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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Assinar o acordo não significou que o divórcio estivesse concluído imediatamente.

Ainda havia procedimentos, ajustes e detalhes que precisavam ser resolvidos. Mas alguma coisa mudou depois daquele dia.

A pergunta deixou de ser se eu realmente iria embora.

Eu já tinha ido.

Agora precisava decidir o que faria com a vida que vinha depois.

Durante anos, eu construí meus planos ao redor de Caio.

Onde morar.

Com quem passar feriados.

Quais eventos frequentar.

Até a maneira como me vestia em certas ocasiões era pensada em função da família dele, do ambiente em que circulávamos e da imagem que esperavam de nós.

Naquela pequena casa, comecei a perceber quantas escolhas eu quase nunca tinha feito apenas porque gostava delas.

Comprei cortinas amarelas para a cozinha.

Minha mãe teria chamado de espalhafatosas.

Caio provavelmente teria preferido tons neutros.

Eu gostei.

Então ficaram.

Comecei também a caminhar pelo bairro todas as manhãs.

Às vezes passava na casa de repouso antes mesmo das atividades. Em outros dias tomava café numa padaria pequena perto da praça.

Eu estava aprendendo algo que deveria ser simples:

ter rotina sem precisar de testemunha.

Numa quinta-feira, Seu Augusto me chamou depois da atividade.

— Posso fazer uma proposta?

— Depende. Dona Célia está envolvida?

— Infelizmente, sempre.

Ele riu e me mostrou uma folha com algumas anotações.

A instituição queria organizar um pequeno encontro musical para familiares e moradores. Nada grandioso. Algumas músicas, café e uma tarde diferente.

— Queremos que você ajude a escolher o repertório.

— Eu?

— Você.

— Não sou professora.

— Ninguém pediu diploma.

Olhei para as anotações.

Parte de mim sentiu medo.

Não porque fosse difícil tocar algumas músicas.

Mas porque aceitar significava assumir um compromisso com algo que pertencia ao meu futuro.

— Eu topo.

Seu Augusto bateu as mãos.

— Ótimo. Agora prepare-se para Dona Célia tentar escolher cinquenta músicas.

Ela escolheu quarenta e três.

Passamos semanas reduzindo a lista.

Enquanto isso, Caio enviou uma mensagem perguntando se eu poderia conversar sobre os últimos objetos da casa.

Liguei.

— O que falta?

— Algumas coisas suas no escritório. Fotografias antigas, documentos da faculdade e uma caixa que estava no armário do corredor.

— Pode guardar por enquanto.

Ele hesitou.

— Eu queria perguntar outra coisa.

Esperei.

— Você realmente pretende ficar em Curitiba depois do divórcio?

— Pretendo.

— Definitivamente?

A palavra me incomodou menos do que antes.

— Caio, eu comprei esta casa antes mesmo de tudo desmoronar. Acho que uma parte de mim já sabia que precisava de um lugar meu.

Ele não respondeu.

— Estou pensando em vender a casa grande depois que a divisão estiver concluída — disse.

— Faça o que achar melhor.

— Não quero continuar lá.

Pela primeira vez, percebi que a casa também tinha se transformado para ele.

Mas aquele já não era um problema que eu precisava resolver.

— Espero que encontre um lugar onde fique bem.

Caio respirou fundo.

— Você fala comigo como se eu fosse alguém que conheceu há muito tempo.

— Talvez seja o que estamos nos tornando.

— Isso é estranho.

— Para mim também.

Depois da ligação, não fiquei presa à conversa.

Voltei a organizar as partituras.

Esse era outro sinal de mudança.

Antes, uma frase de Caio teria ocupado minha mente durante dias.

Agora ela tinha espaço, mas não controle.

Minha mãe começou a me ligar uma vez por semana.

Às vezes falávamos cinco minutos.

Outras vezes vinte.

Ela ainda cometia deslizes.

Numa conversa, começou a dizer que “se eu tivesse sido um pouco mais paciente” talvez as coisas tivessem acabado de outra forma.

Interrompi.

— Mãe.

Ela parou.

— Você está fazendo de novo.

Silêncio.

— Desculpa.

Foi só isso.

Mas, meses antes, aquela conversa teria terminado numa briga.

Eu comecei a entender que colocar limites não era exigir perfeição.

Era mostrar claramente onde eu não aceitaria voltar.

Júlia não fazia mais parte da minha rotina.

Vi seu nome uma vez numa matéria social.

A reportagem mencionava Caio em outro contexto, mas já não tratava os dois como um possível casal.

Não procurei explicações.

Talvez ela tivesse colocado limites.

Talvez os jornalistas simplesmente tivessem encontrado outro assunto.

De qualquer maneira, já não me importava como antes.

Meu casamento não terminava porque outra mulher existia.

Terminava porque, dentro dele, eu havia deixado de existir para mim mesma.

Essa diferença tinha se tornado clara.

Na semana do encontro musical, Caio me ligou.

— Seu advogado confirmou a próxima etapa.

— Recebi o e-mail.

— Parece que estamos perto.

— Sim.

Ele ficou em silêncio.

Depois perguntou:

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

— Pode perguntar. Não prometo responder.

— Se eu tivesse percebido tudo antes… teria sido diferente?

Fechei os olhos.

Era uma pergunta perigosa porque não tinha resposta verificável.

— Talvez.

— Só talvez?

— Caio, eu não sei quem nós seríamos se você tivesse agido diferente cinco anos atrás. Não dá para construir vida em cima de uma versão que nunca aconteceu.

— Eu penso muito nisso.

— Eu também pensei.

— E parou?

Olhei para a janela.

— Estou tentando.

Ele demorou antes de falar novamente.

— Você me perdoa?

Meu coração apertou.

Não por amor romântico.

Por tudo o que aquela pergunta carregava.

— Ainda estou entendendo o que significa perdoar.

— Eu queria que significasse…

Ele parou.

— Que eu voltasse?

— Sim.

A honestidade dele não me irritou.

— Então não peça isso agora.

— Por quê?

— Porque, se o seu arrependimento depende de uma recompensa, ele ainda não é responsabilidade de verdade.

Caio não discutiu.

— Entendi.

Naquela noite, pensei muito na conversa.

E tomei uma decisão que, pela primeira vez, não dependia do comportamento futuro dele.

Mesmo que Caio se tornasse amanhã o homem que eu quis durante anos, eu não voltaria.

Não porque quisesse puni-lo.

Mas porque finalmente entendia que uma relação não precisava terminar apenas quando não restava sentimento.

Às vezes terminava quando o custo de continuar era perder a si mesma outra vez.

No dia seguinte, comuniquei ao meu advogado que queria concluir o processo sem qualquer tentativa de reconciliação ou adiamento.

Era a decisão que faltava.

Caio podia mudar.

Minha mãe podia aprender.

Júlia podia reconhecer seus erros.

Mas meu futuro não ficaria mais esperando que alguém se transformasse para então começar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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