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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Cheguei ao café alguns minutos antes do horário combinado. Escolhi uma mesa próxima à janela e pedi água, embora soubesse que provavelmente não conseguiria beber nada. Durante anos, qualquer conversa séria com Caio tinha me deixado ansiosa antes mesmo de começar. Eu ensaiava palavras, imaginava respostas e terminava quase sempre desistindo de dizer metade do que precisava.

Naquela manhã foi diferente.

Eu ainda estava nervosa, mas sabia exatamente por que tinha ido.

Caio chegou usando um sobretudo escuro. Sentou diante de mim e, antes mesmo que o garçom se aproximasse, colocou o celular sobre a mesa.

— Você saiu de casa, queimou as fotos e agora quer mesmo levar isso adiante?

— Quero.

— Ontem eu achei que você precisava de espaço.

— É justamente isso que você sempre acha. Que eu preciso de algumas horas, de alguns dias, de um pouco de espaço… e depois tudo volta ao normal.

Ele apoiou os braços na mesa.

— E não volta?

— Voltava porque eu fazia voltar.

Caio me encarou.

Não havia raiva em seu rosto. Parecia mais confusão.

— Você está dizendo que nunca foi feliz comigo?

— Não. Estou dizendo que passei anos tentando ser feliz com alguém que parecia não perceber quando eu estava infeliz.

O garçom chegou. Caio pediu café, e eu finalmente tomei um gole de água.

Ele esperou o homem se afastar.

— Isso tudo é por causa da Júlia?

Eu já esperava aquela pergunta.

— Não.

A testa dele se contraiu.

— Então por que você mencionou ela ontem?

— Porque Júlia é a parte mais visível de um problema muito maior.

— Nunca houve nada entre nós.

— Eu não disse que houve.

A resposta pareceu pegá-lo desprevenido.

Inclinei-me um pouco para a frente.

— Talvez seja isso que você nunca entendeu. Eu não preciso provar que você teve um caso com ela para reconhecer que fui colocada em segundo plano dentro do meu próprio casamento.

Ele ficou sério.

— Você sabia que ela estava passando por uma fase complicada quando voltou.

— E por isso eu deveria aceitar tudo?

— Eu não disse isso.

— Você não precisava dizer. Cada vez que eu reclamava, você me tratava como se eu estivesse exagerando. Quando a imprensa insinuava que vocês combinavam, você ignorava. Quando ela precisava de você, você aparecia. Quando eu precisava, você dizia para eu me acalmar.

O café chegou.

Caio não tocou na xícara.

— Você realmente acredita que eu nunca fiz nada por você?

— Fez.

Ele ergueu os olhos.

— Você me deu uma casa bonita. Segurança. Dinheiro. O Mimo.

Minha voz falhou ao pronunciar o nome do coelho.

Caio percebeu.

— O que aconteceu?

Pela primeira vez desde que chegara, hesitei.

— Ele morreu durante o transporte.

A expressão dele mudou de imediato.

— O quê?

— A companhia me ligou quando cheguei aqui.

— Por que você não me contou?

A pergunta saiu quase indignada.

Eu o encarei.

— Para quê?

Caio abriu a boca, mas não respondeu.

— Você me disse “você que sabe” quando perguntei se podia levá-lo. Eu fui embora e você não perguntou se chegamos bem. Não fazia sentido ligar depois para contar que ele morreu.

Ele baixou os olhos para o café.

Por alguns segundos, toda a firmeza que ele costumava carregar pareceu desaparecer.

— Eu gostava daquele coelho.

— Eu sei. Você me deu ele.

— Eu não sabia.

— Agora sabe.

Não usei a morte de Mimo para machucá-lo. Não precisava. A realidade já era suficientemente dolorosa.

Caio passou a mão pelo rosto.

— Eu deveria ter perguntado se vocês chegaram bem.

— Deveria.

Não houve discussão.

Apenas aquela palavra ficando entre nós.

Depois de algum tempo, ele voltou ao assunto do divórcio.

Disse que podíamos conversar com calma sobre os bens. A casa onde morávamos tinha sido adquirida durante o casamento e havia outras questões financeiras a organizar. Minha pequena casa em Curitiba, porém, tinha sido comprada por mim antes, com recursos meus, e eu pretendia continuar nela.

— Não quero transformar isso numa guerra — falei. — Quero uma separação justa e clara.

— Você já falou com um advogado?

— Ainda não. Vou procurar orientação esta semana.

Ele assentiu.

— Eu também.

Aquilo me surpreendeu menos do que eu imaginava.

Talvez porque eu estivesse finalmente tratando o divórcio como o que ele realmente era: uma decisão prática, não uma ameaça emocional.

Quando terminamos, Caio perguntou:

— Você vai voltar para pegar o resto das suas coisas?

— Em algum momento.

— Posso mandar tudo.

— Prefiro escolher pessoalmente o que quero.

Ele recostou na cadeira.

— Você sempre disse que aquela casa era sua casa.

— Eu queria que fosse.

Caio não respondeu.

Saí do café antes dele.

No caminho de volta, não senti alívio imediato. Também não senti vitória. Divórcio não era uma porta mágica que, ao ser atravessada, apagaria anos de frustração.

Ainda doía.

A diferença era que agora a dor tinha direção.

Naquela tarde fui novamente à casa de repouso.

Seu Augusto estava tentando mover algumas cadeiras para abrir espaço no pátio.

— Chegou na hora certa — disse. — O pessoal decidiu que você agora tem obrigações conosco.

Sorri.

— Que tipo de obrigações?

Uma senhora chamada Dona Célia apareceu atrás dele.

— Tocar pelo menos duas músicas.

— Isso é exploração.

— Então três.

Eu ri.

Era uma risada pequena, mas verdadeira.

Comecei a frequentar o lugar quase todos os dias. Não como funcionária nem como alguém tentando salvar ninguém. Eu simplesmente tocava. Às vezes conversava. Outras vezes ajudava Seu Augusto a organizar partituras antigas que haviam sido doadas junto com o piano.

Também comecei a arrumar minha própria casa.

Troquei uma lâmpada que estava queimada.

Comprei uma mesa pequena para a cozinha.

Plantei duas mudas perto da janela porque Dona Célia insistiu que uma casa precisava de alguma coisa crescendo dentro dela.

Pareciam mudanças insignificantes.

Para mim, não eram.

Durante o casamento, eu tinha passado tanto tempo esperando Caio notar o que eu precisava que havia esquecido como era tomar uma decisão sem pedir aprovação.

Minha mãe continuou ligando.

Não atendi nas primeiras vezes.

Na quarta, mandei uma mensagem:

“Estou bem. Preciso de espaço. Quando eu estiver pronta para conversar, aviso.”

Ela respondeu quase imediatamente:

“Você está destruindo seu casamento por orgulho.”

Li uma vez.

Depois arquivei a conversa.

Dois dias mais tarde, Caio enviou o contato do advogado que o representaria e perguntou se eu já tinha alguém.

Respondi apenas que sim.

Na verdade, eu tinha marcado uma consulta para a manhã seguinte.

Na reunião, expliquei que não buscava vingança, nem pretendia esconder bens, nem queria transformar questões pessoais em acusações sem fundamento. Eu só queria entender minhas opções e encerrar o casamento da forma mais limpa possível.

Saí de lá com uma lista curta de documentos para reunir e uma sensação estranha de realidade.

Aquilo estava acontecendo.

Não era mais uma frase dita diante de um álbum queimando.

Era um processo.

No fim da semana, recebi outra mensagem da minha mãe.

Dessa vez não havia acusação.

“Vou até sua casa amanhã. Júlia vai comigo. Precisamos conversar como adultas.”

Fiquei olhando para a tela.

Minha primeira vontade foi dizer não.

Depois pensei em quantas vezes tinha passado anos imaginando conversas, respostas e explicações que nunca vinham.

Talvez eu não precisasse daquela conversa para salvar meu casamento.

Mas precisava descobrir se conseguiria ouvi-las sem voltar a ser a mulher que aceitava tudo para evitar conflito.

Respondi:

“Às duas. E não vou discutir gritando.”

Minha mãe visualizou.

Não respondeu.

Coloquei o celular de lado e fui até o piano.

No dia seguinte, pela primeira vez, eu receberia Júlia não como rival.

Mas como alguém de quem finalmente exigiria respostas sem transformar suspeitas em certezas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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