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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

No dia em que herdei R$ 12 milhões, ouvi meu marido planejar o divórcio com outra mulher dentro do nosso quarto

PARTE 1

Quando recebi a ligação do advogado, eu estava agachada dentro de um dos banheiros da empresa, tentando conter o choro enquanto recuperava o fôlego.

— Senhora Marina, parabéns. O senhor Antônio deixou para você todo o patrimônio dele, avaliado em aproximadamente R$ 12 milhões.

Por alguns segundos, não consegui responder.

Seu Antônio?

O senhor idoso e solitário que, praticamente todos os dias, colocava uma mesinha com um tabuleiro de xadrez perto da entrada do condomínio onde eu morava?

Eu tinha me mudado para aquele condomínio antigo três anos antes. Desde então, quase todas as noites, quando voltava do trabalho, cumprimentava Seu Antônio. Às vezes parava alguns minutos para conversar com ele, e, com o tempo, aquela conversa de fim de tarde virou parte da minha rotina.

Ele dizia que eu me parecia muito com a neta que havia perdido.

Talvez por isso tivesse criado tanto carinho por mim.

E eu, que já não conseguia enxergá-lo apenas como um vizinho, passei a tratá-lo com o mesmo cuidado que teria com meu próprio avô.

No ano anterior, Seu Antônio tinha falecido de repente.

Naquela época, eu realmente achei que nunca mais veria aquele sorriso tranquilo com que ele me recebia perto do portão.

Jamais imaginei que, depois de partir, ele deixaria tudo o que tinha para mim.

Quando a ligação terminou, fiquei alguns instantes olhando para a tela apagada do celular. Depois enxuguei as lágrimas, respirei fundo e saí do banheiro.

Assim que voltei para a área de trabalho, Lívia, uma colega da minha equipe, aproximou-se da minha mesa.

— Marina, seu marido veio te procurar de novo. Está esperando lá fora.

Meu coração apertou.

Rafael quase nunca aparecia no meu trabalho. Quando fazia isso, normalmente era porque alguma coisa importante tinha acontecido.

Caminhei até a entrada e o encontrei parado perto da porta, com o rosto fechado.

— O que aconteceu? — perguntei, aproximando-me.

Rafael olhou para os lados antes de me puxar um pouco mais para o canto.

— Marina, a empresa está preparando uma demissão em massa. Existe uma chance grande de eu entrar na lista.

Fiquei surpresa.

— Como assim? Você sempre trabalhou bem.

Ele soltou um suspiro.

— É briga interna, corte de custos, essas coisas. E ainda faltam uns R$ 200 mil do financiamento do apartamento. Se eu perder o emprego…

— A gente vai dar um jeito — respondi.

Os olhos dele mudaram imediatamente.

— Você tem alguma solução?

Por um instante, quase contei tudo.

Quase disse que, poucos minutos antes, um advogado tinha me informado que eu acabara de herdar uma fortuna.

Mas me lembrei do que ele havia recomendado durante a ligação: enquanto toda a situação não estivesse devidamente encaminhada, era melhor manter discrição sobre uma quantia tão grande e evitar problemas desnecessários.

— Posso procurar algum trabalho extra — falei.

A expressão de Rafael escureceu na mesma hora.

— E quanto você acha que vai conseguir ganhar fazendo trabalho extra?

A decepção no rosto dele me machucou.

Nos três anos de casamento, Rafael sempre tinha sido quem sustentava a maior parte das despesas da casa. Meu salário cobria algumas contas do cotidiano, mas quase nunca sobrava dinheiro no fim do mês.

Só que agora tudo havia mudado.

Com aquela herança, a preocupação financeira poderia deixar de fazer parte da nossa vida.

— Rafael, não fica assim. A gente vai encontrar uma saída — falei, segurando a mão dele.

Ele puxou a mão de volta.

— Você não entende! Um homem sem emprego não é nada!

Antes que eu pudesse responder, ele se virou e foi embora.

Ainda caminhei alguns passos atrás dele, mas Rafael não olhou para trás.

Quando voltei para a minha mesa, uma sensação incômoda permaneceu comigo.

A reação dele tinha sido estranha demais.

Rafael já havia passado por momentos difíceis antes, mas nunca tinha reagido daquela maneira comigo.

No fim do expediente, saí mais cedo e fui direto para casa. Pensei em preparar um jantar caprichado para tentar deixá-lo mais tranquilo.

Assim que abri a porta do apartamento, porém, ouvi a voz dele vindo do quarto.

— Yasmin, espera só mais um pouco. Eu estou tentando resolver isso.

Parei no mesmo instante.

Yasmin?

Caminhei devagar até o corredor. A porta do quarto estava apenas encostada e, pela abertura, consegui ver Rafael falando ao celular.

— Eu sei que você está ficando impaciente, mas ainda preciso pensar em como falar com a Marina.

Meu corpo ficou rígido.

Do outro lado da ligação, alguém disse alguma coisa que eu não consegui ouvir.

Rafael respondeu:

— O quê? Você quer que eu me divorcie agora?

Senti o coração disparar.

— Mas, sem dinheiro, depois do divórcio eu vou sustentar você como?

Foi como levar um golpe no peito.

Rafael estava discutindo o nosso divórcio com outra mulher.

Fiquei parada, sem conseguir me mexer.

— Tá bom, tá bom. Eu entendi. Amanhã vou conversar direito com ela.

Ele desligou.

Recuei rapidamente e fui para a cozinha, fingindo que estava lavando alguns legumes quando ouvi os passos dele se aproximando.

— Marina, você já chegou?

— Cheguei. Pensei em fazer alguma coisa gostosa para você comer.

Tentei manter a voz normal.

Rafael se aproximou e me abraçou por trás.

— Amor, desculpa pelo jeito que falei com você hoje. Eu estava nervoso.

Meu corpo ficou duro entre os braços dele.

— Tudo bem.

Ele se afastou um pouco.

— Marina, eu queria conversar sobre uma coisa.

Naquele momento, eu soube.

Era aquilo.

Virei-me para ele.

— Sobre o quê?

Rafael hesitou.

— Se… eu estou dizendo só se… nós nos divorciássemos, o que você acharia?

Meu coração pareceu despencar.

Mesmo depois de ter ouvido a ligação, escutar aquilo diretamente dele foi doloroso.

— Por que nós teríamos que nos divorciar?

Rafael assumiu uma expressão séria.

— Estamos casados há três anos e ainda não tivemos filhos. Agora eu ainda posso perder o emprego. Não quero arrastar você para os meus problemas.

A forma como ele falava parecia tão sincera que, se eu não tivesse escutado a ligação, talvez acreditasse.

— Eu não tenho medo de passar por dificuldades com você.

O rosto dele mudou.

— Marina, não seja teimosa. Separar pode ser melhor para nós dois. Você ainda é jovem. Pode encontrar alguém melhor.

Olhei para ele por alguns segundos.

— E se eu não concordar?

Rafael ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Então… deixa para lá.

Mas eu vi.

A decepção nos olhos dele foi impossível de esconder.

Durante o jantar, Rafael parecia distraído. Pegava o celular o tempo inteiro, olhava para a tela e logo o colocava de volta sobre a mesa.

Eu precisava saber um pouco mais.

Então perguntei, tentando parecer casual:

— Rafael, tem uma mulher chamada Yasmin trabalhando na sua empresa?

A mão dele tremeu.

Os hashis que ele ainda tinha o hábito de usar em algumas refeições caíram sobre a mesa.

— Você… de onde conhece a Yasmin?

Observei cada mudança no rosto dele.

— A Lívia comentou alguma coisa. Disse que entrou uma funcionária nova na sua empresa e que ela parece ser bem bonita.

Rafael se abaixou rapidamente para pegar o que havia derrubado.

— Ah… sim. Tem uma pessoa com esse nome.

Ele evitou meus olhos.

— Mas eu quase não tenho contato com ela.

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