
PARTE 3
Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. O lado de Rafael na cama continuava intacto, e aquele espaço vazio me causou uma sensação estranha, misturando dor com uma espécie de clareza que eu ainda não sabia nomear. Tomei banho, me arrumei para o trabalho e saí sem mandar mensagem para ele. Se Rafael precisava de distância para decidir o que queria, eu também usaria aquela distância para entender o que eu precisava fazer.
Durante o almoço, fui ao escritório do advogado que estava cuidando da sucessão de Seu Antônio. Levei meus documentos do casamento e tudo o que ele havia solicitado. O advogado explicou com calma que a herança ainda passaria por procedimentos formais e que eu não deveria agir como se R$ 12 milhões já estivessem disponíveis na minha conta. Parte do patrimônio estava em aplicações, parte em imóveis e outros bens que precisariam ser regularizados antes de qualquer decisão maior.
Aquilo me trouxe de volta à realidade. Eu não tinha acordado milionária com um cartão sem limite nas mãos. O que eu tinha era o direito a um patrimônio significativo deixado por alguém que confiara em mim, acompanhado de responsabilidades e de um processo que levaria tempo. De certa forma, isso me confortou, porque me obrigava a pensar antes de agir.
Quando mencionei o divórcio, o advogado analisou o regime indicado na certidão e explicou que, em princípio, os bens recebidos por herança permaneciam particulares. Ainda assim, aconselhou que eu tivesse uma advogada especializada em família para conduzir a separação e examinar especificamente o apartamento financiado e tudo o que havia sido adquirido durante o casamento. Saí de lá com um contato indicado e uma certeza: eu não assinaria nada apenas para facilitar a vida de Rafael.
Naquela tarde, Rafael me mandou uma mensagem perguntando se poderíamos conversar à noite. Respondi que sim. Ele chegou por volta das oito, sem a mala, e ficou parado na sala como se fosse visita. Era estranho ver o homem com quem eu dividira a cama durante três anos não saber onde colocar as próprias mãos dentro de casa.
— Eu pensei bastante — começou. — Acho que devemos fazer isso de forma amigável.
— Eu também acho.
A rapidez da minha resposta pareceu surpreendê-lo. Talvez Rafael esperasse lágrimas, súplicas ou uma tentativa desesperada de convencê-lo a ficar. Eu ainda estava machucada, mas a noite anterior tinha mudado alguma coisa em mim. Eu já não queria pedir amor a alguém que estava planejando sair pelas minhas costas.
— Então podemos vender o apartamento — disse ele. — Quitamos o que falta do financiamento e dividimos o restante.
— Podemos avaliar essa possibilidade — respondi. — Mas antes quero saber quanto já pagamos, quanto cada um colocou e quais opções o banco oferece.
Rafael franziu a testa.
— Para que complicar tanto?
Olhei diretamente para ele.
— Não é complicação. É responsabilidade.
Ele se levantou e começou a andar pela sala. Disse que estava sob enorme pressão no trabalho, que talvez fosse demitido a qualquer momento e que precisava resolver a vida. Eu o ouvi até o fim. Depois perguntei se aquela urgência também tinha relação com Yasmin.
Rafael parou.
— Eu já disse que as coisas estão confusas.
— Então deixe de fazê-las parecer confusas.
Ele soltou o ar devagar.
— Eu gosto dela.
Foram apenas três palavras. Mesmo assim, talvez tenham sido as palavras mais honestas que Rafael havia me dito desde que tudo começara.
Não perguntei quando tinha começado nem quis saber detalhes que apenas me machucariam mais. Perguntei somente se aquela aproximação existia antes de ele me pedir o divórcio. Rafael baixou os olhos e respondeu que sim. Disse que no início eram conversas, depois passou a pensar nela de uma maneira diferente e percebeu que já não estava feliz no casamento.
— Você poderia ter me dito isso — falei.
— Eu não sabia como.
— Então preferiu conversar primeiro com ela sobre como sair do nosso casamento.
Rafael não respondeu.
Aquela ausência de resposta foi pior do que uma desculpa ruim.
Na mesma noite, deixamos definido que dormiríamos separados enquanto o processo de divórcio fosse discutido. Rafael continuaria fora do apartamento por enquanto, e ambos manteríamos o pagamento das despesas comuns até que houvesse uma solução para o imóvel. Eu também disse que não faria transferências extras nem assumiria sozinha o financiamento apenas porque ele estava preocupado com uma possível demissão.
Ele não gostou.
— Você sabe que eu sempre paguei mais contas do que você.
— Sei. E nunca neguei isso. Mas agora estamos separando uma vida que foi construída pelos dois. Não vou transformar gratidão pelos últimos três anos em uma obrigação de aceitar qualquer proposta hoje.
Rafael ficou em silêncio.
Antes de sair, perguntou se eu já tinha procurado advogado. Eu disse que buscaria orientação antes de qualquer assinatura. Seu rosto mudou de leve, como se aquela informação o incomodasse. Pela primeira vez, pensei que talvez ele tivesse contado com uma versão de mim mais frágil, mais assustada e disposta a concordar com tudo.
Nos dias seguintes, comecei a organizar extratos, contratos e comprovantes do apartamento. Descobri que nossa situação financeira era apertada, mas não caótica. Ainda faltava bastante para terminar o financiamento, porém havia valor considerável já pago ao longo dos anos. Isso significava que qualquer decisão sobre venda ou transferência precisava ser tomada com calma.
A advogada de família indicada pelo profissional que cuidava da herança se chamava Helena. Na primeira conversa, ela não prometeu vitória nem soluções instantâneas. Apenas ouviu minha história, pediu documentos e disse uma frase simples: — O objetivo não é punir seu marido. É garantir que você não saia de um divórcio aceitando obrigações que não são só suas.
Eu gostei daquela postura.
Não queria destruir Rafael.
Queria apenas deixar de ser destruída pelas escolhas dele.
Enquanto isso, no trabalho, eu tentava manter minha rotina. Lívia percebeu que eu estava mais quieta e perguntou se estava tudo bem. Eu disse apenas que estava enfrentando problemas em casa. Ainda não queria contar sobre o divórcio, muito menos sobre a herança. Quanto menos pessoas soubessem naquele momento, mais espaço eu teria para organizar meus pensamentos.
Três dias depois, Rafael me ligou perto do fim do expediente. Pela voz dele, percebi imediatamente que alguma coisa tinha acontecido.
— Marina, a lista saiu.
Fechei os olhos por um instante.
— Você foi demitido?
— Fui.
O medo que ele demonstrara dias antes finalmente tinha se tornado realidade.
Perguntei se receberia as verbas da rescisão e se estava tudo corretamente encaminhado. Rafael disse que sim, mas parecia mais preocupado com outra coisa.
— Agora eu realmente não posso continuar pagando tudo do jeito que estava.
— Então vamos recalcular as despesas temporariamente e mostrar os valores para os advogados — respondi.
Ele demorou alguns segundos.
— Você não pode me ajudar um pouco mais por uns meses?
A pergunta me atingiu de uma forma diferente daquela que teria me atingido uma semana antes. Antes, eu teria feito qualquer coisa para impedir Rafael de sofrer. Agora eu sabia que ele tinha decidido deixar o casamento antes mesmo de perder o emprego.
— Posso cumprir a minha parte — respondi. — Mas não posso ser seu plano de segurança enquanto você constrói outra vida.
Rafael ficou calado.
Depois desligamos.
Naquela noite, sentada sozinha à mesa da cozinha, percebi que duas coisas tinham acontecido quase ao mesmo tempo: Rafael perdera a estabilidade que acreditava ter, e eu começava lentamente a construir a minha. Não graças aos R$ 12 milhões, que ainda nem estavam disponíveis, mas graças a uma decisão muito mais simples.
Eu não permitiria mais que o medo dele determinasse as minhas escolhas.
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