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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Voltei à antiga casa uma última vez três dias antes da formalização do divórcio.

Caio havia separado os objetos que ainda precisavam ser decididos antes da venda.

Quando entrei, a mudança era evidente.

Alguns quadros já tinham sido retirados.

Havia caixas no corredor.

A sala parecia maior sem parte dos móveis.

Também parecia vazia.

Caio me esperava perto da mesa.

— Obrigado por vir.

— Vamos terminar isso.

Passamos quase uma hora escolhendo o que cada um ficaria.

Não discutimos por nada.

Alguns objetos tinham valor financeiro e seguiram as orientações do acordo. Outros tinham apenas valor pessoal.

Peguei meus livros.

Alguns utensílios que pertenciam à minha família.

Uma pequena escultura que eu mesma tinha comprado antes do casamento.

Deixei quase todo o resto.

Quando chegamos ao antigo escritório, Caio colocou sobre a mesa uma caixa.

— Essas são as suas coisas da faculdade.

Abri.

Havia cadernos, fotografias, certificados e algumas partituras antigas.

Sorri ao reconhecer uma delas.

— Você tocava isso?

— Tentava.

— Eu nunca ouvi.

A frase ficou no ar.

Olhei para ele.

— Você nunca perguntou.

Caio baixou os olhos.

Não foi uma acusação planejada.

Era apenas verdade.

Continuei mexendo na caixa.

Depois de alguns minutos, ele falou:

— Eu queria ter conhecido essa versão sua.

— Ela sempre esteve aqui.

Ele assentiu.

— Eu sei.

Levamos as caixas até perto da porta.

Quando terminamos, sentei por alguns instantes no sofá porque minhas costas começaram a incomodar.

Caio permaneceu em pé.

— Amanhã é a última reunião com os advogados.

— Sim.

— E depois…

— Depois concluímos.

Ele olhou para o chão.

— Eu passei muito tempo achando que o pior que poderia acontecer era você continuar reclamando.

Fiquei quieta.

— Nunca pensei que você realmente fosse embora.

— Eu também passei tempo demais achando que o pior seria você não mudar.

Ele ergueu os olhos.

— E agora?

— Agora eu entendi que o pior seria eu continuar esperando.

Caio sentou numa poltrona diante de mim.

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você ainda me ama?

A pergunta doeu.

Talvez porque a resposta não fosse simples.

Eu não queria mentir.

— Parte de mim ainda tem carinho pelo homem que eu achei que você fosse.

Ele respirou devagar.

— Isso é um não?

— É um reconhecimento de que sentimentos não desaparecem na mesma velocidade que decisões.

Caio olhou para as próprias mãos.

— Eu ainda amo você.

Pela primeira vez, ouvir aquilo não me trouxe a sensação de vitória que imaginei durante anos.

Trouxe tristeza.

— Eu acredito.

Ele ergueu o rosto, surpreso.

— Mas isso não muda minha decisão.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

— Agora sei.

Ficamos em silêncio.

Não era um silêncio usado para me punir.

Era apenas a falta de alguma coisa melhor para dizer.

Depois de um tempo, Caio continuou:

— Eu achava que amar era garantir que você tivesse tudo.

— Menos você.

Ele fechou os olhos rapidamente.

— Sim.

— Eu não precisava que você abandonasse sua vida por mim. Precisava de presença quando importava.

— Eu entendi tarde.

— Entendeu.

— Você acha que eu mereço perder você por isso?

A pergunta me incomodou.

— Eu não estou me divorciando para determinar o que você merece.

Ele me olhou.

— Estou fazendo isso porque decidi o que eu não aceito mais para mim.

Caio permaneceu imóvel.

Continuei:

— Isso não é punição. Não é um julgamento sobre o resto da sua vida. Você pode aprender, mudar e ser melhor. Só não precisa fazer isso dentro do nosso casamento.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Eu queria que você tivesse dito tudo assim antes.

Quase sorri.

— Eu disse de muitas formas.

Ele ficou parado.

Depois assentiu.

— Tem razão.

A conversa não terminou com gritos.

Nem com abraço.

Nem com promessas.

Levei as caixas até o carro.

Quando voltei para pegar a última, encontrei Caio segurando a manta de Mimo.

O pequeno pedaço que eu tinha cortado ainda estava guardado comigo em casa.

Ele percebeu meu olhar.

— Eu ainda fico com ela às vezes.

— Tudo bem.

— Parece idiota.

— Não parece.

Caio dobrou a manta e colocou de volta sobre a cadeira.

Na porta, tirei a chave antiga de casa do chaveiro.

Fiquei alguns segundos segurando-a.

Durante anos, aquele pedaço de metal tinha representado o lugar para onde eu acreditava que sempre precisaria voltar.

Coloquei sobre a mesa.

— Não vou precisar mais.

Caio olhou para a chave.

Depois para mim.

— Amanhã você vai mesmo assinar.

— Vou.

Ele respirou fundo.

— Então eu não vou pedir de novo.

Assenti.

— Obrigada.

Saí.

Dessa vez, antes de entrar no carro, olhei para a casa.

Não senti vontade de voltar.

Também não senti ódio.

Apenas reconheci que uma parte enorme da minha vida tinha acontecido ali.

Houve amor.

Houve esperança.

Houve dor.

E houve um momento em que ficar deixou de ser amor próprio.

Na manhã seguinte, acordei cedo.

Preparei café.

Reguei as plantas.

Escolhi uma roupa simples.

Antes de sair, parei diante da fotografia de Mimo perto da janela.

Um feixe de sol atingia a moldura.

Sorri com os olhos molhados.

Depois peguei minha bolsa.

Era hora de terminar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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