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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Minha mãe chegou alguns minutos antes das duas.

Júlia estava com ela.

Quando abri a porta, as duas ficaram paradas por um instante observando a casa. Eu conhecia aquele olhar. Minha mãe estava comparando cada detalhe simples dali com a casa enorme onde eu vivera com Caio.

— Você realmente pretende ficar aqui? — perguntou.

— Pretendo.

Dei espaço para que entrassem.

Júlia parecia desconfortável. Usava roupas discretas, muito diferentes das fotografias impecáveis que eu costumava ver em eventos sociais e matérias na internet.

Sentamos na pequena sala.

Ninguém falou durante alguns segundos.

Foi minha mãe quem começou.

— Eu não vim brigar.

— Ótimo.

— Mas alguém precisa fazer você pensar com racionalidade.

Respirei devagar.

— Se você veio para me convencer a voltar para Caio, podemos encerrar agora.

Ela franziu a testa.

— Casamentos passam por fases ruins.

— Uma fase não dura anos.

— Você também nunca facilitou as coisas.

Júlia mexeu as mãos no colo, mas permaneceu calada.

Olhei diretamente para minha mãe.

— É exatamente assim que sempre acontece. Eu digo que estou machucada e você explica por que a culpa também deve ser minha.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então diga o que veio dizer.

Minha mãe olhou para Júlia.

Ela pareceu entender que havia chegado sua vez.

— Eu queria conversar sobre mim e sobre o Caio.

— Pode falar.

Júlia respirou fundo.

— Nunca tivemos um relacionamento.

Eu não respondi.

Ela continuou:

— Eu sei o que algumas matérias insinuaram. Sei o que as pessoas diziam nos eventos. Mas nunca tivemos um caso.

— Eu nunca disse que vocês tiveram.

Ela demonstrou surpresa.

Talvez todos tivessem decidido, por mim, qual era exatamente a minha dor.

— Então por que você sempre ficava tão incomodada?

— Porque vocês permitiam que eu parecesse a intrusa no meu próprio casamento.

Júlia abaixou os olhos.

— Caio é meu amigo há muitos anos.

— Eu sei.

— Quando voltei, eu estava tentando reorganizar muita coisa na minha vida. Ele me ajudou.

— Também sei.

— Eu nunca pedi que ele deixasse você de lado.

— Talvez não tenha pedido.

Ela ergueu o rosto.

— Mas também não impediu.

A sala ficou silenciosa.

Minha mãe imediatamente interferiu.

— Agora você está colocando responsabilidade demais sobre a Júlia.

— Mãe, por favor.

Ela fechou a boca.

Voltei meus olhos para Júlia.

— Você sabia que aquelas comparações me incomodavam?

Júlia hesitou.

— Sabia.

— Sabia que as pessoas faziam piadas dizendo que você deveria estar no meu lugar?

Outra pausa.

— Sim.

— E alguma vez disse que aquilo era desrespeitoso comigo?

Júlia passou os dedos pela alça da bolsa.

— Não.

A honestidade daquela resposta doeu, mas também limpou alguma coisa.

— Por quê?

Ela demorou.

— Porque eu gostava da atenção.

Minha mãe virou o rosto para ela.

— Júlia…

— Ela perguntou.

Júlia respirou fundo.

— Eu não queria o marido dela. Mas eu tinha acabado de voltar, estava tentando reconstruir minha vida e… as pessoas me tratavam como alguém importante quando eu estava ao lado de Caio. Eu deveria ter colocado limites. Não coloquei.

Não era uma confissão de caso.

Não era um grande segredo.

Era algo talvez mais banal e, por isso, mais humano: alguém tinha aceitado um benefício emocional mesmo percebendo que aquilo machucava outra pessoa.

— Obrigada por não inventar uma desculpa — falei.

Ela me encarou.

— Você me odeia?

— Não.

A resposta saiu com mais facilidade do que eu esperava.

— Mas também não quero fingir que você não teve nenhuma responsabilidade.

Júlia assentiu.

Minha mãe parecia cada vez mais desconfortável.

— Então agora está resolvido. Não houve traição. Você pode voltar para casa.

Olhei para ela.

— Você ainda acha que meu casamento terminou por causa de uma possível traição?

— O que mais seria?

A pergunta me deixou quase sem palavras.

— Anos me sentindo invisível.

— Caio nunca deixou faltar nada para você.

— Eu não estou falando de dinheiro.

— Ele sempre trabalhou muito.

— Também não estou falando do trabalho.

— Você sempre teve liberdade.

— Mãe.

Ela parou.

Minha voz saiu mais baixa.

— Você realmente não entende?

Pela primeira vez, vi hesitação no rosto dela.

— Eu só acho que você sente tudo de maneira muito intensa.

A frase me levou de volta a inúmeros momentos da minha vida.

Quando eu chorava demais.

Quando me incomodava demais.

Quando reclamava demais.

Quando precisava demais.

Sempre havia alguma coisa errada na intensidade com que eu sentia.

— Talvez eu sinta — respondi. — Mas isso não dá a ninguém o direito de decidir que meus sentimentos não importam.

Minha mãe desviou o olhar.

Perguntei:

— Por que você lembrou do aniversário da Júlia e não do meu?

Ela abriu a boca.

Fechou.

— Eu lembrava.

— Então por que, quando ligou, só falou dela?

— Porque a festa era importante.

— Para quem?

Não houve resposta imediata.

— Para as famílias.

— Exatamente.

Minha voz não se alterou.

— Sempre existe alguma coisa mais importante que eu. A família, a imagem, o evento, Caio, Júlia, o que as pessoas vão dizer.

Minha mãe apertou os lábios.

Júlia ficou olhando para o chão.

— Eu não vou mais competir por um lugar na vida de vocês — continuei. — Quem quiser ter uma relação comigo vai precisar me tratar como alguém que existe, não como alguém que deve se adaptar para não incomodar.

Minha mãe levantou-se.

— Está dizendo que vai cortar relações comigo?

— Estou dizendo que vou colocar limites.

— Isso é a mesma coisa.

— Não é.

Também me levantei.

— Eu não vou bloquear você nem fingir que não é minha mãe. Mas não vou aceitar que venha à minha casa para me dizer como devo viver só porque minha escolha deixa outras pessoas desconfortáveis.

Ela pegou a bolsa.

Seu rosto estava rígido.

— Você mudou.

— Estou tentando.

Júlia levantou-se logo depois.

Antes de sair, virou-se para mim.

— Eu sinto muito.

Não respondi de imediato.

Ela acrescentou:

— Pelo que eu permiti.

Assenti.

— Isso eu consigo ouvir.

Minha mãe já estava perto da porta.

Júlia caminhou atrás dela.

Quando as duas saíram, fiquei sozinha na sala.

Esperei sentir satisfação.

Não senti.

Também não senti culpa.

Era algo mais calmo.

Como se, pela primeira vez, eu tivesse dito tudo sem precisar quebrar um objeto, gritar ou implorar para ser entendida.

Naquela tarde, fui para a casa de repouso.

Dona Célia percebeu que eu estava distraída.

— Família?

Olhei para ela, surpresa.

Ela deu de ombros.

— Tenho oitenta anos. A essa altura, a gente reconhece certas caras.

Sorri.

Sentei ao piano e comecei a tocar.

No meio da segunda música, percebi Seu Augusto conversando com duas funcionárias.

Quando terminei, ele se aproximou.

— Posso te pedir uma coisa?

— Depende.

— Estamos querendo criar uma tarde de música uma vez por semana. Nada sofisticado. Alguns daqui gostam de cantar, outros só querem ouvir. Você toparia ajudar?

Olhei para o piano.

Durante anos, tudo que eu fazia parecia precisar servir a alguma expectativa de família, casamento ou imagem.

Aquilo era diferente.

— Topo.

Seu Augusto sorriu.

— Sabia.

— Não sabia, não.

— Tinha esperança.

Voltei para casa já no começo da noite.

Havia uma mensagem de Caio.

“Júlia falou comigo.”

Esperei.

Outra mensagem chegou.

“Ela me contou o que conversaram.”

Depois:

“Eu não sabia que você enxergava tudo dessa forma.”

Fiquei olhando para aquelas palavras.

Antigamente, eu teria escrito páginas tentando explicar.

Dessa vez respondi apenas:

“Esse sempre foi parte do problema.”

Ele visualizou quase imediatamente.

Não escreveu mais.

No dia seguinte, meu advogado informou que Caio havia confirmado oficialmente que aceitaria iniciar a negociação do divórcio.

Não era reconciliação.

Não era vingança.

Era apenas o primeiro sinal concreto de que ele finalmente começava a entender que eu não estava esperando que alguém me impedisse de ir embora.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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