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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

O dia em que meu casamento terminou oficialmente não teve chuva, música triste nem qualquer sinal de que o mundo sabia o que estava acontecendo.

Era uma manhã comum em Curitiba.

Havia carros nas ruas, gente indo trabalhar e pessoas esperando café em filas como em qualquer outro dia.

Talvez isso fosse apropriado.

Durante muito tempo, meu casamento tinha parecido o centro de toda a minha existência.

Agora eu entendia que o mundo continuaria depois dele.

Cheguei ao local combinado com alguns minutos de antecedência.

Meu advogado já estava lá.

Caio chegou pouco depois acompanhado do profissional que o representava.

Nós nos cumprimentamos.

Sem beijo.

Sem abraço.

Sem hostilidade.

Os últimos documentos foram conferidos.

As decisões patrimoniais que havíamos negociado estavam registradas.

Eu manteria minha casa.

Os bens comuns seriam divididos conforme o acordo.

Nada desapareceria numa assinatura mágica; algumas providências práticas ainda seriam cumpridas posteriormente pelos responsáveis.

Mas nossa decisão estava definida.

Quando chegou o momento de assinar, peguei a caneta.

Minha mão parou por um instante acima do papel.

Não por arrependimento.

Memórias passaram pela minha cabeça.

Caio me pedindo em casamento.

Eu escolhendo vestido.

Nós entrando na casa nova.

Mimo pequeno no meu colo.

As primeiras discussões.

Os primeiros silêncios.

Júlia voltando.

Minha raiva.

As fotos quebradas.

O álbum queimando.

“Tudo bem.”

Lembrei daquelas duas palavras.

Naquela noite, achei que tinham destruído o que ainda restava de mim.

Agora pareciam pertencer à vida de outra mulher.

Assinei.

Passei a caneta adiante.

Caio olhou para minha assinatura.

Depois assinou também.

Foi simples.

Quase silencioso.

E terminou.

Quando saímos, nossos advogados se afastaram por alguns minutos para resolver os últimos detalhes.

Fiquei com Caio no corredor.

Ele colocou as mãos nos bolsos.

— Então é isso.

— É.

— Eu imaginei esse dia muitas vezes nos últimos meses.

— Eu também.

— Em algumas versões, você desistia.

Sorri de leve.

— Nas minhas antigas versões, você me impedia de ir embora.

Ele soltou uma pequena risada triste.

— Nós dois demoramos para entender.

— Sim.

Caio ficou sério.

— Eu não sei se algum dia vou conseguir parar de pensar no que eu deveria ter feito diferente.

— Espero que consiga.

Ele me olhou.

— Você não quer que eu me arrependa?

— Arrependimento serve para aprender. Não para morar dentro dele pelo resto da vida.

Caio assentiu lentamente.

— Você parece bem.

Pensei antes de responder.

— Estou ficando.

Aquela era a verdade.

Não estava completamente curada.

Não tinha esquecido tudo.

Ainda existiam dias difíceis.

Mas eu tinha deixado de medir meu progresso pelo tamanho da dor.

Caio tirou um pequeno objeto do bolso.

Era uma chave.

Reconheci imediatamente.

— A casa?

— A antiga casa.

— Você ainda não vendeu?

— O processo está andando.

Ele olhou para a chave.

— Eu percebi ontem que estava carregando isso no bolso sem necessidade.

Sorri.

— Eu fiz a mesma coisa durante anos.

Ele me encarou e entendeu que eu não estava falando apenas da chave.

— Cuida de você — disse.

— Você também.

Dessa vez fomos embora em direções diferentes.

Sem olhar para trás.

Passei naquela tarde na casa de repouso.

Eu poderia ter ficado sozinha.

Poderia ter feito alguma grande comemoração.

Mas não queria transformar o fim do casamento numa festa.

Também não queria tratá-lo como funeral.

Era apenas uma passagem.

Quando cheguei, Seu Augusto estava tentando convencer Dona Célia a escolher menos músicas para a próxima semana.

— Ela está impossível — reclamou.

— Sempre fui — respondeu ela.

Coloquei minha bolsa sobre uma cadeira.

— Hoje eu posso tocar quantas ela quiser.

Dona Célia abriu um sorriso vitorioso.

— Eu sabia que gostava dessa menina.

Seu Augusto me observou por alguns segundos.

— Terminou?

Eu sabia o que ele perguntava.

— Terminou.

Ele apenas assentiu.

— Café?

— Quero.

Foi tudo.

Nenhum discurso.

Nenhuma frase grandiosa.

E eu gostei disso.

Sentei ao piano.

Comecei a tocar.

Dona Célia entrou na segunda música antes da hora.

Seu Anselmo reclamou do ritmo.

Lourdes começou a contar uma história que ninguém tinha perguntado.

A vida continuava desajeitada, barulhenta e imperfeita.

E eu estava dentro dela.

Nas semanas seguintes, minha relação com minha mãe avançou devagar.

Ela visitou minha casa pela primeira vez sem criticar nada.

Olhou para as cortinas amarelas e abriu a boca.

Eu levantei uma sobrancelha.

Ela fechou a boca novamente.

Nós duas rimos.

Foi uma coisa pequena.

Mas relações novas talvez fossem construídas justamente assim: não com grandes promessas, e sim com pequenas escolhas repetidas de maneira diferente.

Júlia não voltou a fazer parte da minha vida.

Soube por conhecidos que ela e Caio continuavam se encontrando ocasionalmente em círculos sociais, mas os comentários sobre eles diminuíram depois que ambos deixaram claro que eram apenas amigos.

Eu não investiguei.

Não precisava.

A vida deles não era mais uma extensão da minha.

Quanto a Caio, nosso contato praticamente desapareceu depois que todas as pendências financeiras foram concluídas.

Recebi uma mensagem dele alguns meses mais tarde.

“Vendi a casa. Espero que você esteja bem.”

Respondi:

“Estou. Espero que você também fique.”

Ele agradeceu.

Não houve continuação.

E estava tudo certo.

No meu aniversário seguinte, acordei cedo e comprei flores para mim.

Não porque ninguém tivesse lembrado.

Minha mãe ligou pela manhã.

Seu Augusto e os moradores prepararam um bolo simples à tarde.

Até Dona Célia tentou tocar duas notas no piano em minha homenagem e culpou o instrumento quando errou.

Mas eu queria comprar aquelas flores.

Coloquei-as perto da fotografia de Mimo.

O sol entrava pela janela, iluminando as pétalas e a pequena moldura.

Fiquei olhando por um tempo.

Pensei na mulher que tinha chegado àquela casa no escuro, com as costas doendo, o casamento destruído e a sensação de que ninguém no mundo seria capaz de escolhê-la.

Eu queria poder dizer alguma coisa para ela.

Não que tudo ficaria perfeito.

Não ficou.

Não que ninguém mais a machucaria.

Isso ninguém podia prometer.

Eu só diria:

Você não precisa esperar que alguém escolha você para começar a se escolher.

Sentei ao piano naquela tarde e toquei uma das músicas que tinha encontrado na caixa da faculdade.

Errei uma nota perto do final.

Continuei.

Ninguém morreu por causa do erro.

Ninguém me olhou com decepção.

Eu mesma não me castiguei.

Terminei a música e deixei as mãos repousarem sobre as teclas.

Pela janela, entrava o mesmo tipo de luz quente que Mimo adorava.

Respirei fundo.

Durante anos, achei que meu final feliz seria conseguir fazer Caio me amar da maneira que eu precisava.

Eu estava errada.

Meu verdadeiro recomeço começou no dia em que parei de entregar a outra pessoa o direito de decidir quanto a minha vida valia.

E, pela primeira vez, o caminho diante de mim não precisava da aprovação de ninguém para parecer meu.

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