
Parte 5
As primeiras conversas sobre o divórcio foram muito menos dramáticas do que eu havia imaginado durante anos.
Talvez porque a realidade raramente tivesse a mesma forma das cenas que construímos na cabeça.
Não havia gritos em escritórios luxuosos nem ameaças. Havia documentos, perguntas, listas de bens, comprovantes e decisões desconfortáveis que precisavam ser tomadas com clareza.
Eu e Caio nos encontramos novamente duas semanas depois.
Dessa vez, nossos advogados estavam presentes.
A maior parte da conversa tratou de patrimônio. A casa onde havíamos vivido, investimentos feitos durante o casamento e algumas despesas compartilhadas precisavam ser organizados.
Caio parecia disposto a facilitar.
Em determinado momento, sugeriu que eu ficasse com a casa grande.
Olhei para ele.
— Não quero.
Ele pareceu surpreso.
— O valor dela é muito maior do que o da sua casa em Curitiba.
— Eu sei.
— Então por que não?
Pensei nas fotos queimadas.
Nas noites em que esperara Caio voltar.
Nas vezes em que me sentei naquela sala enorme sentindo que ocupava espaço demais e importância de menos.
— Porque não quero passar os próximos anos morando no lugar onde passei tanto tempo tentando convencer alguém de que eu existia.
Um dos advogados baixou os olhos para os documentos.
Caio ficou em silêncio.
Depois assentiu.
— Tudo bem.
Dessa vez, as duas palavras não me destruíram.
Continuamos.
Eu não queria mais do que me cabia. Também não queria abrir mão de direitos apenas para provar que era independente. Segui as orientações profissionais e aceitei discutir a divisão com calma.
Quando a reunião terminou, Caio pediu alguns minutos.
Os advogados saíram da sala.
Ficamos sozinhos.
— Você mudou muito rápido — ele disse.
— Não foi rápido.
— Faz menos de um mês.
— Para você.
Caio franziu a testa.
— Para mim, isso começou há anos.
Ele passou a mão pela borda da mesa.
— Eu achei que você sempre voltaria.
A honestidade me surpreendeu.
— Eu sei.
— Mesmo quando você dizia que estava cansada…
— Você achava que eu continuaria ali.
Ele assentiu devagar.
— Sim.
Eu não precisava ouvir mais.
Aquilo explicava muito.
Não justificava.
Mas explicava.
Na semana seguinte comecei as tardes de música na casa de repouso.
No primeiro encontro, quatro pessoas apareceram.
No segundo, nove.
No terceiro, Seu Augusto precisou procurar cadeiras extras.
Eu não era uma grande pianista. Havia músicas que já não lembrava direito, outras em que errava notas, e algumas eu precisava reaprender.
Ninguém se importava.
Dona Célia gostava de cantar.
Seu Anselmo batia os dedos no braço da cadeira acompanhando o ritmo.
Uma senhora chamada Lourdes fechava os olhos durante músicas antigas e, quando terminavam, contava alguma lembrança da juventude.
A atividade não transformou magicamente minha vida.
Eu ainda acordava algumas manhãs com uma sensação pesada no peito.
Ainda sentia falta de Mimo.
Ainda havia momentos em que abria o celular e pensava em mandar alguma coisa para Caio antes de lembrar que nossa relação agora tinha limites diferentes.
Mas eu comecei a perceber que cura não era esquecer.
Era conseguir continuar vivendo sem organizar cada dia em torno da ferida.
Minha mãe passou alguns dias sem entrar em contato.
Depois enviou uma mensagem curta:
“Espero que você esteja bem.”
Respondi:
“Estou me organizando.”
Não houve discussão.
Foi suficiente.
Júlia também não voltou a falar comigo.
Eu preferia assim.
Não precisava transformar aquela conversa em amizade. Um pedido de desculpas não obrigava ninguém a construir intimidade.
Cerca de um mês depois, voltei à antiga casa para buscar meus objetos pessoais.
Caio estava lá.
As marcas do incêndio no jardim já tinham desaparecido. Os pedaços de vidro haviam sido retirados e o local onde eu queimara o álbum estava limpo.
Entrei.
Tudo parecia igual.
E, ao mesmo tempo, estranho.
Passei pelo corredor e fui direto ao quarto.
Minhas roupas que tinham ficado para trás estavam organizadas de um lado do closet.
Alguns livros estavam dentro de caixas.
Caio tinha separado também objetos pequenos que imaginava serem meus.
— Eu não sabia o que você queria levar — disse.
— Tudo bem.
Comecei a conferir.
Encontrei uma manta onde Mimo costumava deitar.
Parei.
Caio percebeu.
— Eu achei isso atrás do sofá depois que você foi embora.
Passei a mão pelo tecido.
Ainda havia alguns pelos presos.
Meus olhos arderam.
— Pode ficar comigo?
A pergunta dele me fez erguer o rosto.
— Por quê?
— Não sei.
Caio pareceu constrangido.
— Foi a única coisa dele que ficou aqui.
Pensei alguns segundos.
Cortei cuidadosamente um pequeno pedaço de tecido de uma das bordas que já estava descosturada e entreguei a manta para ele.
— Fica.
Ele pegou.
— Obrigado.
Continuei arrumando minhas coisas.
Mais tarde, enquanto eu carregava uma caixa até a entrada, ele perguntou:
— Você está feliz naquela casa?
A pergunta me fez parar.
— Ainda estou aprendendo a ficar.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Olhei para ele.
— Estou mais em paz.
Caio desviou os olhos.
Talvez aquela resposta doesse mais do que se eu dissesse que estava feliz.
Perto da porta, ele falou:
— Se você quisesse voltar… eu poderia fazer diferente.
Não havia arrogância na voz.
Também não havia uma grande declaração.
Era apenas uma frase atrasada.
— Você sabe o que precisa mudar?
Ele demorou para responder.
— Estou começando a entender.
— Então mude.
Ele me encarou.
Completei:
— Mas não faça isso para eu voltar.
A expressão dele endureceu levemente, não de raiva, mas de compreensão.
— Você já decidiu.
— Estou decidindo todos os dias.
Peguei a última caixa.
Quando atravessei a porta, percebi que aquela era a primeira vez que saía daquela casa sem esperar que Caio me chamasse de volta.
Ele não chamou.
E eu também não olhei para trás.
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