei para a porta.
— Houve uma lista de convidados. Uma data. Conversas. Preparativos. Noventa e nove noites em que você não voltou para casa. Foram muitas decisões pequenas formando uma decisão enorme.
Lucas ficou calado.
Eu fui para o quarto.
Na manhã seguinte, acordei cedo.
Ele havia dormido no sofá.
Preparei café, coloquei alguns documentos na bolsa e estava saindo quando ouvi a voz dele atrás de mim.
— Vai ao hospital?
— Sim.
— Não precisa mais trabalhar.
— Tenho últimas pendências.
Lucas levantou-se.
— Eu posso falar com o diretor e cancelar seu desligamento.
Virei-me.
— Não faça isso.
— Sua decisão foi tomada por causa de mim.
— Minha decisão é minha.
— Você ama trabalhar lá.
— E vou amar trabalhar em outro lugar quando eu decidir voltar à medicina.
Ele parecia prestes a discutir, mas alguma coisa o conteve.
— Você realmente não precisa de mim, não é?
A pergunta saiu quase como um pensamento involuntário.
Eu poderia ter usado aquele momento para feri-lo.
Poderia ter dito quem eu era.
Poderia ter rido da frase sobre me sustentar.
Não fiz nada disso.
— Nunca precisei que você sustentasse minha vida, Lucas. Eu queria que você fizesse parte dela.
Saí.
No hospital, terminei os últimos procedimentos administrativos.
Perto do fim da tarde, uma funcionária me entregou o documento final de desligamento.
Meu vínculo terminaria oficialmente na sexta-feira.
O noivado seria no sábado.
Quando cheguei ao apartamento, Lucas estava no corredor.
Ele havia encontrado a pasta da viagem.
Minha passagem estava sobre a mesa.
Só ida.
São Paulo.
Ele levantou o papel.
— Você comprou só a ida.
— Sim.
— Então já tinha decidido antes de falar comigo.
— Decidi quando encontrei a lista.
Ele fechou os dedos sobre a passagem.
— Você está realmente me deixando.
— Estou.
Lucas olhou para mim por vários segundos.
Depois perguntou:
— E se eu cancelar o noivado?
Eu peguei a passagem da mão dele.
— Você ainda será o homem que aceitou enquanto vivia comigo.
A resposta o atingiu.
Entrei no quarto e fechei a porta.
Do outro lado, Lucas não tentou entrar.
E naquela noite, pela primeira vez em cinco anos, dormimos sob o mesmo teto sabendo que não éramos mais um casal.
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