
Parte 2
Passei a mão devagar sobre a madeira do piano. Fazia anos que eu não me sentava diante de um instrumento, mas meus dedos ainda lembravam o caminho. — Eu sei tocar um pouco — falei. Seu Augusto abriu um sorriso surpreso. — Então esse piano acabou de encontrar alguém.
Sentei no banco e levantei a tampa. Toquei primeiro algumas notas, só para testar, e logo uma melodia simples preencheu o pátio. Duas senhoras apareceram no corredor, depois um homem apoiado numa bengala e, quando percebi, havia várias pessoas ouvindo em silêncio. Ninguém parecia exigir nada de mim além daquela música.
Quando terminei, uma das senhoras começou a bater palmas. — Faz tempo que esse lugar não fica assim — comentou. Perguntei o que ela queria dizer. — Parecendo uma casa, e não apenas um lugar onde a gente mora.
A frase me atingiu de um jeito estranho. Eu tinha acabado de sair de uma casa enorme onde nunca conseguira me sentir realmente em casa. Ali, num pátio que eu conhecia havia menos de uma hora, desconhecidos estavam sorrindo para mim simplesmente porque eu havia tocado algumas músicas.
Meu celular começou a vibrar dentro da bolsa. Era minha mãe. Por alguns segundos pensei em ignorar, mas acabei atendendo.
— Onde você está? — ela perguntou, sem sequer me cumprimentar. — Hoje é o aniversário da Júlia. Você não vai fazer nenhuma cena, vai?
Olhei para as teclas do piano. — Não vou à festa. — Como assim não vai? As famílias vão estar lá. Você precisa pensar na imagem do Caio. Não é hora de transformar problemas de casal em espetáculo.
Eu quase ri. Até naquele momento, ela estava preocupada com Caio, com Júlia, com as famílias e com o que os outros pensariam. — Mãe, você lembra que dia é hoje? — Claro que lembro. É aniversário da Júlia. — Também é o meu.
Do outro lado, houve uma pausa curta. Não longa o bastante para parecer culpa. — Eu sei, filha. Mas você já é adulta. Júlia preparou uma comemoração importante e…
Desliguei.
Minhas mãos estavam frias, mas eu não chorei. Seu Augusto, que estava a alguns passos de distância, não perguntou o que tinha acontecido. Apenas colocou uma xícara de café sobre o piano e disse: — Se quiser ficar mais um pouco, fique.
Voltei para o banco. Uma das moradoras perguntou se eu sabia tocar alguma música alegre. Toquei. Depois outra pediu uma canção antiga que eu conhecia apenas pela metade, e todos riram quando errei uma sequência de acordes. Pela primeira vez em muito tempo, errar alguma coisa não parecia transformar minha existência em um problema.
Passei quase toda a tarde ali. Quando voltei para casa, havia três chamadas de Caio e uma mensagem: “Sua mãe disse que você não vem. Precisamos conversar.” Fiquei olhando para a tela sem responder imediatamente.
Ele ligou outra vez. Atendi.
— Onde você está? — perguntou. — Na minha casa. — Você realmente não vai aparecer? — Não.
Caio respirou fundo. — Todo mundo já percebeu que você não está aqui. — Então hoje talvez percebam que eu existo. Ele ficou calado, e eu continuei: — E amanhã quero começar a resolver o divórcio de verdade.
— Você ainda está com isso? — perguntou.
Aquela frase me fez entender alguma coisa que as duas palavras da noite anterior tinham escondido. Para Caio, meu pedido de divórcio ainda era apenas mais uma crise que acabaria quando eu me acalmasse. — Sim — respondi. — E dessa vez você vai precisar acreditar em mim.
— Vamos conversar pessoalmente.
— Tudo bem. Amanhã, em um lugar público.
Ele demorou um pouco antes de concordar. Marcamos um café para o fim da manhã. Quando desliguei, coloquei o celular sobre a mesa e percebi que minhas mãos já não tremiam.
No dia seguinte, eu iria encontrar o homem que tinha sido o centro da minha vida durante anos. Só que, pela primeira vez, não iria para convencê-lo a me amar. Iria para dizer que eu estava pronta para ir embora.
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