
Parte 8
O encontro musical da casa de repouso aconteceu num sábado de céu claro.
Desde cedo, Seu Augusto andava de um lado para o outro verificando cadeiras, mesas, café e copos descartáveis como se estivéssemos preparando um grande concerto.
Dona Célia, naturalmente, achava que ele estava fazendo tudo errado.
— Essas cadeiras estão muito longe.
— Célia, estão a dois metros do piano.
— Longe.
— Ontem você disse que estavam perto demais.
— Ontem eu estava errada.
Eu ri enquanto organizava as partituras.
Aquele tipo de discussão não me deixava ansiosa.
Ninguém estava tentando humilhar ninguém.
Era apenas convivência.
Pouco antes de começar, algumas famílias chegaram.
Filhos, netos, irmãos.
Vi pessoas abraçando moradores que normalmente passavam a semana quase sem visitas.
Talvez aquele fosse o maior valor da música naquele lugar: ela tinha criado um motivo para que muita gente aparecesse.
Minha mãe também apareceu.
Eu não a havia convidado diretamente.
Tinha mencionado o encontro durante uma ligação, e ela perguntou se poderia ir.
Pensei antes de responder.
Depois disse que sim.
Ela entrou discretamente e sentou no fundo.
Não tentou ocupar espaço.
Não trouxe Júlia.
Não comentou minhas roupas nem a simplicidade do lugar.
Apenas ficou ali.
Quando sentei ao piano, minhas mãos estavam um pouco frias.
Comecei com uma música simples.
Depois Dona Célia cantou.
Errou uma parte da letra, acusou o restante do grupo de ter começado no tempo errado e provocou uma onda de risadas.
Eu também ri.
Minha mãe estava olhando para mim.
Não com pena.
Nem com avaliação.
Parecia surpresa.
Talvez nunca tivesse me visto naquele tipo de ambiente.
No intervalo, aproximou-se.
— Você toca muito bem.
— Eu tocava melhor quando praticava mais.
— Eu tinha esquecido.
A frase poderia ter doído.
Mas apenas confirmou uma coisa antiga.
— Eu também tinha.
Ela olhou ao redor.
— Você gosta daqui?
— Muito.
— Dá para perceber.
Não conversamos sobre Caio.
Agradeci internamente por isso.
Antes de ir embora, minha mãe me abraçou.
Foi rápido.
Quase tímido.
— Feliz aniversário atrasado — disse.
Já tinham se passado meses.
Sorri levemente.
— Bem atrasado.
Ela apertou os lábios.
— Eu sei.
Tirou da bolsa um pequeno envelope.
— Não é nada importante. Só uma coisa que eu deveria ter feito naquele dia.
Dentro havia um cartão simples.
Nada caro.
Nada grandioso.
Apenas algumas linhas escritas por ela.
Não era uma tentativa de reescrever nossa história.
Era um reconhecimento.
Guardei.
Depois que todos foram embora, fiquei ajudando a recolher copos.
Seu Augusto aproximou-se.
— Sua mãe?
— Sim.
— Pareceu orgulhosa.
— Talvez esteja aprendendo.
— E você?
— Também.
Na segunda-feira seguinte, meu advogado confirmou que quase todas as questões financeiras estavam resolvidas.
A divisão seria formalizada junto com o divórcio conforme os procedimentos adequados.
Restavam apenas alguns documentos e uma última conferência.
Caio pediu uma reunião.
Dessa vez, não aceitei imediatamente.
— Sobre o quê?
— Sobre a casa e os objetos pessoais.
— Pode mandar por e-mail.
— Não é só isso.
Fiquei em silêncio.
Ele continuou:
— Não vou pedir que você volte.
A frase me fez relaxar um pouco.
— Então fale.
— Estou vendendo a casa.
Eu já imaginava.
— Certo.
— Antes disso, queria saber se você quer alguma coisa que ficou lá. Móveis, quadros, objetos. Algumas coisas foram compradas juntos.
— Vou pensar.
— E tem outra coisa.
Esperei.
— Eu corrigi uma informação numa entrevista da empresa.
Franzi a testa.
— Que informação?
— Perguntaram sobre a Júlia outra vez.
Meu corpo ficou atento.
— E?
— Eu disse que ela é uma amiga. Também disse que eu estava passando por um divórcio e que especulações sobre qualquer outra relação eram desrespeitosas.
Fiquei em silêncio.
Não porque estivesse emocionada.
Porque queria entender o que sentia.
Durante anos, eu teria dado quase qualquer coisa para ouvir Caio dizer aquilo publicamente.
Agora ele finalmente tinha feito.
Tarde demais para o casamento.
Mas não tarde demais para assumir responsabilidade.
— Foi o certo — respondi.
— Eu deveria ter feito antes.
— Sim.
Ele não tentou receber elogio.
Não tentou usar aquilo para negociar minha volta.
— Júlia também pediu que parem de associar os dois nomes — contou.
— Bom.
— Você não quer saber mais?
— Não.
E era verdade.
Quando desliguei, percebi que aquela história tinha perdido o poder de me consumir.
A suspeita sobre Júlia tinha sido esclarecida sem transformar suposições em traição.
Ela havia reconhecido a própria responsabilidade.
Caio reconhecera a dele.
Minha mãe começava, lentamente, a reconhecer a sua.
Restava a minha parte.
Não a culpa.
A escolha.
Naquela noite, abri uma caixa que ainda não tinha organizado desde a mudança.
Dentro havia alguns objetos antigos.
Entre eles, uma pequena fotografia de Mimo deitado perto de uma janela iluminada pelo sol.
Sentei no chão segurando a foto.
Chorei.
Mas não como naquela primeira noite.
A tristeza estava ali sem me destruir.
Eu coloquei a fotografia numa moldura simples e a deixei perto da janela da sala.
Depois abri o e-mail do advogado.
Havia uma data sugerida para o ato final do divórcio.
Li cuidadosamente.
Meu coração apertou.
Não de dúvida.
De despedida.
Confirmei minha disponibilidade.
Faltava pouco.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇













